Obras-Primas do Cinema
Obras-Primas do Cinema

Pioneiro do cinema americano, D.W. Griffith tem filmes relançados

'O Nascimento de uma Nação' e 'Intolerância' chegam ao Brasil em DVD

Donny Correia*, Especial para o Estado

26 Maio 2018 | 16h00

Ir ao cinema, ser arrebatado por uma trama de aventuras, intrigas e paixões. O espectador cotidiano recebe o filme como algo incrustado na rotina mundana, algo para desopilar as agruras das obrigações. E quão verídicas e fluidas tantas tramas cinematográficas nos são oferecidas... No entanto, há muito já se esqueceu quem foi o responsável por consolidar a linguagem do cinema tal e qual a conhecemos até hoje: David Wark Griffith.

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Em tempos tecnológicos, em que o home video perece cada vez mais e o streaming aponta um novo rumo no hábito do consumidor, a urdidura artesanal de D.W. Griffith (1875-1948) parece perdida em algum canto remoto da história do cinema. Lançado há pouco pelo selo Obras-Primas do Cinema, a caixa D.W. Griffith não se utiliza de apostos ou predicados em seu título porque reconhece que o diretor americano é único numa empreitada empírica que o consagrou nos primeiros anos de Hollywood, e que também o condenou ao ostracismo, por suas posições ideológicas, às vezes controversas, às vezes reprováveis.

Nascido numa família de orientação confederada, Griffith viveu a ressaca da Guerra Civil, já que seu pai servira no front e presenciara a decadência do Sul de um país que viria a se tornar potência mundial, anos depois, quando o cinema passava à maioridade. Os quadros animados, recheados de comicidade e trucagens primárias, desde Méliès até os policiais caricatos da Keystone, seriam radicalmente superados pela metódica forma que Griffith encontrou para contar uma trama somente em imagens. Por volta de 1909 já usava o close-up e as camadas de primeiros e segundos planos, sempre visando ao efeito de sentido. Nesses trabalhos iniciais, o cineasta se valia de reminiscências do Velho Sul para criar tramas de costume, histórias que remontavam à sua infância. Logo, a Guerra da Secessão se tornaria o mote principal do primeiro épico de Griffith, O Nascimento de uma Nação, em 1915, tecnicamente influenciado pelo italiano Giovanni Pastrone, que filmara o monumental Cabíria um ano antes.

No filme, Griffith lapida cada um dos recursos que vinha testando amiúde, para sedimentar a montagem paralela, em que ações distintas e simultâneas são mostradas alternadamente, imprimindo uma sensação de continuidade narrativa lógica, ao mesmo tempo em que confere à trama uma alternância de ritmo que atua diretamente nas reações do espectador.

Posteriormente reconhecido como obra-prima, o filme sofreu, de imediato, um golpe, de certa forma, esperado. Afinal, a intenção por trás de O Nascimento de uma Nação é dúbia. Nos intertítulos iniciais, seu autor enfatiza que a obra denuncia os absurdos da América escravagista. Contudo, ao longo do filme vemos que o elogio da raça superior salta às vistas, quando a Ku Klux Klan surge como resposta a uma suposta inclinação do negro liberto para a delinquência. Note-se a cena em que um dos protagonistas tem a ideia do uniforme para sua milícia ao ver inocentes crianças, filhas da aristocracia, vestirem-se com um lençol branco para assustarem uma outra criança negra.

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Embora saibamos das diversas batalhas travadas pelos direitos civis dos negros, a saga griffithiana ainda encerra contornos distópicos em nossa era se a enxergarmos como uma premonição de tempos mais sombrios que o discurso de ódio em solo norte-americano ganha na era Trump, por exemplo. Ao legar ao cinema uma forma singular de apreensão narrativa, David Griffith, ainda que involuntariamente, capturou um espírito do tempo, uma formação de um povo e sua ontologia.

Acuado e confuso, o diretor preferiu o contra-ataque. Deu à atitude contundente de seus detratores o nome que viria ser título de seu segundo – e mais ambicioso – épico, Intolerância (1916). Nele, o diretor radicaliza seu paralelismo imagético. Ao invés de contar passagens simultâneas que ocorrem no mesmo tempo cronológico, em Intolerância o espectador encontra quatro tramas que correm ao mesmo tempo no curso da história, em épocas distantes umas das outras. Da queda da Babilônia, passando pela Paixão de Cristo e pela Noite de São Bartolomeu, Intolerância chega à América moderna para mostrar como certas reformas sociais afetariam violentamente a vida de um casal americano normal e discreto.

Indiretamente, Griffith refaz o curso da história da humanidade e revela que nossa civilização foi construída a partir de alicerces regados a sangue e barbárie. Na verdade, ele pretendia denunciar a face intolerante do ser e a propensão inata a prejulgamentos e conclusões passionais. 

Esteticamente, o longa inova com movimentos de gruas, travellings, planos meticulosamente encenados e personagens moldados com um cuidado até então jamais visto. Em seu discurso, Intolerância propõe um mea culpa, mas não abandona certos aspectos reacionários e volta a reclamar a ordem de tempos anteriores e a criticar as grandes revoluções políticas e sociais do século 20.

Mesmo assim, o filme parece ter redimido seu diretor, ao menos no que diz respeito ao apuro tecnológico de seus esforços. A grandiloquência dos cenários, a quantidade de extras no elenco, a profundidade das discussões propostas e o compromisso para com a linguagem cinematográfica, fizeram de Intolerância um sucesso internacional pela primeira vez observado. Contrabandeado para a URSS no ano seguinte à sua realização, o filme causou grande impacto e estimulou jovens como Sergei Eisenstein e Lev Kulechov a pensar em novos rumos para o cinema. Embora diametralmente opostas, as ideias soviéticas sobre a montagem devem ao pioneirismo de Griffith, mesmo negando vários de seus princípios formais.

Agora, temos novamente a oportunidade de rever e rediscutir a importância de Griffith, analisando sua empreitada em perspectiva. Sem dúvida sua atuação no meio sofreu percalços que fariam sua carreira minguar nos anos seguintes, quando continuou a explorar os temas ligados à Guerra Civil, porém com menos brilhantismo e de maneira mais discreta.

*Donny Correia é poeta, ensaísta e doutor em estética e história da arte pela USP

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