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Poe é o mais influente escritor americano? Um novo livro oferece provas disso

Nova biografia defende que a profunda familiaridade de Poe com a ciência foi o pilar com base no qual suas ideias se harmonizam

Michael Dirda, The Washington Post

11 de junho de 2021 | 10h00

Existem muitas biografias de Edgar Allan Poe; a mais exaustiva é de Arthur Hobson Quinn, publicada em 1941, e a mais concisa é a de Peter Ackroyd, de 2009, Poe: A Life Cut Short. Quase todas, porém, foram escritas por estudiosos literários, poetas ou escritores. Contrariamente, o livro The Reason for the Darkness of the Night, de John Tresch, situa o mais influente escritor americano num pano de fundo que o subtítulo do livro chama de “a construção da ciência americana”. O próprio Tresch é um destacado historiador da ciência, hoje no Warburg Institute de Londres, e autor de um estudo premiado, The Romantic Machine: Utopian Science and Technology After Napoleon.

Poe é realmente o mais influente escritor americano? Observe que não disse “o maior”, caso em que existe pelo menos uma dezena de candidatos viáveis. Mas analise sua radiante originalidade. Antes da sua morte em 1849, aos 40 anos de idade, ele criou o conto moderno ao mesmo tempo que inventou ou aperfeiçoou metade dos gêneros representados na lista dos best-sellers, como o mistério (Os Assassinatos da Rua Morgue, O Escaravelho de Ouro), ficção científica (O Estranho caso do Sr. Valdemar, A Conversa entre Eiros e Charmion), o suspense psicológico (O Coração Revelador, O Barril de Amontillado) e naturalmente, o horror gótico (A Queda da Casa de Usher, A Máscara da Morte Escarlate, e o incomparável Ligeia).

Trata-se apenas das obras de ficção. W.B. Yeats certa vez chamou Poe de “o maior dos poetas americanos”, o que soa absurdo. Mas poucos poemas são mais famosos do que O Corvo, com seu doloroso alerta, Nunca Mais. Entre minhas memórias mais antigas está a de ouvir meu pai metalúrgico, não um literato, regularmente murmurando a primeira estrofe de Annabel Lee: “Foi há muitos e muitos anos/em um reino à beira-mar...”

Finalmente, Poe, como vários personagens seus - nos persegue do além-túmulo. Quando miramos a figura lúgubre naqueles aparelhos fotográficos primitivos entrevemos a figura emblemática do artista moderno como um gênio mal compreendido, uma presa da melancolia, atraído para a autodestruição.

Essa visão taciturna de Poe, ainda generalizada, não é muito acurada. Como Tresch nos lembra, Edgard cresceu mimado pela riqueza e o status dos seus pais adotivos de Richmond, distinguiu-se em muitos dos cursos que fez na Universidade de Virgínia e, durante o tempo passado em West Point, era admirado pelos seus colegas cadetes (mais da metade deles ajudou a subscrever um livro com seus poemas). Apesar de ser difícil imaginar Poe num uniforme que não seja um austero terno preto, ele serviu o Exército durante quatro anos, chegando à patente de sargento.

Embora muito formal quanto à sua honra, na vida civil Poe normalmente era uma pessoa gentilmente cortês. Profissionalmente, trabalhava com uma diligência extraordinária. Por volta dos 30 anos, já editava importantes periódicos (o Southern Literary Messenger, Graham’s Lady’s e Gentleman’s Magazine), entrevistou celebridades internacionais (como Charles Dickens, em visita ao país) escreveu um guia respeitado, acredite ou não, de conchas do mar (The Conchologist’s First Book), ficou conhecido como "Tomahawk Man" por suas críticas ferozes de Emerson, Longfellow e outras figuras pomposas e pretensiosas, e chegou a participar de um circuito de palestras modestamente intitulado "O Universo". Nessa mesma época, Poe também havia se casado com sua prima adolescente e tuberculosa, de vez em quando bebia conhaque de pêssego em excesso e regularmente socializava com intelectuais da época.

Poe escrevia sobre tudo: sátiras humorísticas, resenhas de livros, paródias, artigos sobre as últimas descobertas científicas, exposições de charlatanismo (notadamente a máquina de jogar xadrez de Maelzel), ensaios críticos sobre “a filosofia da composição”, e um poema-prosa cosmológico quase ilegível chamado Eureka. E, naturalmente, aquelas histórias inesquecíveis de assassinos que encontram desculpas para seus atos e psicopatas insolentes: “Suportei o máximo que pude as milhares de injúrias de Fortunato, mas quando ele começou a me insultar eu jurei me vingar... Verdade - nervoso - muito terrivelmente nervoso - eu fiquei e estou; mas porque irás dizer que sou louco?”

Em The Reason for the Darkness of the Night (a ser lançado em 15 de junho) Tresch enfatiza o quanto Poe insere o discurso científico nas suas criações mais fantásticas. Por exemplo, em Uma Descida no Maelstrom, um marinheiro, cujo barco é sugado num gigantesco redemoinho, bem improvavelmente se salva pensando como um físico: ele observa que objetos cilíndricos caem mais lentamente no turbilhão do que outros objetos do mesmo tamanho, de maneira que  rapidamente se amarra a um barril para escapar do túmulo aquático. Em outra história, O Homem que foi Usado, Poe descreve um oficial do Exército com muitas condecorações que, em razão de partes do seu corpo terem sido substituídas por várias próteses, ele é, na realidade, um ciborgue “steampunked” (O Streampunk é um movimento literário e estético inspirado na ficção científica do século 19 e na tecnologia daquela era, como os engenhos a vapor)

A ficção e o jornalismo de Poe levaram Tresch a discutir todos os tipos de tópicos científicos e pseudocientíficos: como decifrar códigos, frenologia (crença antigamente muito popular de que as protuberâncias do crânio revelam o seu caráter), o explorador naturalista Alexander von Humboldt, a astronomia no século 19, a popularidade dos embustes, P.T. Barnum, a moda do mesmerismo, o nascimento da Smithsonian Institution e, não menos importante, as carreiras dos importantes cientistas americanos Joseph Henry e Alexander Dallas Bache.

Obviamente, Tresch coloca muita informação no seu livro - há até uma desconstrução engenhosa da página título do romance náutico de Poe, a macabra e tentadoramente enigmática A Narrativa de Arthur Gordon Pym. Mas leitores potenciais de The Reason for the Darkeness of the Night devem estar cientes de que não é uma exposição sustentada e detalhada da vida de Poe, mas uma rica coleção de vinhetas biográficas, breves análises da história e miniensaios sobre as crenças científicas da época.

No geral, a tese de Tresch - de que a profunda familiaridade de Poe com a ciência foi o pilar com base no qual suas ideias se harmonizam - parece indiscutível, diante da presença do raciocínio lógico e metódico em tantos escritos dele. Mas, no final, é um outro aspecto de Poe, a sua capacidade de transmitir uma intensidade monomaníaca, beirando a histeria, que nos atrai, seu talento para expressar o que D.H. Lawrence chamou de “êxtase prismático da consciência elevada”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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