Iluminuras
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Poeta e antropólogo recria página de um índio xavante

Sérgio Medeiros recebeu rabiscos de Jerônimo Tsawé e transforma esse presente no livro 'Trio Pagão'

Rosario Lázaro Igoa*, Especial para O Estado

11 Agosto 2018 | 16h00

Com Trio Pagão, o poeta sul-mato-grossense Sérgio Medeiros, 59 anos, acelera o ritmo de experimentação na sua obra. Mas tal aceleração, paradoxalmente, é mais uma poética da atenção, que aposta nas intertextualidades irreverentes (com a própria obra e a alheia), no trânsito de seres vivos entre reinos e nas paisagens não monolíticas. Longe de uma concepção essencialista e contemplativa da natureza, os três poemas extensos reunidos no livro põem em xeque o mais humano do humano, e, claro, a natureza em si.

A primeira parte do livro, Esculturas de Caligrafias, começa no limiar da palavra. Medeiros redescobre a folha de caderno com rabiscos que o índio xavante Jerônimo Tsawé lhe entregou nos anos 1980 e que já foi a capa do seu livro Figurantes (2011). Mas esses traços confusos logo se transformam em ocasião para a simbiose, a transmutação. Ou, como sugere o crítico argentino Gonzalo Aguilar no ensaio que antecede o poema, para a “possessão”. Possuída então por Tsawé, a escrita de Medeiros consegue, ao longo de vinte e três provas, um efeito esclarecedor. Aos nossos olhos, surge, no amontoamento de linhas (por vezes duplas), uma terceira escrita. Irrompe assim a impressão de que alguma coisa está sendo sugerida: só é preciso sucumbir ao acúmulo e à redistribuição. 

Há imagens que já estavam em outras obras de Medeiros e que também aqui comungam umas com as outras, “pagãmente”, no mesmo impulso. O segundo poema, intitulado Enrique Flor, O Novo, dá amostras disso. Vêm as flores, certos insetos, os veículos, que seguem expandindo seu potencial quando confrontados com mais deslocamentos geográficos. Vamos viajar e impregnar o universo, parece dizer-lhes o poeta. Em Figurantes, o cenário era a ilha de Florianópolis; em O Sexo Vegetal (2009), vários pontos do Brasil. Agora, em Enrique Flor, O Novo, trata-se de Dublin, atravessada por uma tragédia florestal portuguesa. O contraponto é um jovem Enrique Flor, na verdade uma criança carbonizada nos incêndios florestais de Portugal em 2017, episódio que confere uma urgência melancólica ao decorrer da celebração na Irlanda.

Sua potência é acentuada porque tudo isso acontece num único Bloomsday dublinense. Pululam as anotações joycianas ao lado de trechos de notícias, e condensa-se uma sinestesia geral: “Campainhas brancas, lilases, indecisas, todas voltadas para o chão; atrás delas, o som alto de galhos cheios, fartos; as copas fervilham”. Nesse percurso do olhar poético, às vezes importa mais o efeito que o ser vivo causa nas coisas inanimadas. Medeiros escreve: “As pombas esvoaçam lançando sombras nas paredes”. Ou seja, o resíduo da imagem (as “sombras”) é ironicamente tudo o que os seres vivos deixam na inalterabilidade do mundo que os cerca. E que os transcende.

A terceira parte do livro intitula-se Rio Perdido. É bastante notável o modo com que Medeiros dá conta da teimosia paciente, mas implacável, dos seres vivos. As criaturas têm um propósito claro, como aquele inseto (invisível sim, mas presente) que surge neste “descrito” (para usar um termo cunhado pelo próprio poeta): “Nada se move no jardim exceto uma das orelhas do cão adormecido e a mosca (invisível) que deseja pousar nela e não na outra”. Não menos importantes são os minuciosos dispositivos gráficos com que o poeta faz tais glosas. Precisas configurações na disposição de pontos, letras e signos conformam uma experimentação sem hermetismo, alimentada por apontamentos críticos que retroalimentam a obra.

A poesia de Medeiros está empenhada em contemplar a vontade das coisas, até dos minerais. Sempre parece haver algo mais nessa realidade de encontros, confrontos e fusões entre os reinos: “Rã escura/a folha seca aguarda/ como só respirando”. Caberia apontar aqui uma possível relação ibero-americana. Se na poesia da uruguaia Marosa de Giorgio os animais adquirem sugestivos traços humanos, com um pano de fundo sensual, católico e invadido pelo pecado, em Medeiros o deslocamento é pagão, sim, e em todas as direções, inspirado no animismo indígena brasileiro. Não há quem se salve desse seu olhar transmutador. Somos o século 21 e aqui está em jogo o humano, nada menos.

 

* Rosario Lázaro Igoa é tradutora e escritora uruguaia

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