Heinz Bachmann/Todavia
Heinz Bachmann/Todavia

Poeta austríaca Ingeborg Bachmann retrata mundo sem futuro no pós-guerra

Filha de um membro do partido nazista, escritora tem versos reunidos na edição bilíngue 'O Tempo Adiado e Outros Poemas'

Dirce Waltrick do Amarante*, Especial para o Estado

07 de março de 2020 | 16h00

“Tratem de ficar acordados!” é um dos versos de Madeiras e Lascas, da poeta austríaca Ingeborg Bachmann (1926-1973), uma das escritoras mais importantes do pós-guerra na Europa, que retorna agora ao Brasil com a coletânea bilíngue O Tempo Adiado e Outros Poemas (Todavia). A organização e a tradução cuidadosa e fluente são de Claudia Cavalcanti, que também assina um extensivo posfácio, no qual fala sobre a vida e a obra da poeta.

Bachmann, que também escreveu em prosa e publicou ensaios sobre filosofia, costuma, contudo, ser lembrada por aqui, muitas vezes, pelo fato de ter sido a companheira do escritor romeno de origem judaica Paul Celan, o que não deixa de ser interessante se pensarmos que o pai de Bachmann era membro do partido nazista.

A guerra, a propósito, marcou profundamente a sua vida, pois, como afirmou, “empurrou o mundo onírico e fantástico para trás do real, no qual não se tem o que sonhar, mas o que decidir”. O mundo onírico ou fantástico ressurge, porém, em alguns de seus versos, não de forma lírica e idílica, mas como pesadelo, um mundo hesitante ao qual todos precisam resistir apesar do medo e dos horrores: enquanto “tu ris e choras e pereces em ti // “O pavão, solenemente assustado, exibe a cauda/ a pomba ergue o peito,/ plena de arrulhos, o ar se estende,/ o pato grita // Não me expliques nada. Vejo a salamandra/ mover-se pelo fogo./ Nenhum assombro vai capturá-la, e nada lhe causa dor”. 

Lê-se no posfácio que parte da crítica conservadora à época definiu a escritora, de forma “rudimentar”, como autora “de poemas que devolviam beleza à língua e traziam a natureza de volta à ‘genuína lírica germânica’”. Mas essa visão crítica da obra de Bachmann não perdurou muito, nem poderia, diante de versos contundentes como os do poema Meu Pássaro: “Haja o que houver: o mundo devastado/ afunda de volta ao ocaso, as florestas lhe oferecem um sonífero,/ e da torre, abandonada pelo guardião,/ a coruja não para de olhar tranquilamente para baixo”. A natureza, em Bachmann, afunda com a barbárie e a guerra.

Aliás, ela estava consciente da dificuldade de descrever o inominável: “Nada mais me agrada./ Devo/ guarnecer uma metáfora/ com uma flor de amêndoa?/ crucificar a sintaxe/ sobre um efeito de luz?/ Quem despedaçará o crânio/ por coisas tão superficiais – ”. Seus versos são pessimistas, neles não há futuro e quando há, parecem anunciar que “vêm aí dias piores”, como revela no poema O Tempo Adiado. Bachmann parece ser porta-voz do infortúnio a que estamos condenados. Em Enigma, ela anuncia: “Nada mais vai chegar./ A primavera não virá mais/ Assim nos antecipam calendários milenares/ E não hás de chorar por isso, diz a música./ Nada mais foi dito”. 

O pintor e escultor alemão Anselm Kiefer criou muitas obras inspiradas na literatura de Bachmann (e também na de Paul Celan), sua musa intelectual, como Nebelland, inspirada no poema de mesmo nome da poeta austríaca, o qual consta dessa antologia em língua portuguesa sob o título Terra Nebulosa: “Minha amada é infiel,/ sei, ela às vezes paira/ sobre saltos altos até a cidade,/ nos bares beija os copos na boca profundamente, com o canudo/ e encontra palavras para todos./ Mas essa língua eu não entendo.// Nebulosa terra eu vi/ Nebuloso coração comi”. Na tela de Kiefer surge uma terra barrenta, onde um homem deitado (ou “morto”) contempla o vazio. 

Em 2015, vários trabalhos de Anselm Kiefer foram exibidos em Salzburg, na Áustria, sob o título Im Gewitter der Rosen (tirado de um poema de Bachmann), ou Sob a Tempestade de Rosas, conforme tradução de Cavalcanti. Uma série de telas, colagens, esculturas que tratam de matérias opostas, como a paz e a guerra, o amor e o sofrimento. Diz o poema de Bachmann: “Seja lá aonde formos sob a tempestade de rosas,/ a noite é iluminada por espinhos, e o estrondo/ da folhagem, tão silente nos arbustos,/ segue-nos agora de perto”.

Outro tema caro a Bachmann é a fronteira. A poeta conta que nasceu na Caríntia, “na fronteira, num vale com dois nomes – um alemão e outro esloveno”, e prossegue: “Mas perto da fronteira ainda há outra fronteira: a fronteira da língua – e eu, cá como lá, sentia-me em casa A estreiteza desse vale e a consciência da fronteira me imprimiram o sonho de viajar”. Bachmann viajou, morou em diferentes cidades e ainda fez viagens imaginárias em seus poemas, como em A Boêmia Fica na Beira do Mar, no qual descreve um nômade “que nada tem e ninguém detém/ se presta só pra ver, do mar que se desdiz, país que eu escolher”. 

Para a poeta, que viveu a guerra e o pós-guerra, viajar era necessário, pois, “Em tempo arrogante/deve-se ir rápido de uma luz a outra, de um país a outro” (Curriculum Vitae). 

O TEMPO ADIADO E OUTROS POEMAS

AUTORA: INGEBORG BACHMANN

TRAD.: CLAUDIA CAVALCANTI

EDITORA: TODAVIA

208 PÁGS., R$ 64,90

*DIRCE WALTRICK DO AMARANTE É AUTORA, ENTRE OUTROS, DE ‘CEM ENCONTROS ILUSTRADOS’ (ILUMINURAS, 2020) E ‘MINHA PEQUENA IRLANDA/ MY LITTLE IRELAND’ (RAFAEL COPETTI, 2020)

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