Marcos Arcoverde/Estadão
Marcos Arcoverde/Estadão

Poeta se inspira no incêndio do Museu Nacional em novo livro

Das cinzas deixadas pela tragédia surge 'Museu da Noite', de Fernando Monteiro

José Castello*, Especial para o Estado

13 de abril de 2019 | 16h00

Enquanto, na noite de 2 de setembro de 2018, o fogo devorava, com fúria, a sede do Museu Nacional do Rio de Janeiro, em São Cristovão, do outro lado do país, impotente, o poeta e ficcionista pernambucano Fernando Monteiro, agarrado a um caderno, perseguia palavras que dessem conta da tragédia. O resultado dessa luta desigual – pois as palavras costumam se esfarelar diante da realidade - é o poema Museu da Noite, publicado pela Confraria do Vento, do Rio de Janeiro. A ideia do vento, com suas línguas de cólera e sua força intempestiva, guia, por coincidência, os versos de Monteiro. “E devemos nos levantar/ tal como os ventos se levantam/ de algum lugar atrás dos ossos/ da noite brusca”, grita o poeta, esboçando uma reação que, na verdade, é inútil. Em poucas horas, chamas furiosas consumiram a mais antiga instituição científica do país, instalada em um prédio suntuoso que, no passado, serviu de residência para a família real brasileira. Não só a ciência, mas a história, foram derrotadas pela tragédia. Os doloridos versos de Monteiro ficam como uma nódoa – não mais que um sutil, embora veemente, vestígio da grandeza extinta.

“Porque ficamos do lado das pedras,/ porque permanecemos no silêncio/ de cinzas”, assim o poeta constata sua derrota. A ira do fogo consumiu também as palavras, que agora lhe saem abrasadas pelo assombro e corroídas pela raiva. Ficam os poetas do lado das cinzas – dos restos, sendo a poesia só uma tentativa falsa de restaurar o que não retornará mais. Ficam do lado do nada, daquilo que “nunca teremos de volta”. É disso que não volta, nunca mais, mas ainda assim permanece na memória, que a poesia trata. “Foram também pelo ralo/ nesse fogaréu de louças/ brasonadas os utensílios dos Braganças/ e os Caetés”. Objetos, sedas, jóias, relíquias, tudo dissolvido em cinzas. Ao poeta resta a insônia. “Eu não pude dormir nesta,/ (...)/ eu não preguei o olho/ na sopa fervente do vermelho”. O incêndio o queimou também.

Sugerem os versos de Fernando Monteiro, porém, que, apesar do horror, não podemos desistir do coração das coisas. “Sem temer,/ devemos nos acercar do picadeiro/ no centro do sinistro do qual somos/ os mesmos figurantes de sempre”. Nesse papel funesto de acessórios, sombras decorativas, e mesmo sem ter como enfrentar a tragédia, não é justo fugir – e aqui a poesia surge, mais uma vez, para nos amparar. Não importa se estamos diante do nada. Não importa também se fomos, como sempre, relegados à margem. Ainda assim, ele nos diz, devemos encarar o vazio. “Deles não resta mais nada,/ neste setembro quente/ como o Hades mais denso”. É isso o que agora, também a nós, seus leitores, cabe suportar: o modo como a história, em um jato de fogo, foi consumida. O modo torpe como, de uma hora para outra, tudo pode desaparecer. Indica Monteiro que a poesia nos empurra para o vazio, que ela nos defronta com o insuportável – e é disso que se trata, ter coragem, defrontar o nada, e não embelezar, ou abrilhantar o real. A poesia como um instrumento de conquista para corajosos. Daí os versos duros, ferozes, que o poeta nos oferece. Não é uma escolha: é um destino.

Em uma sociedade na qual a cultura é, cada vez mais, empurrada para as margens e equiparada ao inútil, senão ao perigoso, o velho museu sobrevivia a duras penas. Pensando na camada de pó e de desinteresse que o envolvia, o poeta constata: “Não há mais como saber,/ nem importa mais para nada/ e nunca foi de muita relevância/ entre memórias apagadas”. O descaso – apesar da luta fiel de seus protetores – prenunciava o fogo. A verdade é que “só na hora do assassinato, das ‘coisas findas’” nos damos conta do que perdemos. As obras e peças perdidas agora não passam de “um eco seco/ da história que imaginamos/ para nós mesmos”. Não foi só o museu se incinerou, mas também a imaginação que o ergueu.

Nada importa, nenhuma falação, quando estamos à beira do abismo. A obra, “carbonizada pela indiferença”, nos cala a todos, e assim fica também o poeta, embaraçado em seus versos, diante de um “Cosmos em crise/ pela desordem das estrelas”. Tudo o que tem diante de si, seu parco material de trabalho, é a febre. “Uma febre de tormenta/ a faiscar de labaredas/ nas paredes de Senhores/ cuja herança contava a história/ da raça”. Entre o fogo e a fumaça o cenário se cerra. Também o poema de Monteiro é um poema fechado, sobrecarregado de metáforas – tão fechado quanto o fogo. E o que ficou? “Somos filhos da história/ mil vezes contada – mal -/ a respeito de Cabral”. Entre as cinzas, nosso passado se torna ainda mais nebuloso e mais irreconhecível. Contra esse desconhecimento, o antigo museu resistia. Mas e agora? Perplexo, o poeta se pergunta: “Do que trata este poema,/ debaixo do som de chuva/ na água que se perde/ contra as portas do Demo?” Na obscuridade profunda, nem o poeta sabe mais o que escreve. Até porque as palavras chegam sempre atrasadas. “Sempre tudo/ é tão tarde que fica para trás”. 

Escreve “no meio do lixo da catástrofe”, tentam juntar peças reduzidas a pó, mas abatido, diante da banalidade que a morte ostenta. Afoga-se “no meio de palavras/ para descrever o Museu ardendo/ em frente do lado de cisnes/ importados”. Em seu ofício, o poeta luta para manter a esperança diante daquilo que não se pode esperar mais. “E escrever ainda supondo que haja/ motivo entre escombros”. Enquanto isso, tudo o que lhe resta é “a palavra desabada sob a tampa/ de ferro de um piano de chumbo”. Constata, então, que, em sua luta para transpor o desastre, é lançado em uma noite que nunca termina. “Quando começou essa morte?/ Quando terminará?”, ele se pergunta, deixando um nó – e um grito - na garganta dos que ficaram.

*JOSÉ CASTELLO É JORNALISTA E ESCRITORA, AUTORA DE ‘O ÚLTIMO 

TIRO DA GUANABARA’ (REFORMATÓRIO

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