Edilson Dantas/Agência O Globo
Edilson Dantas/Agência O Globo

Poeta Guilherme Gontijo Flores estreia no romance com 'História de Joia'

Livro usa linguagem cotidiana e cartas de Tarô para contar trajetória de personagem enigmática

Marcelo Tápia*, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2019 | 16h00

Do emaranhado das quebradas, das cruas batalhas diárias; das entranhas dos seres únicos e anônimos, de cada um que somos todos, nasce a história de uma tal Joia. Falsa ou verdadeira, não importa: o brilho pode vir de réplicas inesperadas; a ficção e a realidade há muito se imbricam num mundo cujos limites se transformam a cada momento, velozmente: na esteira do tempo, a criação literária pode propor-se a eternizar os lances fugazes, elos de uma cadeia infinita de instantes que, entrelaçados, nascem e desnascem, morrem e desmorrem, em ânsia frenética. 

A concisa História de Joia, de autoria do professor e prolífico tradutor Guilherme Gontijo Flores, vai, pelas características de sua composição, ao encontro da já longeva linhagem de obras que relativizam as fôrmas literárias, herança do século 20 que sustenta os desafios contemporâneos. A começar por sua capa, esta breve obra qualificada, desconstrutivamente, como romance – o livrinho passa por nós com agilidade e leveza – mostra-se uma densa trama de caminhos e coisas, um agitado mundo de traços e destinos sobrepostos. 

E aí, na ideia de destino, está algo a ser desvelado sobre o modo de contar a vida de uma moça que, acaso, é moradora de morro e sofre de dor nas costas: os capítulos do livro (cada um dos quais detém relativa autonomia, articulando-se no conjunto multifacetado de uma narrativa não linear) são intitulados com os nomes dos “arcanos maiores” do Tarô, correspondentes a vinte e duas cartas do tradicional baralho adivinhatório. 

Mas algo se insinua, oculto, a desafiar a atenção aos detalhes neste universo ligeiro, e possíveis interpretações (falsas ou verdadeiras, não importa) para alguns recursos perceptíveis: a carta A Força denomina o capítulo de abertura (cujo foco é uma manifestação popular e a morte de alguém por bala perdida), não enumerado; A Morte não aparece nos títulos; nenhum nome foi atribuído ao capítulo 6. Nessa parte, só número sem nome, focaliza-se a personagem – que poderia ser qualquer uma, mas é toda ela, só ela – em sua dor, desde a cama até a saída de casa, determinada a seguir adiante: “Tudo no avesso agora de jeito se entorta, nada ela pensa, revirar pode, na cama, só que pode não Pra trás não dá pra olhar, contorce então todo o corpo, inteira é que vira, de si um manequim, enquanto pelo lado das costas direto lhe vem fisgada em fisgada No jeito se encima, meticulosa, um ser só frente, sem verso, sem acesso qualquer ao avesso aponta o nariz, e o corpo rijo, à seta da porta e hesitante num passo à frente.” 

As linhas da teia construída a cada texto transcorrem como corrente ininterrupta, à maneira do “fluxo de consciência”, embora este só ocorra, propriamente, vez ou outra: predomina o narrador, indefinido ou múltiplo, que pode até produzir monólogos mentais que se mesclem com dados externos, agentes de sua percepção; um contar “de dentro” e “de fora”, como em O Imperador (no qual tem voz o dono da mercearia em que Joia entra para comprar pão): “dim-dom, entrou alguém ali, não vi, c*, e está por trás da prateleira; o que deseja?; falei baixo, dá pra ver que eu hesitei”. No capítulo O Diabo, revela-se a soberba do onisciente criador desse pequeno mundo que adentramos: “Vocês não sabem de nada. Deixem que eu conto, eu sei, eu posso. Vocês então escutam, perscrutam, leem, atentam ao que se diz, ou seja, calam. Eu digo que é Joia, e vocês acreditam; naquele vai não vai aponta a testa pra cima, cisma que é ver a lua, quer ver a lua?” O mutante narrador pode refletir Ela ou Ele, na “meditação” de O Eremita: “Ela que logo sou se ensaboa, passa a mão por toda a parte, pega o sabão de coco e encara seu branco estalado na pele, em contraste claro de modos. Ele que logo sou consome o tempo que não tem partes secas, revira-se com cuidado até que remira no rabo do olho o fio do espelho.”

A mesma Joia que compra seu pão, à noite, no morro, e é vítima de julgamentos preconcebidos (“Oi seu Valentim, não é nada não, só tou olhando o pão aqui, boa noite, só tou olhando com a cabeça nas nuvens, esse aqui parece bom; vagabunda do c*”), é quem, em A Papisa, discorre sobre a morte durante o café da manhã: “Sempre retorno e o café sempre demora e chega sempre frio como a morte, sem metáfora, assim comparativo frio como a morte, claro, porque não é a morte, portanto, não será jamais frio como a morte, que espero eu também como espero esse café num bistrô qualquer como este aqui, num início de manhã fria ou quente como esta agora, numa esquina baldia da vida, essa sim, que nunca se compara à morte”. A mesma que reflete a partir de referências “eruditas”: “Lá vem o croque-monsieur, finalmente, uma era, uma espera beckettiana pra ter um simples café da manhã com dignidade você me traz um pouco de leite? Como é que eu esqueci o leite? Pronto, lá se vão mais quinze minutos de inferno moratório, nem o sentido em Derrida teima tanto em diferir.”

Os mais diversos modos de dizer se entretecem em Joia. Da descrição prosaica, por dentro da passagem vivida (“Pou, cada um corre prum lado, emaranham-se braços e pés, trombados uns tantos tombam por chão”), ao fraseado poético (“embora lance o segundo suspiro fino, um alento que escorre lento por entre os dentes”) transitam recursos da oralidade e da escrita, a serviço do engendramento ficcional. Chama a atenção, por exemplo, a dialética estabelecida entre A Lua e O Sol, capítulos em que a memória da vida de criança se dá em linguagem infantil, capaz de contrapor, complementarmente, adjetivações do mesmo, como num espelho de contrastes: “O Sol ali de banda é tão lindinho e fofinho, amarelão que só, amarelão de fogo, papai disse, amarelão lindinho”(A Lua); “O Sol ali de banda é tão fofucho, tão linducho, amarelinho que só, amarelinho lindo de fogo, papai disse, amarelinho bem lindão” (O Sol); “tchau sonzeira, o moço nem aí, lá vem o sacolejo, perna do papai, parou, tchau buzanfa, olha o sol no alto” (A Lua); “tchau sonzeira, o moço nem aí, lá vem o sacolejo, acho que vai escapulir, largo a perna do papai que eu me viro, parou, que apertado, tchau buzanfa, olha o sol virou breu” (O Sol).

Jogo rápido, lance de dados do acaso bem (des)marcado em cartas de Tarô: assim a pequena Joia cintila ao leitor, embora feita de materiais pouco nobres: “inda faltava o metrô olha o busão acena acena acena vai parar será que vai parar já passou.”

*MARCELO TÁPIA É POETA E ENSAÍSTA, DOUTOR EM TEORIA LITERÁRIA E LITERATURA COMPARADA PELA USP

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