7 Letras
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Poeta sul-coreano Kim Ki-taek é traduzido pela primeira vez no Brasil

'Chiclete' reúne poemas que versam sobre a vida urbana e trata com lirismo questões cotidianas

Donny Correia*, Especial para o Estado

23 de fevereiro de 2019 | 16h00

A Coreia do Sul tem dado suficientes provas de sua relevância não só nos cenários tecnológico, político e econômico orientais, buscando mediações com seu vizinho problemático, mas também no contexto da cultura e do pensamento ocidental. Byung-chul Han, filósofo radicado na Alemanha, debruçou-se sobre os estertores da vontade de potência mundial em tempos de superexposição digital. Ainda, daquele país, surgem os mais renomados cyber atletas de games e o cinema permanece notável desde o revolucionário Old Boy (2003), ao belo e indigesto Pietá (2012). Com a literatura, não haveria de ser diferente, nem menos pungente, porque tem revelado uma criação poética que já não se preocupa somente com a contemplação de uma natureza sublime, pacificadora do espírito. Veremos que é exatamente o contrário.

Kim Ki-taek, hoje com 62 anos, na década passada deixou seu cômodo emprego para se dedicar inteiramente à poesia. Publicando desde 1989, tornou-se um premiado autor. Sua obra mais importante, Chiclete (2009), chega agora às mãos do leitor brasileiro, traduzida pela também poeta Yun Jung Im, que bem transpõe para nossa língua a miríade de sentidos, imagens e reflexões presente no original. Como bem observa Nelson Ascher, autor do prefácio da edição, a poesia de Kim poderia versar sobre qualquer grande metrópole escolhida ao acaso, já que a crueza, as imagens cortantes e o vazio intimista, tônicas de sua estética, são cada vez mais reconhecidas pelo seu poder de inclusão num mundo global. Trata-se de uma poesia que abole as fronteiras linguísticas e culturais, colocando no mesmo plano os limites estreitos entre vivência e efemeridade.

Valendo-se de um recurso prosaico, de livre expressão, em que o embate entre fanopeia e logopeia dá ao conjunto a marca maior de uma poesia moderna e mundana, Kim Ki-taek busca no mais comezinho da vida sua reflexão a respeito de um mundo que pode respirar por si só e está alheio a maiores vontades do capricho. Por isso, impressiona a vivacidade de certos momentos cotidianos e a crueldade que irrompe deles. Seu poema Panceta de Porco bem explora tal condição: “Volto para casa após uma churrascada de bacon fresco e bebida. / Já há uma hora / O cheiro da carne não sai do corpo. / Sangue cozido no fogo, carne tornada fumaça / Impregnam todos os meus poros, minhas rugas e sulcos das digitais”. A partir daí o eu lírico se fundirá ao cadáver suíno degustado com alegria, que se torna um fardo onipresente horas depois, como se ambos os animais, homem e porco, dividissem a mesma sina, que nada tem a ver com a hierarquia da cadeia alimentar, mas com o inexorável fenecimento.

Algo semelhante aparecerá reiteradas vezes ao longo do volume. “Nunca experimentara a morte antes e nem sabia como se comportar quando se morria. Assim, a morte se contorcia sobre o prato ainda mais vigorosamente do que quando estava viva”, diz o poema Comendo Minipolvo Vivo, ao narrar o ato de se degustar a iguaria coreana, que deve ter os pequenos tentáculos arrancados e comidos enquanto ainda se mexem.

Se a alimentação pode ser um fardo para corpo, mais do que um combustível, a natureza em torno de nosso curral não é menos piedosa. O primeiro verso de Neve Derretendo, lembra um perfeito haicai em honra da paisagística oriental: “A neve derretendo se esgarça como farrapo”. Em seguida, Kim rompe o lirismo diante da visão alva, somente para empreender nova autópsia no corpo vivo do observador apequenado. “Trinca e racha como eczema sobre a pele / Descamado como tinta velha que levanta”. Há, ainda, espaço para um comentário a respeito das distâncias entre massas demográficas de uma Seul desigual na sequência do poema: “A pele nua e fria da favela deixa-se ver no topo do morro / Casas de teto costurado com lona / Paredes que se erguem sobre carvão queimado, lixo e merda de cachorro”. Nas escatologias dos versos, lemos a miséria pessoal e social assistida pelos dias que solapam à revelia.

O pavor dos anos que parecem galopar com a idade para um abismo está representado nesta teia de perturbações como nos versos iniciais de Velho Subindo a Escada. Dizem, “Enquanto subo dez degraus / Atrás dos meus dez leves degraus, transpõe, junto com uma respiração velha e arquejante / Mais um degrau. / O velho parece perguntar para a articulação do joelho, para o coração, se está tudo bem”. Ao dar personalidade própria aos órgãos e partes de seu corpo, o poeta elimina a possibilidade de se ser dono do próprio corpo, ao menos. Outros poemas reforçam a existência absurda já em seus títulos, tais como Sorrindo Dentro de uma Foto Antiga, Não Posso Receber Correspondências Pois Já Morri ou Crematório.

O poema que dá título ao livro é a metáfora maior do que está por trás do pensamento de Kim Ki-taek. A imagem da goma, incapaz de perecer por longos anos após esgotada sua utilidade imediata, alinha-se com a impotência de corpos provectos, mais frágeis que o sabor de frutas ou que as essências do aroma do doce. “Um chiclete jogado já mascado por alguém. / Chiclete onde restam marcas claras de dentes. / Chiclete encerrado em tantas marcas de dentes, / Inumeradamente socadas de novo e de novo / largado a contragosto / Pelos dentes a se cansarem primeiro / Ao fim de tanto espremer, macerar, dilacerar”.

Reconhece-se na pesquisa do autor um estudo metódico da tradição histórica do verso e das várias combinações paradigmáticas possíveis na criação poética. Por essa razão, nos parece tão familiar as presenças da fluidez de Walt Whitman e da intolerância rigorosa de Augusto dos Anjos. Kim Ki-taek faz ver que o simbolismo ainda é o recurso mais penetrante da linguagem poética, não importando a forma estética de seus versos – mais ou menos longos, mais ou menos declamativos – senão a potência que carregam ao exprimir a beleza e a perfeição do fim irremediável, algo palpável apenas graças ao ofício da arte.

*DONNY CORREIA É CRÍTICO E POETA, DOUTOR EM ESTÉTICA E HISTÓRIA DA ARTE PELA USP

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