Museu de Arte Walters de Baltimore
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Poesia grega antiga é traduzida com duas abordagens diferentes

'Lírica Grega, Hoje' e 'Fragmentos Completos' resgatam poemas de Safo

Marcelo Tápia*, Especial para o Estado

05 Maio 2018 | 16h00

A questão do sentido de se ler e apreciar literatura antiga tem tido, entre nós, respostas significativas. Dois livros recentes de poesia recriada por tradutores-professores de línguas antigas e literatura clássica estimulam a reflexão sobre a recriação de fragmentos: além das questões próprias do trabalho com o que resta após as perdas geradas pelo tempo, há a relevante dimensão de uma estética fragmentária associada à contemporaneidade.

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Iniciemos com a antologia Lírica Grega, Hoje, organizada e traduzida por Trajano Vieira (editora Perspectiva). Notório e profícuo recriador, entre nós, de poesia grega épica e dramática, Trajano tem se empenhado em valorizar a tradução como transcriação, conceito proposto por Haroldo de Campos, com quem manteve colaboração estreita – foi consultor de Haroldo durante o processo de sua recriação da Ilíada, de Homero. O tradutor comenta que, embora os estudos acadêmicos tenham avançado no Brasil nessa área, “dá para contar nos dedos de uma das mãos as traduções dos líricos gregos que poderiam ser indicadas a alguém que, ignorando o idioma, quisesse ter experiência literária de autores como Safo, Alceu ou Arquíloco”. Para ele, “os comentários se multiplicam e, com eles, as traduções literais”, às quais se contraporiam traduções como as suas, que “procuram oferecer ao leitor que ignora o grego um gosto do original”; sua atenção, para tanto, estaria “voltada sobretudo à forma da linguagem”. Sob tal prisma, os poemas traduzidos buscam conquistar sua existência como criação autônoma – “porém recíproca”, no dizer de Haroldo –, de modo a substituir, como experiência estética, o original na língua para a qual é traduzido; a transmitir ao leitor, como almeja Trajano, “algo do sabor presente nos originais”.

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O antagonismo entre recriação poética e tradução “literal” (normalmente associada à pesquisa acadêmica) permeia a história da tradução literária e do próprio modo de conceber a tarefa do tradutor. No entanto, a tradução propriamente poética, ou orientada pela natureza estética do texto, não exclui a busca de correspondência de significação entre texto original e traduzido, como atestam inúmeras recriações bem sucedidas. 

A maneira de encarar fragmentos de poesia antiga e a tarefa de traduzi-los podem ser ilustradas, especialmente, pelo caso do poema Papyrus, do poeta norte-americano Ezra Pound (1885-1972): “Spring.... / Too long.... / Gongula ...” (“Domingo.... Tão longo.... Gongula....”, na tradução de Augusto de Campos). O poema foi considerado, no tempo de sua publicação (1916), como “uma extravagância modernista do polêmico poeta”, no dizer de Haroldo. Mas revelou-se, em 1971, por meio de Hugh Kenner, uma “peça engenhosa” criada a partir de uma hipótese de leitura reconstitutiva de um fragmento de versos da grega Safo (VII – VI a.C.): Pound optou por encimar os versos, como diria Kenner, com o título “Papyrus” e destiná-los a um “livro chamado Lustra, como exemplo para homens em processo de renascença”, ficando, assim, “décadas à espera” de que alguém os decifrasse.

Duas perspectivas legítimas se mostram: uma, a de reconstituição filológica de poemas rasurados, a indicar possíveis opções de desvendamento de sua configuração, que tanto tem valido para o conhecimento da lírica clássica; outra, o uso do processo criativo como veículo de reinserção, em outro tempo e lugar, de uma tradição apropriada e transformada. Mais do que valer como poema em si, o exercício de Pound aponta para a ação de “traduzir a tradição reinventando-a”, na formulação de Haroldo de Campos.

A edição do livro organizado por Trajano Vieira não é bilíngue, o que se faz coerente com a ideia de apresentar os poemas traduzidos como poemas a serem apreciados em português, novos de novo, como este fragmento de Alceu (630-580 a.C.):

Escapa-me à compreensão o levante dos ventos.

Ondas de ambos os lados

se arredondam,

no centro nos conduz a nave negra,

inquietos (para dizer pouco) com o tamanho

da tempestade.

     

Ou este, de Safo:

A morte, para ser franca, é o que desejo.

Ela me abandonou às lágrimas,

a um caudal de lágrimas, enquanto me dizia:

“Não foi pouco o que ambas sofremos,

Safo. Deixo-te, contrária ao meu coração.”

[...]

Caso não (te lembres)... permito-me

rememorar...

... o quanto de beleza provamos juntas.

A sinalização discreta das lacunas dos poemas, por meio de simples reticências, favorece a leitura fluida dos versos, e se presta a sugestões de sentido articuladas entre os pontos suprimidos.

Prossigamos com o livro Fragmentos Completos, de Safo, organizado, traduzido e anotado por Guilherme Gontijo Flores (editora 34). O alentado volume, em apresentação bilíngue, traz a terceira das traduções brasileiras de tudo o que restou da obra sáfica, conjunto esse que se ampliou recentemente com o achado de novos fragmentos. A proposta do tradutor é ambiciosa: conjuminar as exigências acadêmicas relativas aos estudos de natureza filológica e a tradução criativa. Guilherme afirma que “a tradução poética pode conviver com o rigor acadêmico e, mais, pode fazer dos problemas materiais do texto um lugar para a discussão da poética, que, nesse caso, aponta para uma poética do fragmento”. Embora não pretenda atender exaustivamente aos padrões de edição filológica, inclui notas sobre os fragmentos e adota a notação acadêmica (colchetes, pontos e cruzes, entre outros sinais) para indicar elementos perdidos ou incertos dos poemas, o que acaba atribuindo à edição um aspecto de fonte para estudiosos de poesia antiga. Outra característica do projeto editorial, contudo, aponta ao outro sentido que a tradução busca contemplar: os fragmentos, por mais breves que sejam, ocupam o espaço de uma página, modo de evocar a leitura aberta a seus possíveis campos de ressignificação. No dizer de Flores, sua tradução “almeja recriar um potencialidade da voz perdida, dar à voz Safo”. 

No plano da apreciação estética, parece-me, como leitor, que a presença abundante dos sinais gráficos, visualmente enfáticos, acaba por gerar uma constante que concorre com a potencialidade do fragmento (assim apresentado) de gerar ou sugerir significação. Diversa é a visão do tradutor, para quem “o excesso de sinais torna-se parte expressiva do que o fragmento nos oferece; ela anuncia sua incompletude material por um excesso em torno do ausente”:

noite[. . .] . [

virgens e[

noite adentro [

cantariam tua p[aixão e aquela

        noiva violeta

anda acorda com os sol[teiros

certos para a idade e veremos [menos

do que aquele páss[aro claricanto

t[o]dos os sonhos

O propósito de dar Safo “à voz”, isto é, “permitir que a potencialidade vocal daqueles ritmos antigos [...] possam ser reencenados em português”, alcança momentos de completa realização, como o início do Fragmento 1 do Livro I (composto de versos decassílabos melodiosos, de ritmo marcado):

Multifloreamente Afrodite eterna

Zeus te fez ó roca-de-ardis e peço

deusa não permita que dor e dolo

domem meu peito.

Embora revele, na introdução ao volume, desacordo com “certo ideal formalista de poesia” e a tendência “a eleger a panonomásia jakobsoniana como o critério definitivo de poética”, fica evidente, em sua própria fatura, que o tradutor se orienta também por relações entre som e sentido, associadas à “função poética da linguagem” tal como definida pelo referido Roman Jakobson: “estrela estala na lua bela” (fr. 34)...

O trabalho de Guilherme não é alheio ao diálogo com a história da tradução de poesia antiga no Brasil: alguns neologismos que emprega evocam as versões latinizantes de epítetos épicos criadas por Manuel Odorico Mendes (1799-1864) – “bracinívea”, “dedirrósea” etc.: “Bracirróseas ó filhas de Zeus Graças acheguem-se!” (fr. 53). (Curiosamente, o termo “bracirróseas” está entre outros propostos por José Bonifácio de A. e Silva (1763-1838) numa “Advertência” presente em livro seu, relativa à intenção de “enriquecer a nossa língua com muitos vocábulos novos, principalmente compostos”...)

O que mais evidencia os desafios assumidos pelo tradutor é, no entanto, a ideia de realizar “um exercício de criatividade poética diante do que permanece ininteligível”, vertendo “farrapo por farrapo” de modo a que o leitor possa “imaginar que palavras poderiam surgir do fragmento em português”. A “poética do fragmento tradutório” constitui-se numa diretriz que busca conciliar, mais uma vez, o aspecto arqueológico-filológico das ruínas com uma releitura criadora.

As diversas forças lançadas pelo tradutor concentram-se, a meu ver, nos pontos em que o fragmento se diz plenamente, como neste verso anapéstico:

eu hesito pois sinto este duplo pensar em mim (fr. 51)

Ou neste, em que o sinal gráfico parece incorporar-se ao sentido:

não pretendo tocar + com as mãos + o céu (fr. 52)

Pela natureza do que se traduz – textos-rastros de épocas e poéticas muito distantes – os casos destas duas publicações fazem, mais uma vez, repensar o alcance de questões tradutórias, como a transitoriedade do sentido e o eterno movimento de sua (re)criação, para a própria literatura e toda a arte. 

*Marcelo Tápia é doutor em Teoria Literária pela USP, poeta e autor de 'Refusões - Poesia 2017-1982' (Perspectiva). Dirige a rede de museus-casas literários de São Paulo 

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