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Poeta critica o espírito bélico que tomou o País em livro

'Canção de Ninar com Fuzis', de Pádua Fernandes, relaciona os espaços públicos às relações de poder

Dirce Waltrick do Amarante, Especial para o Estado

28 de setembro de 2019 | 16h00

Numa entrevista concedida a Sergio Maciel, em 2018, disponível na revista online Escamandro, o poeta Pádua Fernandes, quando indagado se sua poesia era ou não política, respondeu: “É possível que sempre se possa ver uma obra literária a partir de um ponto de vista político; ademais, há tantos desses pontos de vista, e tantos referenciais teóricos diferentes sobre a política.” Conclui sua resposta afirmando que tende “a compreender politicamente o mundo e a literatura.” A poesia pode trazer um projeto de reformar a cidade? “ Creio que sim, e a leitura que faço de outros poetas em geral passa pelas questões de criação, debate e decisão sobre o que é comum, ou seja, o político”.

Com o recém-publicado Canção de Ninar com Fuzis, Pádua dá continuidade a sua forma de pensar a poesia, relacionando os versos aos espaços públicos e às relações de poder. O próprio título do livro é político e se explica nos seguintes versos: “Canção estranha, esta que urras/ diante das crianças/ que em pleno horário comercial desta praça/ soltam moscas pela boca”. A poesia fala da violência urbana, da morte (“abate”, como diz o poeta) de pessoas, em espaços que deveriam ser de lazer, à luz do dia, diante de crianças, as mesmas que hoje são estimuladas a atirar (em quem?). Numa passagem do livro, Fernandes transforma em verso de um poema de horror uma frase do atual presidente do Brasil: “Perguntei sim. ‘Quer atirar? Bota o dedinho aqui’, falei, com o pai do lado”.

Canção de Ninar com Fuzis trabalha com paradoxos e inversões de valores, que se repetem ao longo de suas páginas, em poemas como Água, Imitação do Manganês, onde se lê: “Onde deságuam/ os rios sem água”? e se afirma que os índios, que “não existem mais”, “invadem nossas plantações no meio da floresta”. 

Nessa contramão da lógica, lê-se adiante que, “em país rico/ cultura se respira no ar”, mas por aqui “pedaços de documentos de dois séculos/ três/cinco/ flutuam sobre as casas e ruas/ ainda quentes/cobrem o país”. Pois, neste país tropical, mais importante do que a cultura é o funcionamento das instituições, e para que elas funcionem bem não importa o que se deva sacrificar: “Um só magistrado custa mais do que a manutenção do museu/ portanto/ ela não deve ser paga/ as instituições precisam funcionar normalmente”. 

Nessa mesma lógica, diz o poema “Sinhô chuta de bico”: “Se apagamos os subalternos/ desde sua produção simbólica,/ não precisaremos de institutos legais de segregação se pagamos os subalternos/ desde sua produção simbólica,/ não precisamos de metralhadoras”. 

Também ganha destaque nos versos de Pádua Fernandes o corpo do torturado que, como afirmou o filósofo coreano, radicado na Alemanha, Byung-Chul Han, “tem signos. Ele é um memorial, é algo que significa. O poder do soberano diz pelos corpos esquartejados ou pelas cicatrizes que o mártir herda em seu corpo”. Na poesia de Fernandes o povo é torturado por seu país -- “Quando falo de crime, falo do meu país, entendeu?” – . O corpo do cidadão não suporta a tortura, por isso “o crânio geralmente racha nessas tentativas de andar no país”, ou não pode “digerir a cidade, mais ácida do que os sucos gástricos, a cidade confunde-se com a própria digestão e passa a devorar os famintos que a desejam, decompõe os corpos em buracos e pedregulhos, ela se torna a fome dos corpos e desterra os alimentos”. 

Conclui então que quando “vomito a madrugada inteira sei que engoli meu país”. Mas, se vomita, é que seu corpo ainda consegue repelir o mal. Um dia, contudo, corre o risco, como todos nós, de se habituar e digerir as barbáries. Nesse dia, será talvez como os manequins do poema Pranto Grátis pela Mercadoria, que, diante das vitrines quebradas, “davam lições de civismo, não tinham a ironia dos mendicantes que, mesmo vestidos, desnudam o corpo da cidade”.

Na poesia de Fernandes, o corpo é torturado também por ideias, contra as quais a luta é muitas vezes inglória: “Nossos filhos aqui estudam./ Para que aceitarmos gente/ com quem não se deve casar?”. Isso traz à tona Michel Foucault, para quem “a submissão dos corpos pelo controle das ideias é bem mais eficaz que a anatomia ritual dos suplícios. O pensamento dos ideólogos não foi apenas uma teoria do indivíduo e da sociedade; desenvolveu-se como uma tecnologia dos poderes sutis, eficazes e econômicos”. 

Dirce Waltrick do Amarante é autora, entre outros, do livro 'A Biblioteca e a Formação do Leitor Infantojuvenil: Conversa com Pais e Professores (Editora Iluminuras) 

CANÇÃO DE  NINAR COM FUZIS. AUTOR: PÁDUA FERNANDES. EDITORA: URUTAU. 160 PÁGS.,R$ 45

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