Poder é querer

Poder é querer

Partido ‘Podemos’ cresce na onda dos ‘indignados’ da Espanha. Até onde ele vai?

Juan Pablo Villalobos, O Estado de S. Paulo

08 Novembro 2014 | 16h00


No domingo 26 de outubro o programa Salvados, transmitido por La Sexta, encabeçou o rating da televisão espanhola. Um público de 4, 942 milhões de (23,8% de share) assistiu à entrevista que Jordi Évole fez com o porta-voz do partido político Podemos e eurodeputado, Pablo Iglesias. Na semana seguinte, o mesmo programa teve 2 milhões de espectadores menos. Esses números servem para ilustrar o interesse da sociedade espanhola pelo fenômeno Podemos e a popularidade midiática de Iglesias, o que viria a se confirmar neste dia 5, quando sondagem do Centro de Investigaciones Sociológicas (CIS, entidade oficial que mede a intenção de votos) colocou o Podemos em terceiro lugar das preferências eleitorais, com 22,5%, atrás do governante Partido Popular (PP, 27,5%) e do Partido Socialista (PSOE, 23,9%). 

Analistas políticos interpretaram a fulgurante ascensão do Podemos, que já havia conseguido ser o quarto partido político mais votado nas eleições para o Parlamento Europeu de maio, com 7,98% - o que lhe rendeu cinco cadeiras -, como a confirmação da ruptura do bipartidarismo histórico que dominou a política espanhola desde o fim da ditadura. O excepcional é que isso foi conseguido por uma agremiação política fundada há meros 11 meses e liderada por um professor universitário e apresentador de televisão nascido em 1978. Como explicar o crescimento avassalador e incontível do Podemos?

Em Salvados, Jordi Évole acompanhou Iglesias ao Equador, um dos destinos de sua turnê latino-americana que incluiu também reuniões com os presidentes Evo Morales, da Bolívia, e José Mujica, do Uruguai.

Entrevistado no banco de um parque, trajando calça jeans e uma camisa quadriculada com as mangas arregaçadas, Iglesias, o cabelo comprido preso num rabo de cavalo, defendeu uma maneira diferente de fazer política, representada nesse caso pelo fato de viajar à América Latina para aprender com as experiências dos governos de esquerda da região, uma estratégia oposta à clássica atitude colonialista europeia. “Que história é essa de ir ao Equador ou à Bolívia? Devia ir à Alemanha para falar com Merkel”, ele ironizou, fazendo referência à opinião do establishment, que por diversas vezes chamou de a casta. A casta são os ricos, os dirigentes dos partidos políticos tradicionais, os governantes, os corruptos, os empresários oligopolistas. Contra eles Iglesias dirige suas críticas, mas também são eles os principais responsáveis pelo surgimento e auge do Podemos: “Nós não somos o resultado de nossos acertos, mas sim de um desastre generalizado”, reconheceu Iglesias durante a entrevista, para depois concluir: “Os pais do Podemos são o PP e o PSOE”.

A explicação mais simples seria dizer que o Podemos conseguiu canalizar a onda de indignação que domina a sociedade espanhola em razão da crise econômica dos últimos anos. Seu discurso calou fundo num contexto em que uma política econômica austera de cortes orçamentários foi acompanhada por frequentes escândalos de corrupção que envolveram igualmente membros do PP e do PSOE. Em face desse panorama, o Podemos esgrime o que Iglesias denomina “o discurso do senso comum”. Sobre a política econômica do governo espanhol: “É impossível sair de uma crise deixando as pessoas mais pobres”. Sobre o papel das grandes empresas multinacionais: “A propriedade privada tem que estar subordinada ao interesse social”. Sobre os altos índices de desemprego juvenil e o aumento da idade de aposentadoria: “Que não trabalhem os avós, que trabalhem os jovens”. Um discurso “óbvio”, como o próprio Iglesias reconhece, que também assume um caráter de acerto de contas quando se trata de defender os cidadãos “daqueles que nos roubaram”: “Acabou isso de zombarem de nós”, “chega, vão embora”.

Menos óbvia é a transformação desse discurso do senso comum em um programa de governo, no qual o Podemos inclui medidas que aterrorizam a casta: auditoria da dívida (ele até flertou com o não pagamento), renda básica, teto salarial, aposentadoria aos 60 anos, pensões dignas, recuperação de setores estratégicos da economia (sem descartar possíveis nacionalizações), maior controle na concessão de obras públicas, aumento dos impostos sobre as grandes fortunas, sanções às empresas que não paguem seus impostos na Espanha... Os partidos políticos tradicionais desdenham dessas medidas acusando-as de populistas e usando um argumento cortante: “O que o Podemos diz está certo, mas não pode ser feito”.

O Podemos diz que pode. Aliás, o nome do partido surgiu dessa maneira como explica Iglesias: “Ele se chama Podemos porque todo o tempo nos diziam que não pode. Uma reforma fiscal para que os ricos paguem, não pode. Incentivar a economia com estímulos, não pode”. A tudo isso Iglesias responde: “Sabemos que há uma oportunidade de mudar o país”. E, para começar, “o fundamental é ganhar as eleições gerais”. As últimas sondagens indicam que o Podemos está no caminho certo rumo às eleições de 2015. Ante essa perspectiva, Iglesias, seguindo o conselho de seus assessores, tirou o piercing que usava numa sobrancelha e em sua turnê latino-americana evitou visitar a Venezuela, uma associação que “nos prejudica”. 

O Podemos quer o poder. E quando se quer o poder, há coisas que não se pode. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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Juan Pablo Villalobos é escritor mexicano radicado em Barcelona. Autor de Festa No Covil e Se Vivêssemos Em Um Lugar Normal (Cia das Letras), escreveu este artigo especialmente para o Aliás 

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