Poder do tempo, tempo do poder

No enigmático processo eleitoral de 2010, Serra espera enquanto Lula tem pressa

José Augusto Guilhon Albuquerque*, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2010 | 01h16

Que o tempo é dinheiro tornou-se uma evidência a priori no mundo capitalista, diferentemente das sociedades ditas primitivas e daquelas, como a nossa, em que a longa transição para a universalização do mercado ainda retém regiões significativas da cultura, das ideologias e do sistema de trocas, que recusam a moeda como equivalente universal de valor. Uma das contribuições mais notáveis de Marx para a compreensão do capitalismo é sua definição da determinação do valor da força de trabalho: é o tempo de trabalho necessário à reprodução da força de trabalho.

Com isso Marx estabeleceu as bases conceituais para que todos os valores na sociedade capitalista tenham um princípio de equivalência medido pelo tempo. Daí a concluir que tempo é dinheiro e, portanto, é poder, não é mais do que um passo, já que o dinheiro é reconhecidamente um dos principais recursos de poder.

Mas estamos no nível dos conceitos. As pessoas não se orientam apenas pelo mercado e não se comportam sempre, nem exclusivamente, como se o seu tempo fosse dinheiro. As pessoas que dispõem de mais tempo não têm mais dinheiro nem mais poder do que as que têm menos tempo. Ao contrário, acredita-se popularmente que os mais poderosos "não têm tempo para nada".

Na verdade, os mais poderosos - entre eles os mais ricos - podem ter tempo para tudo, porque não se trata da quantidade de tempo de que um indivíduo dispõe: teoricamente todos dispõem de tempo igual, 24 horas por dia. Trata-se de como se administra o tempo, e especialmente o tempo dos outros. O tempo - esse tempo que é dinheiro e que é poder - é elástico uma vez que se pode - dispondo de tempo e dinheiro - administrar o tempo dos outros. A verdade verdadeira é que nem todos somos iguais perante o tempo.

Nesse sentido a contribuição de Maquiavel é mostrar que a desigualdade entre os grandes e o povo, que está na base da constituição do Estado, também se aplica ao tempo, seu significado e seu uso. Assim, antes mesmo de sua equivalência ao dinheiro, Maquiavel mostrava a equivalência do tempo ao poder.

Todos conhecem a máxima maquiaveliana, segundo a qual, o Príncipe, para conservar o poder, deve fazer de uma vez todo o mal que precisa ser feito, e distribuir as benesses pouco a pouco, ao longo do tempo. O tempo joga, portanto, a favor do Príncipe e em detrimento do povo. A necessidade torna o povo refém do imediato, impossibilitado de administrar seu próprio tempo. Assim sendo, o tempo só é poder para quem pode administrar seu próprio tempo e o dos demais.

Existe uma versão folclórica da diferença entre o tempo de quem exerce o poder e o tempo dos demais. Essa versão consiste na noção de que quem exerce o poder se faz esperar, cujo corolário é que o mais poderoso chega por último. Ela só tem vigência no Brasil porque nossa sociedade ainda tem um pé no atraso senhorial e o tempo não é totalmente dinheiro, mas sobretudo prestígio, hierarquia.

Mais interessante é a administração do tempo no processo eleitoral porque, neste caso, a máxima de que nem todos são iguais diante do tempo tem implicações estratégicas. Por exemplo, nem todos têm a mesma possibilidade de desencadear o processo eleitoral, e quem exerce esse poder está administrando o tempo do adversário e, portanto, limitando seu acesso a esse recurso de poder.

Em condições normais pode-se supor que quem não está no poder tem pressa e, portanto, interesse em desencadear a oposição, pondo o governo na defensiva. Quem está no poder, ao contrário, tem interesse em prolongar ao máximo sua prerrogativa, escolher o momento mais adequado a seus interesses e adiar ao máximo a hora em que deixa de ser o supremo mandatário para se tornar um competidor entre outros - ou para ser um mero observador de outros competidores, caso não possa concorrer a mais um mandato.

Este é apenas mais um dos enigmas do atual processo eleitoral: com mais de dois anos de antecedência ao período eleitoral "normal", o Príncipe, como se fosse povo, condena-se ao imediatismo e, como se fosse oposição, abre mão de sua prerrogativa de fazer o tempo e a hora de sua sucessão, para tornar-se um competidor entre outros. Mais que isso, o Presidente Lula apostou numa vitória antecipada na disputa por sua própria sucessão, ao definir as eleições municipais de 2008 como plebiscitárias. E fez mais que isso: escolheu ele mesmo seu oponente e a hora e o lugar em que iria derrotá-lo - em São Paulo. Em vão: não houve plebiscito nem derrota do opositor, nem decisão antecipada de 2010.

Com isso, a campanha arrasta-se a perder de vista. E só se pode entendê-la se admitirmos que Lula tornou-se chefe da oposição a José Serra. Escolhe a candidata, dita a estratégia, faz os comícios mas não poderá ser o cabeça de chapa.

O poder do tempo é o de ser um recurso de poder, que tem duas mãos: quem não sabe administrar o tempo corre o risco de ser administrado por ele.

*Professor titular de Relações Internacionais aposentado do Departamento de Economia da FEA-USP e autor de O Intervencionismo na Política Externa Brasileira (Revista Nueva Sociedad).

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