Wilhelm Busch
Wilhelm Busch

Poemas de Wilhelm Busch traduzidos por Guilherme de Almeida são analisados em obra

Simone Homem de Mello examina obra do poeta e caricaturista alemão recriada pelo paulista

Dirce Waltrick do Amarante*, Especial para o Estado

17 Fevereiro 2018 | 16h00

O escritor e caricaturista alemão Wilhelm Busch (1832-1908), considerado um dos pais das histórias em quadrinhos, foi traduzido, no século passado, por dois grandes poetas brasileiros: o carioca Olavo Bilac e o paulista Guilherme de Almeida. O primeiro traduziu, em 1915, Max und Moritz, rebatizado por ele de Juca e Chico, história infantil de Busch que ganhou enorme popularidade no Brasil da primeira década do século 20. Já na década de 1940, Guilherme de Almeida traduziu 20 poemas narrativos do autor que haviam sido publicados originalmente em semanários humorísticos alemães direcionados ao público adulto, ou misto, já que “essas publicações circulavam dentro das famílias”, como bem lembra a pesquisadora e coordenadora do Centro de Estudos de Tradução Literária do museu Casa Guilherme de Almeida, Simone Homem de Mello, que acaba de publicar Histórias em Imagens e Versos: Wilhelm Busch, traduzido por Guilherme de Almeida, uma edição bilíngue das historietas de Busch saborosamente traduzidas pelo poeta e fartamente comentadas pela autora.

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Lê-se no texto de orelha do livro que o repertório ali apresentado é “menos conhecido no Brasil, por ter sido editado até então apenas como literatura infantil”. Acredito, contudo, que esse não seja o motivo do “desconhecimento” dessas aventuras em imagens e versos de Busch. Se essas histórias são “desconhecidas” hoje é por terem ficado um longo tempo fora de circulação. Se tivessem sido reeditadas regularmente, em coleções para crianças ou não, talvez já tivessem caído no gosto do público (adulto e infantil) contemporâneo. Esse, por exemplo, foi o caso de Juca e Chico: História de Dois Meninos em Sete Aventuras, reeditado em 2012 pela editora Pulo do Gato, em tradução de Olavo Bilac, e pela editora Iluminuras, sob o título As Travessuras de Juca e Chico, em tradução de Cláudia Cavalcanti, que ganharam novos leitores e bom espaço na mídia, independentemente de seu caráter infantojuvenil. 

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A respeito das histórias de Busch, Simone Homem de Mello lembra que “o virtuosismo da rima e da métrica, em contraste com a trivialidade do enredo de seus poemas narrativos, é um traço singularizador do humor buschiano”. O poeta alemão escrevia em dísticos rimados e metrificados, num padrão métrico conhecido como Knittelvers, que Guilherme de Almeida transformou em redondilha maior: “É tão bom, depois da ceia,/ Cochilar de pança cheia!” (A Mosca).

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A opção de Guilherme de Almeida o obriga a reinventar os versos de Busch em tradução bastante livre, muitas vezes só preocupado em recontar/traduzir apenas o que vê nas imagens do poema, deixando de lado o seu texto. Segundo Simone, Guilherme de Almeida intensifica as relações entre texto e imagem, possivelmente instigado pelo projeto editorial destinado às crianças da primeira edição. Resultam dessa opção tradutória versos completamente diferentes do original alemão: “Zwei Knaben, jung und heiter/ Die tragen eine Leiter”, que numa tradução literal seria “Dois meninos, jovens e alegres/ Carregam uma escada”, é traduzido por Guilherme de Almeida da seguinte forma, “Aonde irá com esta escada/ Esta parelha endiabrada?” Se Busch não dá pistas de quem sejam verdadeiramente esses meninos, Almeida revela de pronto que se trata de uma “parelha endiabrada”. 

Muitas dessas opções tradutórias são analisadas por Simone (seu livro é fruto de sua pesquisa na área de tradução), que não raramente exalta a versão brasileira considerando-a “dotada de estratégias de expressividade bem mais nítidas que o texto alemão”, ou cuja sonoridade “frequentemente supera a do original”. 

Há, é certo, na tradução de Guilherme de Almeida, perdas e ganhos, ainda que nela ele se revele o grande poeta que é. Vale lembrar Cyril Aslanov, para quem “o tradutor seria manipulador e mentiroso por ser poeta. Se não fosse poeta, correria o risco de ser um tradutor ruim”. 

Segundo Dominique Nédellec, o tradutor é um “Passador, falsário, impostor, camaleão, raposa, bode expiatório... Sim, é claro. Mas, o que mais? Brice Matthieussent: ‘Para ser um bom tradutor é preciso ser um acrobata da língua, ser flexível no manejo das palavras. Sempre surgem situações embaraçosas que exigem um bocado de agilidade’”. Guilherme de Almeida é sem dúvida um acrobata expressivo.

Wilhelm Busch é contemporâneo dos ingleses Lewis Carroll (1832-1898) e Edward Lear (1812-1888), os pais do nonsense. Max und Moritz foi publicado em 1865, no mesmo ano em que Carroll publicava seu Alice no País das Maravilhas. O nonsense também parece fazer parte da estética de Busch, que, longe de construir versos edificantes (para crianças ou não), trabalha com o antagonismo violento entre o grupo social e o indivíduo, tal como fez Lear em seus limeriques, versos de quatro ou cinco estrofes, conforme disposição gráfica, sempre acompanhados de ilustrações do autor, como são, aliás, os versos de Busch.

*É autora de 'As Antenas do Caracol: Notas sobre Literatura Infantojuvenil' (ed. Iluminuras) 

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