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Plantão da madrugada

Rosangela Lopes da Silva, mãe de M., de 9 meses, roubado junto com o carro. Cena a cena, os bastidores de um descuido materno que ganhou cobertura nacional

Mônica Manir, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2008 | 21h47

Sonora: Foi coisa de minutos, o tempo que levei pra atravessar a rua, chamar ele, ele perguntar cadê o bebê? tá dormindo, vamo embora?, vamo, ele falar tchau, a gente colocar o pé pra fora da padaria, já daria pra ver o carro, mas o carro não tava mais lá. Caramba, cadê o carro? Meu, levaram meu filho. Cadê meu filho? Meu, cadê meu filho?Roda o VT. Off/Narração: Rosângela e Carlos, Rô e Alê, Loira e Alemão, o casal de namorados, enfim, comparece à casa de dona Cleide para a festa-surpresa de 62 anos dela, não 63, como vastamente divulgado. Dona Cleide para os íntimos, Terezinha Kleid na certidão, recebe para um churrasco no sábado à noite. Rosangela e Carlos, com M. no moisés, chegam às 22h, 22h30. Encontram o filho de dona Cleide, sentam todos para comer e beber. Rosangela toma umas três ou quatro latinhas de cerveja, seis no boletim de ocorrência. O bebê tem sono. Mama no peito, embora já tenha passado da idade para esse mimo - tem 9 meses, 10 na semana que vem. Quer mesmo é chupetar. Encosta no ombro da mãe e dorme. Rosangela dorme junto.Quatro da manhã, Carlos a acorda para irem embora. Já chegaram a dormir na casa de dona Cleide certa feita, mas não era o caso. Fazia frio, Rosangela queria acordar debaixo dos cobertores com o bebê na própria cama. Mãe e filho dividem um quarto-cozinha-banheiro em ladeira de paralelepípedo no Jardim Santa Margarida, zona sul de São Paulo. Carlos e a família moram praticamente em frente. Ao fundo, as casas sem reboco do Jardim Ângela botam as entranhas à mostra. Voltam então os três de madrugada no Escort de Carlos quando param para comprar cigarro para Rosangela num bar 24 horas na esquina da Amaro Luz com a Robert Kennedy. Na calçada do bar, boates em fila indiana: Polly, Drinkão, Las Vegas com show da modelo Vanessa Alves. O lugar cheira a night. É ermo, e não é. Carlos estaciona o carro do lado de lá da pracinha do Rotary Club. Carrega a chave consigo. Atravessa a praça e a rua para chegar ao bar de toldo vermelho. Rosangela permanece no banco do passageiro e o filho atrás, ajeitado no mesmo moisés da ida. Dez, 15 minutos e nada de Carlos. O pára-brisa goteja. Garoa ou neblina? Estão na jurisdição da Represa de Guarapiranga, a umidade do ar é densa naquela paragem. Rosangela se impacienta e vai chamar o namorado. O carro não fecha sem a chave, então deixa a porta destrancada. Encontra Carlos conversando com um amigo, que também estava na festa. Sonora: - Vamo embora? - Cadê o bebê? - Tá dormindo, vamo embora?- Vamo. Off: Ele vira um gole derradeiro de cerveja. Despedem-se do amigo, descem o degrau do bar, olham para o outro lado da praça. Perdem o chão.Sonora: Caramba, cadê o carro? Tava ali, não tava? Meu, cadê meu filho? Off: Vizinhos do bar, moradores do lado da praça, ninguém viu nada - só a loira, ela mesma, saindo do carro. Rosangela destrambelha. Começa a andar de um lado para o outro, tem a miragem de um moisés em cada esquina, enquanto Carlos liga para o 190 e para a base do Jardim Ângela. A atendente disse que jogaria o caso na internet. O amigo faz uma ronda de carro pela redondeza. Acabam no 102º DP, a dois minutos dali. Rosangela e o delegado de plantão se desentendem. A autoridade passa a tratar com Carlos, mas o tom da conversa continua vertiginosamente alto. Depois de uns 30 minutos, um policial anuncia que tinham encontrado o carro e a criança estava bem. Rosangela sorri de nervoso. Só vai ficar bem quando vir a criança. Continua o bate-boca com o delegado, que exige que ela vá ao IML. Um policial a acompanha. Lavra-se o B.O. Natureza dos delitos: furto e abandono de incapaz. Vítimas: Carlos Augusto Garrido e M. Cútis de ambos: branca. Condutor do carro: o policial que voltou dirigindo o Escort. Autor: Rosangela Lopes da Silva. Cútis: branca. Histórico: Comparece nesta Delegacia o condutor, conduzindo a autor (sic) e vítima, informando que foi acionado via Copom a comparecer ao local dos fatos para verificar ocorrência versando sobre furto de veículo, sendo que em seu interior encontrava-se a criança. Segundo o proprietário do veículo o mesmo parou o automóvel para tomar uma cerveja, deixando em seu interior sua companheira e seu enteado de nove meses de vida. Ocorre que a mesma impaciente em esperar foi ao seu encontro deixando a criança no interior do veículo, e ao retornarem constatou-se que o mesmo havia sido furtado. A Autora presente nesta Unidade Policial, () encontra-se aparentemente embriagada, tendo alegado haver ingerido seis latas de cerveja. Externa: No Instituto Médico Legal, Rosangela levanta e abaixa os braços, mas se recusa a fazer exame de sangue. Garante não estar embriagada. Off: No 102º, o filho está deitado sobre o colchonete do moisés, enrolado no cobertor, mas fora da cestinha. M. chora e estende os braços para a mãe quando a vê. Uma assistente da assistente social pede ao delegado que deixe a mãe pegar o menino. M. deita a cabeça no ombro materno e dorme. O delegado conversa reservadamente com a assistente-mor. Ela retorna e pede que Rosangela lhe entregue a criança para levar a um abrigo. Mais discussão, choro, bate-boca. O delegado insiste na entrega imediata da criança. Rosangela explica que o menino é alérgico a certos leites enlatados e a fralda com gel. Come comida, mas mama no peito três vezes por dia e, às vezes, duas à noite. A mãe tira da bolsa dele mamadeira e roupas. O menino vestia duas calças, tênis, touca, pagãozinho com agasalho azul de manga e outro branco por cima. Rosangela pede que a assistente cuide bem dele. Assistente e bebê saem de cena.Break 1: Um repórter de TV, presente por acaso na delegacia, comenta sobre a exaltação do delegado e quer saber se Rosangela quer declarar algo. A mãe não lhe dá atenção. Break 2: A irmã de Carlos entra em contato com um amigo advogado. Ele instrui para que estejam no fórum na segunda, já que domingo é dia morto, forensemente falando. À noite, o caso explode nas TVs, e Alessandro de Oliveira Brecailo, o advogado, liga para a amiga.Sonora: Mas estão dizendo aqui que ela foi para a balada e largou a criança no carro, com a porta aberta? Vocês me dizem uma coisa e a TV diz outra. Qual é a verdade dos fatos, afinal? Off: No dia seguinte, Rosangela passa por entrevista de quase duas horas com a psicóloga e a assistente social. Conta que mora sozinha por opção. Depois de quatro anos de namoro com o pai da criança, terminam, sem que ambos saibam da gravidez. Aos 24 anos, ela decide sustentar a gestação e a si mesma com o salário de promotora de venda de celular. Dois meses depois de voltar da licença, é mandada embora da empresa. Vive do seguro-desemprego e de bicos como promotora de eventos. O pai da criança paga plano de saúde, fornece fraldas que causam alergia, paga contas eventuais de luz, ajuda de vez em quando no aluguel. Com a ocorrência, anuncia que vai pedir a guarda do menino. Externa: Da delegacia, M. vai para o Centro de Referência da Capela do Socorro, que abriga crianças e adolescentes em caráter emergencial por 48 horas. Fica ali apenas um dia. Na terça, a mãe o visita no Lar Nossa Senhora Menina, no Morumbi. Os peitos de Rosangela transbordam de leite. O menino salta dos braços da irmã Aparecida para cheirar a mãe. Chega o juiz em terno e gravata com a chefe da psicologia e a chefe da assistência social. Flagra a troca de afeto entre mãe e filho. Chama Rosangela de lado. Sonora: - Doutor, faço qualquer coisa para ter meu filho de volta. - Então eu gostaria que você cuidasse dele e não me saísse com a criança de madrugada. Se você tem direito ao lazer, seu filho tem mais direito ainda de estar dormindo em casa num bercinho. Off: O juiz Iasin Ahmed, da Vara da Infância e da Juventude do Fórum de Santo Amaro, visita os abrigos normalmente de roupa esportiva para não assustar as crianças maiores, que temem a presença do magistrado entre eles. Acham que serão levados embora. O terno e gravata do caso Rosangela era por causa das emissoras de TV na frente do prédio. Dr. Iasin acha que, nessa hora, todo mundo quer fuzilar a mãe, especialmente porque há uma culpa coletiva no ar com a morte de Isabella. Mas diz que é preciso fazer uma visão holística do caso, que a mãe é o espelho da criança na idade do bebê em questão e que, na zona sul, sua área de atuação, vigora o matriarcado. As uniões acabam, mães e avós assumem os cuidados das crianças e nem sempre dão conta do recado sozinhas. Foi um descuido? Foi, mas a mãe assumiu o erro e será observada durante um ano. Ao mesmo tempo, com a experiência de quem trabalhou 15 anos com o crime antes de chefiar a Vara da Infância, destaca a violência e a falta de segurança nas cidades. Sonora: Isso quer dizer que não se pode nunca mais deixar um carro aberto na rua? Off: O Escort foi encontrado no Capão Redondo, a 30 minutos do local do crime, sem o CD player, sem o controle do portão da casa de Carlos, sem seus óculos escuros e com o estepe esfaqueado em todo o raio. Na ignição, a chave reserva. Por descuido, o motorista havia deixado a dita cuja no cinzeiro. Foi virar a chave e partir. Uma ligação anônima avisou da presença do carro na rua Professora Eunice Bechara, 268, com um bebê gritando lá dentro. Tem quem ache que foram os próprios meliantes os autores da ligação, talvez por medo de acusação de seqüestro. Sonora do juiz: Ou por respeito à criança, que nem justiceiro se atreve a matar uma. Sonora do pai de Carlos: O que eu sei é que esse moleque é macho. Botou os ladrões pra correr. DOMINGO, 1º DE JUNHOBebê a bordoUma mãe de 25 anos deixa o filho de 9 meses no carro ao sair para chamar o namorado, do outro lado de uma rua na zona sul de SP. O carro foi roubado com o bebê e encontrado meia hora depois. A criança é levada a um abrigo e devolvida à mãe dois dias depois. NA DELEGACIAMais discussão, choro e bate-boca. O delegado insiste na entrega imediata da criançaNO IMLLevanta e abaixa os braços, recusa-se a fazer o exame de sangue. Diz não estar embriagadaNO FIM DO MUNDOO Escort foi encontrado com o estepe esfaqueado. Na ignição, a chave reserva

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