Cecilia Vicuña
Cecilia Vicuña

Poesia de Sérgio Medeiros evoca teatro e dilúvio de imagens

Poeta lança dois livros pela editora Iluminuras

Ronaldo Bressane*, Colaboração para o Estado

22 Julho 2017 | 16h00

Parece uma peça de teatro – tem personagens, rubricas, vozes –, mas as falas antinaturalistas e superdescritivas nos mostram que não se trata de drama, ou, se há drama, este foi desossado. Parece um poema em prosa – as falas antinaturalistas descrevem paisagens naturais ou urbanas – mas logo percebemos que os desossados personagens são mesmo atores em uma peça na qual eles também não sabem muito bem o que representam (e saberemos nós?). 

Parece uma sucessão de imagens – algumas prosaicas, outras horríveis, terceiras enigmáticas e diversas dialogando com poetas tão díspares quanto Lorde Byron, Haroldo de Campos, D’Annunzio ou John Cage – mas logo notamos que não se trata da inteligência artificial que controla alguma conta no Instagram, e sim talvez a própria Nuvem pensando o mundo através de imagens tão belas quanto desconexas. E sim, fora uma peça, um poema em prosa ou uma sucessão aleatória de imagens, parece se tratar também de um jogo entre personagens nomeados Idólatra 1, 2, 3, 4, 5... 

“(...) Entre gaivotas iluminadas que passam voando na praia surge um lerdo avião tão branco quanto elas; nada se ouve embaixo na areia ensolarada exceto o grito estridente dos quero-queros (...) Vidros transparentes presos em pé numa carroceria veloz com uma lona meio solta por cima que tremula e se lança para trás com o som de chicotadas e depois sobe e vai de novo para trás como a crina longa de um cavalo galopando (...) As gaivotas que estão na areia catando farelos são fotografadas por um casal oriental descalço sem pressa de avançar sob o céu ameaçador de onde caem gotas (...) Na areia branca ao meio-dia dois urubus iguais se mantém lado a lado e um deles de repente bica o bico do outro como se lhe desse um beijo e ambos se encaram pacíficos enquanto a maré vai subindo aos solavancos (...) Na calha ensolarada cresce uma plantinha hirta com três folhas verdes e uma flor branca; é um dos lugares mais inóspitos da casa no verão que se prolonga ardido (...)”

Em maio de 2017, 136 mil fotos subiam para o Facebook a cada minuto, e, em uma estimativa conservadora, analistas apontam que subirão para a Nuvem cerca de um trilhão de imagens neste ano. Imagens que jamais serão vistas de novo – ou, pelo menos, não por seres humanos – e já existem inteligências artificiais reconfigurando o universo a partir das imagens captadas pelos humanos. 

Modestamente, aqui embaixo da Nuvem, há poetas como Sérgio Medeiros buscando usar o humilde guarda-chuva da linguagem para sequestrar o que restou do sagrado na contemplação do Universo, em livrinhos preciosos como este A Idolatria Poética – Ou A Febre das Imagens (Iluminuras, 63 páginas, R$ 29). 

O projeto do poeta mato-grossense que reside em Santa Catarina, onde ensina literatura na Universidade Federal de Santa Catarina, é adivinhar, nas frestas entre natureza e cultura, “o reencantamento do mundo”, conforme apresenta Malcolm McNee na orelha do livro. Para tanto, mergulha, como seu conterrâneo Manoel de Barros, nos sutis vasos comunicantes entre humanidade e universo, sempre através do deslumbramento dos sentidos – sensualidade que redunda em livros como Sexo Vegetal, que dialoga com a antiquíssima tradição animista, o pensamento totêmico e mitos indígenas brasileiros. 

Sérgio Medeiros busca aqueles instantes de inauguração do mundo, em que as coisas ainda não têm nome nem significado, apenas fulgurações, ecos do Big Bang, especiais somente por que lhes demos atenção e as recolhemos sob o dilúvio de imagens desconexas da Nuvem (pelo menos antes que alguma inteligência artificial seja mais esperta).

Dialogando com o surrealismo e o absurdismo, Medeiros também coloca na praça, via editora Iluminuras, as peças As Emas do General Stroessner, A Revolução dos Munícipes e das Plantas e Atividades Espirituais na Nova Igreja do Brasil. São microdramas que flertam com Eugène Ionesco e Campos de Carvalho, e talvez também com Luis Buñuel e José Agrippino de Paula no humor distanciado com que veem figuras como o ex-ditador paraguaio e seu homólogo brasileiro Garrastazu Médici – hoje tão ridículos e desbotados em suas fantasias de poder, borrados nos óculos escuros e nos uniformes – conversando sobre a amizade entre os dois países em uma ponte sobre o rio Apa. Ponte que a ironia de Medeiros corrói, demonstrando a falta de nexo possível entre um país que foi violentado por outro, entre a natureza desinteressada da humanidade.

Enquanto anotava esta resenha, um urubu que passeava entre os prédios de Higienópolis pousou na cabeça da estátua da Imaculada Conceição, na igreja de mesmo nome, na rua Jaguaribe. Na fachada da igreja há duas inscrições: “Refúgio dos Pecadores” e “Rogae por nós”. Na rua, os automóveis, indiferentes ao milagre da comunicação entre o mundo dos santos e o mundo dos urubus, buzinavam. Resgatar imagens como esta e lhes dar o sentido do susto – ainda que este sentido resida em alguma nuvem pairando no céu azul longe de qualquer pecado – é só o que rogamos a poetas-xamãs como Sérgio Medeiros.

*Ronaldo Bressane é escritor e jornalista, autor, entre outros, de 'Escalpo' (Editora Reformatório) e 'Metafísica Prática' (Editora Oito e Meio)

As Emas do General Stroessner e Outras Peças

Autor: Sérgio Medeiros

Editora: Iluminuras

112 páginas

R$ 35

A Idolatria Poética ou a Febre de Imagens

Autor: Sérgio Medeiros

Editora: Iluminuras

64 páginas

R$ 29

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