Clayton de Souza/Estadão
Clayton de Souza/Estadão

Poemas do cineasta iraniano Abbas Kiarostami são lançados no Brasil

Autor lança mão de uma tradicional forma poética japonesa, os haikus, para nos legar as mais belas justaposições imagéticas

Flávio Ricardo Vassoler*, Especial para o Estado

03 de agosto de 2019 | 16h00

Em Nuvens de Algodão (Editora Âyiné, tradução de Pedro Fonseca), o cineasta iraniano Abbas Kiarostami (1940-2016) lança mão de uma tradicional forma poética japonesa, os haikus, para nos legar as mais belas justaposições imagéticas, como se o eu-lírico, ao capturar quadros panteístas da natureza, estivesse com a câmera do diretor em mãos. É assim que, como uma criança que corre por uma campina eivada pelo orvalho, o eu-lírico vai caçando as imagens como borboletas fugidias: “Aproximo meu ouvido/ do sussurro do vento/ do estrondo do trovão/ da melodia das ondas”. A sinestesia em profusão se vê aguçada pela chuva, cuja queda malemolente faz exalar “o aroma das nozes/ a fragrância do jasmim”. 

Os versos dos haikus podem trazer vertigem ao leitor, que, em meio à transição célere das imagens, quiser descansar os sentidos fatigados pelo nomadismo do olhar. Ainda com a curiosidade da criança, o eu-lírico “mergulho/ meu rosto na água da fonte/ de olhos abertos”. Ao demarcar a mudança para a última estrofe com um hiato em branco, o eu-lírico, com o espectro do cineasta sempre a lhe rondar, corta a imagem, abruptamente, para um verso-desenlace que faz a criança ficar deslumbrada com a descoberta envolta pelas águas: “Mergulho/ meu rosto na água da fonte/ de olhos abertos/ dez pedrinhas”. Quando a voz intrépida se deita “sobre a terra dura”, o céu se descortina com seu zoológico etéreo de elefantes e girafas, até que a avó do poeta, com o indicador direito vergado pelo reumatismo, aponta para o céu e sussurra para a meninice do eu-lírico: “nuvens de algodão”, nuvens de algodão doce no céu da boca. 

Até aqui, os haikus de Kiarostami perfazem o itinerário de um belo aforismo de Nietzsche (1844-1900): “Maturidade do adulto: recuperar a seriedade da criança ao brincar”. Súbito, no entanto, a brincadeira a sério da poesia assume a densidade das dez pedrinhas de chumbo que despencam, sem saber por quê, rumo ao fundo escuro do lago: “No silêncio da noite/ não me deixa dormir/ a nênia dos cupins”.

Para a curiosidade aventureira das crianças, descobrir se o pó branco sobre o tampo da mesa é açúcar ou sal implica, simplesmente, levá-lo à boca às escondidas da avó que agora bate o bolo – ou seria a torta? Mas não é sem dor, no entanto, que o eu-lírico descobre que “a mosca”, frágil, “foi morta/ culpada de haver provado o açúcar”. A criança acaba de descobrir que os mais frágeis logo se veem supliciados pela ousadia do desejo.

O céu da infância era um zoológico lúdico de nuvens. Com a consciência da vida que dói, “o céu fragmenta-se/ num espelho quebrado”. É assim que, ao olhar para “uma mulher de cabelos brancos” – a avó daquele que já não é mais um menino? –, o eu-lírico nota que a senhora “observa as flores da cerejeira:/ Haveria chegado a primavera da minha velhice?”. 

Antes, as flores despontavam sob o signo inequívoco da aventura altiva. Agora, “uma pequena flor anônima”, já sem a fragrância do jasmim e sem a esperança do orvalho, “brota sozinha/ na fissura de uma montanha imponente”. É como se a poesia calejada de Kiarostami nos indagasse: de que adianta o fruto ser sumarento, se “a árvore de marmelo” floresce “numa casa abandonada”?

E agora: que fazer? “Hesitante/ estou numa encruzilhada,/ o único caminho que conheço/ é o caminho de volta”. Se a lagarta não se visse coagida a abandonar o útero da crisálida, a lenda de Peter Pan seria uma saída para a borboleta que tem medo de envelhecer – e morrer. Mas a criança que um dia Kiarostami foi já sabe que não é possível estancar os grãos de areia do tempo. 

Chega o momento, então, de interpelar “uma velha monja”, que “toma o café da manhã sozinha/ barulho de chaleira fervendo”: “se estou contigo/ sofro/ se estou comigo/ temo// por onde vai a ausência do ser?”. Como é dolorido o hiato em branco que aparta os quatro primeiros versos da pergunta final desembainhada como uma faca-só-lâmina! “Por onde vai a ausência do ser?” – ou, por outra, por onde vai o ser como ausência? 

A monja continua a tomar o café da manhã sozinha, como se o barulho da chaleira fervendo e a inquietude das perguntas últimas do eu-lírico fossem tão imperceptíveis como o pouso letal da mosca sobre o açúcar. 

*FLÁVIO RICARDO VASSOLER É DOUTOR EM LETRAS PELA FFLCH-USP, COM PÓS-DOUTORADO EM LITERATURA RUSSA PELA NORTHWESTERN UNIVERSITY. AUTOR DE ‘DIÁRIO DE UM ESCRITOR NA RÚSSIA’ (HEDRA)

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