Jonne Roriz/Estadão
Jonne Roriz/Estadão

Poemas de Manoel de Barros são relançados com ilustrações

Poeta mato-grossense morto em 2014 tem sua obra republicada nos últimos anos

Caio Sarack*, Especial para o Estado

26 Maio 2018 | 16h00

Só a poesia pode num gesto negar os postulados da razão e verter o sentido da palavra em coisa. “Do nada, nada surge”, mas Manoel de Barros ri disso com desdém: aponta para o oco da árvore e junta com a mata anoitecida, tirando de lá os adjetivos, sujeitos indefinidos, predicados indeterminados. A Alfaguarra, desde 2015, reedita os livros do poeta mato-grossense; com as capas produzidas pela filha Martha Barros, as cores e as formas infantis não nos deixam, rapidamente, distinguir os selos do grupo editorial: o lançamento deste ano é da Cia. das Letrinhas com ilustrações de Kammal João para Cantigas por um Passarinho à Toa. O poeta conta a infância e a transforma naquele oco de árvore. A mata anoitecida, de tão concreta e material, assume um estatuto que suspende a imagem e nos apresenta – enquanto lemos – o frescor implícito, o orvalho que agora vai se formando, o grito corajoso dos insetos e dos pequenos anfíbios.

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Se olhássemos, tal como os primitivos, a palavra como o feitiço que nos amarra às coisas, superaríamos o muro razoável da gramática? A poesia, antes de tudo, é a distensão máxima da razão, e quando, ao romper esse músculo rígido da compreensão, não há mais os sinais dos fragmentos, a poesia muda a qualidade das palavras, transformando-as em coisa. Mas e se ainda fôssemos um tanto além e pudéssemos apontar para um amontoado de palavras e de lá a própria coisa surgisse, não mais coberta pelos signos dos dicionários? A menos que o serviço do poeta fosse o mesmo que o do artesão, não podemos garantir que os signos das palavras sumirão sem mais; toda comunicação traz consigo o suporte de suas palavras, isto é inevitável. A poesia de Manoel de Barros, no entanto, compreende as coisas pela sua sombra, e esta sombra – imune ao clarão de uma razão “que não habita as coisas”, como nos escreveu o filósofo francês Merleau-Ponty – pode nos fazer viver poeticamente. E não ler poesia.

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Com sua poética estamos no limite do conhecimento e da estética: Barros esgarça tanto valores como “verdade” e “validade” que, ao verificarmos seus argumentos, implodimos ambos. Em seu Matéria de Poesia, livro de 1970, o poeta cita a lista do que se pode fazer em favor da poesia: 

“a – Esfregar pedras na paisagem. / b – Perder a inteligência das coisas para vê-las (Colhida em Rimbaud) / c – Esconder-se por trás das palavras para mostrar-se.”

Notamos já pela enumeração das coisas, pela estrutura escolar do poema, que vamos, sem percebê-lo de uma só vez, desenhando a sombra que o gesto poético de Barros produz. Se a beleza sinestésica de seu “esfregar pedras na paisagem” não conseguem burlar nossos mais consistentes princípios do conhecimento, a citação irônica de Rimbaud pelo poeta mato-grossense acaba por transformá-lo em coisa orgânica, em árvore frutífera pelos parênteses: “colhida em Rimbaud” – e num só fôlego nos transporta da verificação dos significados e do conhecimento (que o autor quis dizer com isso? será que o poeta francês escreveu mesmo isso?) para o resto da matéria que foge quando queremos apreendê-la entre os limites do entendimento. 

Esse entendimento tal como experimentamos não é, todavia, a total compreensão das coisas que nos cercam; a intuição que temos no mundo comum nos golpeia e sabemos de suas surpresas. O recurso da poesia, na segunda metade do século 20, foi retomar os olhares atentos dos modernos franceses e ingleses do século 19: a multidão embaralha nossos sentidos, mas a produção artística coagula e eterniza a imagem que o poeta escolhe olhar. Mas retomá-los não significa replicá-los, o poeta contemporâneo está imerso num mundo muito mais ágil do que os automóveis que Baudelaire avistava, muito mais vasto que a multidão por entre a qual Edgar Allan Poe se perdia. A vida comum mudou sensivelmente, assim como as sensações desse homem e mulher que estão no centro desse processo.

As figuras prosaicas das quais lança mão nosso poeta não o colocam na árvore genealógica – que Manoel de Barros não identifica com as árvores de seu pântano – do mineiro Cacaso ou do piauiense Torquato Neto: estes apresentavam, no efêmero da cidade cosmopolita, o imperecível, tal como um caricaturista registra para sempre os passantes da grande avenida ou o fotógrafo que registra o momento decisivo.

Vejamos dois casos: Torquato Neto, em seu poema O Poeta Nasce Feito, diz que “a glória canta na cama / faz poemas, enche a cara / mas é com quem mais se ama / que a gente mais se depara”; também Cacaso em seu Infância (2): “Eu matei minha saudade mas depois / veio outra”. Nesses poemas, temos contato com o inesperado ao encontrarmos o precioso instante que reavalia algo que antes nos passava despercebido, Manoel de Barros não tem pressa. Ele não desenha os passantes, as grandes avenidas: “Sou construtor menor. / Os raminhos com que arrumo / as escoras do meu ninho / são mais firmes do que as paredes dos grandes prédios. / Ai ai!”. O cotidiano se desdobra em uma realidade primitiva estranha, mesmo para os conterrâneos de Barros, entretanto está longe do nostálgico arcadismo ou de um ingênuo impulso asceta que quer se livrar de todo os objetos e técnicas ao seu redor. A infância, o oco da árvore, a mata anoitecida sobre os quais tratam seus poemas são as sombras persistentes em meio ao clarão da clareza dos significados, das explicações e exposições que a maturidade nos legou inevitavelmente.

*Caio Sarack é mestre em filosofia pela FFLCH-USP e professor do Instituto Sidarta e do Colégio Nossa Senhora do Morumbi

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