Bob Richman/Harpo
Bob Richman/Harpo

Poesia completa de Maya Angelou, ativista pelos direitos civis, é reunida no Brasil

Escritora atuou ao lado de Martin Luther King Jr. e Malcolm X

Dirce Waltrick do Amarante*, Especial para o Estado

06 de junho de 2020 | 16h00

Chega agora ao Brasil, em tradução de Lubi Prates, a poesia completa da norte-americana Maya Angelou (1928-2014), pseudônimo de Marguerite Ann Johnson, uma das vozes negras mais importantes do século 20. Angelou foi poeta, romancista, atriz, roteirista, jornalista, cantora, dançarina e professora. Acima de tudo, foi uma grande ativista, que denunciou em suas obras o que é ser negro em uma sociedade extremamente racista como a norte-americana. Atuou ao lado de duas grandes personalidades na luta pelos direitos dos negros, Martin Luther King Jr. e Malcolm X. Dedicou o poema Seu Dia Acabou a Nelson Mandela, líder que deixou herdeiros, os quais atenderão “generosamente aos gritos/ De Negros e Brancos,/ Asiáticos, Hispânicos,/ Dos pobres que vivem penosamente/ No chão do nosso planeta”. 

Em Eu Sei Por Que o Pássaro Canta na Gaiola (1969), a primeira de uma série de autobiografias escritas por Angelou, confessa que “é horrível ser negra e não ter controle sobre a minha vida”. Seus poemas mantêm esse tom confessional e de denúncia. Em Estados Unidos da América, por exemplo, o leitor conhece um lado obscuro de um país conhecido por ser a terra onde os sonhos se realizam: “O ouro de sua promessa/ nunca foi extraído// O limite de sua justiça/ não está bem definido// Suas colheitas abundantes/ a fruta e o grão// Não alimentaram os famintos/ nem aliviaram sua dor profunda// Suas promessas orgulhosas/ são folhas ao vento// Sua orientação segregacionista/ é amiga da morte de negros”.

A poesia de Angelou ecoa muitas outras vozes negras que, como a dela, carregariam a “culpa” das “correntes da escravidão”, cujo “barulho do ferro caindo ao longo dos anos”, diz o poema Minha Culpa, teria tapado os ouvidos dos negros com “cera amarga”, impedindo que eles ouvissem o apelo de seus irmãos vendidos e de outros desaparecidos. Uma culpa que não recai sobre os ombros dos brancos, mas dos negros, que se cobram por não ter gritado mais alto quando deveriam tê-lo feito. Em outro poema, os versos destacam que “Enquanto houver algo pelo que chorar/ Haverá pelo que morrer/ Essa é a responsabilidade de todos”; contudo, diz a voz por trás dos versos, “eu acreditarei na ajuda dos progressistas para nós/ Quando eu vir um branco carregar a arma de um negro”. 

Uma das características da escrita de Angelou é a clareza, pois a poeta escreve como se desejasse chegar ao maior número de leitores possível. Afinal, ela acredita que esteja falando por aqueles que não têm voz, por negros e negras que não têm a oportunidade de se expressar ou, quando se expressam, não são ouvidos. Angelou, ao contrário, fala para ser ouvida. É interessante pensar em Angelou como porta-voz dos silenciados, uma vez que ela mesma teria ficado sem voz depois de ter sido, aos oito anos de idade, violentada pelo companheiro de sua mãe, o qual depois foi assassinado, provavelmente por alguém de sua família. A então menina imputou à sua voz, que denunciara o abuso, a culpa pela morte do criminoso, e, por isso, emudeceu por aproximadamente cinco anos, com medo de que sua fala tivesse sido a responsável pela tragédia familiar. Nesse período de silêncio, dedicou-se à leitura e à observação da vida à sua volta.

Aos 17 anos teve um filho e passou a exercer todo tipo de ocupação para sustentá-lo, entre elas a prostituição. Em Trabalho de Mulher, Angelou parece descrever esse período de sua vida, que não é muito diferente da experiência vivida, ainda hoje, por muitas mulheres: “Eu tenho crianças para cuidar/ As roupas para remendar/ O chão para esfregar/ A comida para comprar/ Depois, o frango para fritar/ O bebê para secar”. 

A propósito de sua relação com os homens, esta não foi apenas negativa. Angelou teve muitos companheiros que dialogaram com ela e a apoiaram. Nos seus poemas, todas as suas experiências com o sexo oposto, boas e más, vêm à tona. Em Desprendidos, Angelou fala que damos boas-vindas ao Barba Azul e nosso pescoço a estranguladores e que “Nós amamos,/Esfregando nossa nudez com mãos enluvadas,/Invertendo nossas bocas em beijos de língua,/ Beijos que não tocam e/ não se importam em tocar se/ o amor é interno”. 

Já num outro poema, Para um Marido, talvez dedicado ao escritor, ensaísta e ativista social James Baldwin, com quem teve um relacionamento bastante instigante, lê-se, de uma forma acolhedora, diferentemente dos versos citados acima, que “Para mim, você é a África/ No seu amanhecer mais brilhante./ O verde do Congo e/ O tom salobro do cobre,/ Um continente para construir/ Com a força do Negro./ Eu me sento em casa e vejo isso tudo/ Através de você”.

Poesia Completa é um livro necessário em tempos de retrocesso. Embora a tradução seja delicada e fluente, faltou ao volume uma introdução que pudesse amparar o leitor que desconhece a figura ímpar de Maya Angelou. Também faltaram as datas em que os poemas foram escritos. 

*DIRCE WALTRICK DO AMARANTE É AUTORA, ENTRE OUTROS, DE ‘CEM ENCONTROS ILUSTRADOS’ (ED. ILUMINURAS) E ‘MINHA PEQUENA IRLANDA’ (RAFAEL COPETTI EDITOR)

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