Salman Toor e Luhring Augustine/Whitney Museum of American Art
Salman Toor e Luhring Augustine/Whitney Museum of American Art

Pinturas de Salman Toor retratam cenas contemporâneas em tributo aos mestres do passado

Artista paquistanês tem 15 obras em exposição no Whitney Museum de Nova York

Roberta Smith, The New York Times

09 de janeiro de 2021 | 16h00

NOVA YORK — As pinturas evocativas e carinhosamente executadas de Salman Toor começam a dedilhar nossas emoções quase no mesmo momento em que as vemos. Os 15 exemplos das novas e recentes obras que compõem How Will I Know [Como poderei saber], a brilhante estreia institucional do artista em Nova York, no Whitney Museum of American Art, contam as histórias de jovens homens magrelos e gentilmente flexíveis, de cabelo escuro e almas delicadas, que não fariam mal nem a uma mosca. A narrativa se inspira em ziguezagues entre o pessoal, o social, o político e além.

Não demora muito para perceber que os personagens principais são gays — e não são brancos. O início da mostra exibe The Star (A estrela), um tondo — ou pintura em suporte circular — de 60 centímetros, que ecoa em sua redondeza o espelho elíptico da imagem. Um jovem usando uma felpuda jaqueta cor de rosa admira seu reflexo enquanto dois amigos cuidam de seu cabelo e o maquiam. É hora de festejar. A loirice e a pele clara do cabeleireiro acentuam o marrom da pele do nosso herói.

Toor nasceu em Lahore, no Paquistão, em 1983, estudou arte na Universidade de Wesleyan em Ohio e vive no East Village. Suas pinturas são cenas imaginadas com base nas experiências dele e de seus amigos como homens gays não brancos, tanto no sul da Ásia quanto em Nova York. Ele trabalha num território estético na fronteira entre a pintura, a ilustração e os quadrinhos. Na verdade, a mostra inteira forma quase uma graphic novel extraordinariamente suntuosa.

O espírito dessas pinturas é introspectivo, ainda que levemente cômico, mesmo quando a temática se torna sinistra. A cuidadosa modulação de luz e cor — um maravilhoso, nebuloso, quase monocromático verde prevalece em várias das melhores obras — lança um feitiço próprio. Tudo isso exerce um impulso emocional que é raro, mesmo em um tempo de incríveis pinturas figurativas, em que estilo e substância, motivados por questões de identidade, caminham regularmente lado a lado.

Outro elemento-chave que amarra as envolventes narrativas de Toor é o toque. Suas delicadas e carinhosas pinceladas e intrigantes texturas são, de certa maneira, grandes demais para as imagens. Permanecem, então, resolutamente visíveis e reconfortantes, exprimindo detalhes cruciais, capturando e relatando expressões faciais, no que o artista se destaca.

Uma narrativa possível se desdobra na mostra, que foi organizada pelo curador Christopher Y. Lew e por Ambika Trasi, uma curadora-assistente cujo excepcional artigo a respeito do artista pode ser encontrado no site da mostra.

Em Car Boys (Garotos de carro), de 2019, o protagonista e um amigo têm um encontro desagradável com a polícia no Paquistão. Tea (Chá), de 2020, uma das três grandes pinturas verdes da mostra, descreve um tenso confronto do artista com sua família. Ele está de pé, parece confuso e desalentado, enquanto o pai, de rosto sombrio, está sentado, encarando o chão com sua raiva telegrafada pelo filtro alaranjado do cigarro. A mãe, também sentada, se vira para ele, em uma postura torcida e desajeitada, evocando dor, desconforto e conflito.

Então, o personagem central se apresenta. Em Man With Face Creams and Phone Plug ("Homem com cremes faciais e fone de ouvido”), de 2019, vemos ele sofrendo com a inspeção de segurança do aeroporto, diante de sua bolsa cor de rosa escancarada cheia de artigos de toalete, tentando parecer inócuo em uma composição que é vazia, mas, ainda assim, consegue evocar Um Bar em Folies-Bergère, de Édouard Manet.

Em seguida, ele está em Nova York, onde as coisa são melhores, mas não totalmente. Nightmare (Pesadelo), de 2020, mostra ele deitado, despido, em um beco, com os braços em súplica, como o Paulo de Caravaggio em sua jornada a Damasco. Seus dois algozes estão de pé sobre ele, mas a cena semigrisalha é ambígua: pode ser somente um sonho ruim.

Em Bar Boy (Garoto de bar), a segunda grande pintura verde da mostra, ele é um novato entrando em um bar, sozinho, como o antigo e provinciano Frédéric Moreau, do famoso romance de Flaubert, A Educação Sentimental. Em Four Friends (Quatro amigos), também verde, uma reunião acolhedora é realçada pelo vinho e pela dança. Nessas duas obras, especialmente, o verde provê uma interioridade mágica de outro mundo, como se fosse uma cor vista somente por nosso herói e seus amigos. E, na última parede da mostra, um final feliz: ele jaz nu, sobre uma macia cama branca, em duas pinturas: adormecido diante da luz de seu computador, em Sleeping Boy (Garoto dormindo), e tirando uma selfie em Bedroom Boy (Garoto no quarto), que é possivelmente um tributo ao deleite solitário de Menina com cachorro, pintado em 1770 por Jean-Honoré Fragonard.

Em uma postagem recente no Instagram, Scott Rothkopf, curador-chefe do Whitney e vice-diretor sênior do museu, conectou habilmente o trabalho de Toor ao de Louis Fratino e Jonathan Lyndon Chase — ambos expostos, na época, em impressionantes mostras — já que os três extraordinários artistas concentram suas pinturas no estilo de vida gay e no amor. Apesar de todos terem se realizado no estilo (algo de que não se fala o suficiente hoje em dia) e serem desenhistas formidáveis, eles são muito diferentes entre si. Fratino tende a pintar devaneios domésticos nos quais vemos o artista — no estúdio ou à mesa da cozinha ou na cama, com ou sem seu parceiro. Chase traz à superfície a torrente erótica subjacente e também passeia pelo reino da fantasia e do semiabstrato.

Toor compartilha com Fratino uma dívida com a ilustração e a franqueza sexual com ambos. Mas, ao contrário dos outros dois, ele também enquadra seus protagonistas em um mundo real que nem sempre é acolhedor. Isso confere às suas pinturas um ar de relato, acabando com qualquer inclinação de considerá-las sentimentais ou nostálgicas.

Outra diferença é o complexo e respeitoso (nada irônico) diálogo com a pintura do passado. Ao entrar na mostra, a primeira coisa que me veio à mente foram as íntimas superfícies das pinturas rococó — François Boucher e Fragonard. Mais adentro, Pierrot, o palhaço triste de Jean-Antoine Watteau, de pé, com os braços caídos diante de nós, pode vir à mente com Tea e Bar Boy, em que ele até usa um chapéu de aba larga que lembra o de Pierrot. The Arrival (A chegada), na qual um homem cumprimenta outro na porta de um apartamento, é repleta de carga emocional, como em um encontro bíblico, digamos, entre Jesus e São João Batista. E não pode ser coincidência que, em várias pinturas, a luz em volta da cabeça do personagem principal de Toor tenha um brilho incandescente, que se aglutina como uma espécie de auréola.

 

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