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Poeta alemão Hans Magnum Enzensberger critica esquerda em livro de memórias

Em seu livro 'Tumulto', autor recorda as décadas de 1960 e 1970

Luiz Zanin Oricchio, Especial para o Estado

20 de julho de 2019 | 16h00

A recordação de fatos longínquos da juventude implica o risco inevitável da subjetividade, quando não da arbitrariedade. Uma certa objetividade do olhar retrospectivo é buscada pelo autor alemão Hans Magnus Enzensberger ao encontrar em seu porão papéis e anotações de um tempo longínquo e neles se basear para pôr em movimento a enganosa máquina da memória. O resultado é Tumulto, em que o escritor debruça-se sobre o passado, evocando passagens da sua vida pessoal e amorosa, mas também acontecimentos históricos de uma época especialmente agitada da história política no século 20. 

Enzensberger principia sua memorabilia por uma primeira viagem à então União Soviética, em 1963, como participante de um encontro de escritores. Em 1966, ele retorna à URSS. Suas experiências com o chamado socialismo real não parecem impressioná-lo muito e nem se resumem à “pátria mãe” dos comunistas, mas estendem-se à invenção comunista tropical, no Caribe, em Cuba, anos depois. 

Enzensberger flerta com o campo da esquerda, hegemônico na época (e talvez ainda hoje) entre intelectuais. É sua área de convivência. No entanto, nunca adere a ela de maneira total, ou, pelo menos, esta é a impressão do Enzensberger velho sobre o Hans Magnus jovem. Conserva todo o tempo o que poderíamos chamar de espírito crítico exacerbado. Ou de saudável ceticismo em face de certo autoritarismo salvacionista bastante comum nas hostes de esquerda daquele tempo (e talvez também nas de nossa época). Por outro lado, este distanciamento crítico, e lúcido, o mantém de certa forma alheio a tudo aquilo que presencia. Como se nunca estivesse de todo lá onde se encontra. 

Não é, sem dúvida, despida de encanto sua descrição do encontro com escritores e pensadores famosos, em reunião com o então premiê Nikita Krushev. A menção a Jean-Paul Sartre é desabonadora. Segundo Enzensberger, o filósofo francês exagera na bebida e comporta-se de forma submissa diante do líder soviético. Lembre-se que, mesmo em 1963, a URSS já era alvo de críticas de intelectuais do Ocidente por conta do esmagamento do levante húngaro em 1956. Sartre, no entanto, por razões possivelmente táticas, manteve seu apoio à União Soviética. Enzensberger não o perdoa. “Sartre, com suas 30 palavras, não assume nenhum risco, mantém-se na expectativa, para não dizer manso como um cordeiro, atitude que constrasta por completo com a que adota na França...” Encontrou-se também com o poeta chileno Pablo Neruda, que vivia “com o fausto de um Lord Byron, sendo que este, ao menos, pagava suas próprias contas”. 

Também a descrição de Krushev, visitado pelos intelectuais em sua dacha, não é nada elogiosa. Para o escritor alemão, o político que enfrentou Kennedy na Crise dos Mísseis em Cuba, era um tipo absolutamente desprovido de encanto e personalidade. 

Sartre e Krushev aparecem em meio ao profuso “name dropping” praticado por Enzensberger. Foram com ele a Leningrado (hoje São Petersburgo), além dos indefectíveis Sartre e Simone de Beauvoir, Nathalie Sarraute, Angus Wilson, William Golding, Giuseppe Ungaretti e Hans Weber Richter, convivendo com colegas da “banda oriental”, da qual se distinguia o poeta midiático Yevgueni Yevtushenko, que gozou de notoriedade internacional, até mesmo aqui, no Brasil, nos anos 1960 e 1970. 

As descrições de Enzensberger são vívidas, marcadas por uma ironia que, insisto, não se sabe se já presente naquele tempo mais cândido de juventude ou se marca do idoso que recorda o passado e quer se eximir de qualquer complacência. No entanto, soam verdadeiras no inconformismo do jovem intelectual alemão com as divisões burocráticas encontradas na URSS para classificar os escritores em “antissoviéticos”, “reacionários” e “burgueses progressistas”. Enquanto na Europa se discutia o noveau Roman francês e sua dissolução do enredo, na União Soviética de Krushev fincava-se pé no realismo socialista e em sua defesa da arte didática e acessível ao povo. Enzensberger mostra-se implacável em sua posição crítica em relação a essas limitações. 

Encontramos um traço de emoção em outra parte do périplo soviético, no encontro com a poeta judia Margarita Aliger e, sobretudo, com sua filha Maria Aleksandrovna Makarova, a Masha, com a qual Enzensberger desenvolverá um romance longo e tumultuado, que se estende por muitos anos e diversos países. Um verdadeiro “amour foi”, no sentido surrealista do termo e que não teve bom final. 

Suas impressões sobre Cuba tampouco são lisonjeiras. Lá viveu com Masha, tendo o casal se colocado à disposição do governo para um trabalho que nunca se realizou, o de conselheiros diplomáticos para embaixadores cubanos na Europa. À sua maneira de sempre, Enzensberger mantinha-se a distância. Descria do “homem novo” de Che Guevara, ironizava os “trabalhos voluntários” dos intelectuais no corte da cana e irritava-se com o personalismo de Fidel Castro. 

A gota d’água foi com o caso do poeta cubano Heberto Padilla, denunciado em 1971 por “atividades subversivas contra o governo” e submetido a um processo de fachada. Padilla foi forçado a uma confissão humilhante e o caso produziu grande desgaste de Cuba nos meios intelectuais, até então simpáticos à Revolução. Enzensberger lembra que 62 autores assinaram uma carta aberta à Castro, entre eles, Sartre, Simone, Cortázar, Calvino, Semprún, Pasolini, Rulfo e Llosa. Castro respondeu com um acesso de fúria. E, para Enzensberger este era o fim das ilusões com paraísos, socialistas ou não. 

Enzensberger fala de suas relações com revolucionários do seu próprio país, membros da RAF (Rote Armee Kraktion), Fração do Exército Vermelho, gente como Ulrike Meinhof, Gudrun Ensslin, Andreas Baader e outros menos notórios. Apareceram de súbito na casa de Enzensberger, pedindo abrigo, após haverem resgatado Baader da prisão. O escritor respondeu que não lhe parecia boa ideia, pois era vigiado de forma constante pela polícia alemã. A recusa de abrigo, assim como seu ceticismo em relação ao uso da violência como arma política, lhe valeu o adjetivo de “covarde” por parte do grupo armado. Para Enzensberger, a tal Fração do Exército Vermelho não passava de um exército fantasma, uma fantasia voluntarista e delirante. 

Lê-se com muita facilidade e prazer este Tumulto, relato pessoal dos vertiginosos anos 1960 e 1970, era das utopias, como já foi chamada. Aos 85 anos, Enzensberger livra-se de qualquer autocomplacência e mantém a prosa fluida, leve, solta e coloquial ao dirigir-se a si mesmo e ao seu possível leitor. Em parte do livro, usa a estratégia de uma bateria de perguntas e respostas em que ele próprio é o entrevistador e o entrevistado. Expediente arriscado pois, se não é impossível mentir para si mesmo, o cabotinismo pode ficar mais explícito ao falsear a verdade. 

Mas o fato é que Enzensberger estabelece a “sua” verdade, em relação à experiência pessoal daqueles anos intensos. Pode-se objetar que sua crítica implacável aos “paraísos socialistas” não é acompanhada de ceticismo paralelo à desmesura capitalista e seus danos no entanto bastante palpáveis e próximos, no tempo como no espaço - afinal, no início dos anos 1960, a Segunda Guerra havia terminado apenas 15 anos atrás, com seu rastro de ruínas e milhões de mortos.

Mas sempre se pode dizer que a acidez da crítica depende do tamanho da desilusão. Enzensberger não pode entender que os “paraísos políticos” sejam compulsórios: “De um paraíso se deve exigir que alguém possa abandoná-lo quando se fartou dele. Isso também é válido para os paraísos políticos da índole que augurava o comunismo”. Também o desagradava o dogmatismo de ideias que acompanhava essas utopias: “Pessoas da esquerda, em sua configuração atual, são de tal forma obedientes às suas doutrinas que preferem negar a mais simples evidência a jogar suas ideias fixas no cesto do lixo.” 

Nesse sentido, como negar seu direito à crítica preferencial da esquerda e de suas construções políticas? Afinal, como se sabe, o “outro lado” se caracteriza por nada prometer e nada discutir. Preserva-se de flancos aberto e apenas age. 

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