Paulo Liebert/Estadão
Paulo Liebert/Estadão

Especialistas em mais de uma área correm risco de extinção, alerta historiador Peter Burke

No livro 'O Polímata: uma História Cultural de Leonardo da Vinci a Susan Sontag', o historiador inglês explora a capacidade de alguns intelectuais de se dedicar a diversos saberes

Rodrigo Petronio*, Especial para o Estado

13 de fevereiro de 2021 | 16h00

O inglês Peter Burke, 84 anos, é um dos mais renomados historiadores culturais da atualidade. Foi professor nas cadeiras de História da Europa e de História das Ideias, posteriormente denominada História Intelectual, na School of European Studies da Universidade de Sussex (1962). Foi pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Princeton em 1967. Atualmente é professor de História Cultural na Universidade de Cambridge. 

Casado com a historiadora brasileira Maria Lucia Pallares-Burke, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), Burke mantém há décadas uma constante relação com o Brasil, tendo sido professor-visitante do Instituto de Estudos Avançados da Universidade da mesma universidade entre 1994 e 1995. Seus principais objetos de estudo são Renascimento, cultura popular, Idade Moderna, historiografia, história do cotidiano, micro-história, história cultural, história das mentalidades, teoria social, polimatia, dentre outros. 

E é esta última especialidade que Burke explora em O Polímata: uma História Cultural de Leonardo da Vinci a Susan Sontag, livro que a editora Unesp acaba de publicar, em excelente tradução de Renato Prelorentzou. O polímata é um tipo social que se dedica a diversas ciências, artes ou saberes. Trata-se de um dos mais exaustivos mapeamentos dos homens e mulheres que exerceram a polimatia no Ocidente. Uma obra que nasceu clássica. Para tratar deste livro, ele concedeu esta entrevista por e-mail com exclusividade para o Estadão

O polímata não é nem polígrafo (aquele que escreve muito), nem o poliglota (que sabe muitas línguas) e nem o erudito (aquele que sabe muito), mas aquele que se dedica a diversos (poli) saberes/ciências (mathē). O senhor teve dificuldade para discernir estes limites? 

Sim, o problema não é a mathē, mas o poli, porque quanto mais o conhecimento aumenta, mais difícil se torna acompanhá-lo. Aristóteles parece ter dominado não muitas, mas todas as disciplinas de seu tempo e lugar. Hoje é notável quando alguém domina três. Então, no livro, tive que diminuir o nível da barra [imagem de uma fixação de alturas, usada no livro] que os mesmos estudiosos sobre os quais eu estava escrevendo tiveram que pular!

Quando observamos a produção intelectual dos séculos 16 e 17, vemos que a polimatia era quase uma cultura comum, mesmo para aqueles que foram esquecidos ou não se destacaram individualmente como polímatas. O mesmo ocorre na Idade Média e na Antiguidade. A cultura da especialização do século 20 seria a exceção e não a regra? 

Sim, mas a especialização tem uma história mais longa. Começou a se tornar perceptível no século 18, pelo menos na medicina (o polímata Diderot escreveu sobre isso). Tornou-se ainda mais nítida no século 19, como um dos efeitos da divisão de trabalho, que tanto impressionou Marx. E, por fim, a especialização ficou óbvia e conseguiu se aprofundar ainda mais no século 20.

Seguindo a mesma linha, de Aristóteles, Leonardo, Descartes e Kant a Newton, Darwin, Freud, Marx e Nietzsche, é impressionante a centralidade dos polímatas na história da ciência. Podemos afirmar que os polímatas preservados são poucos, mas a cultura polimática sempre foi a regra e não a exceção? 

Sempre houve pelo menos alguns polímatas, mas eles foram se tornando cada vez mais raros. E temo que a espécie agora esteja em perigo ou mesmo correndo o risco de extinção, embora tenha muita esperança de estar errado.

O termo "gênio" vem de Aristóteles, mas se fixou no Romantismo e possui diversos problemas, pois é muito individualista e essencializador. O polímata, ao contrário, é fruto de uma cultura, como o senhor enfatiza. Podemos substituir "gênio" por "polímata"? Quais as diferenças e semelhanças entre essas duas categorias?

De acordo com alguns, todo polímata é um gênio (embora nem todo gênio seja polímata). Os editores da tradução alemã do meu livro substituíram “polímata” – não soa bem em alemão, dizem eles – por “gênio”. Mas concordo com você sobre os problemas decorrentes do termo “gênio”.

Outro aspecto importante de seu excelente livro é o destaque dado às polímatas mulheres. O senhor gostaria de destacar algumas especificidades da polimatia feminina? 

Pelo que posso observar, as mulheres polímatas não pensam de maneira diferente dos homens. A história social das mulheres que é diferente, e não a sua história intelectual. Até o final do século 19, elas não estudavam em universidades. As exceções eram poucas, como Anna Maria van Schuurman na Utrecht do século 17. Eram, portanto, mais ou menos autodidatas e muito poucas em quantidade. Havia mais polímatas mulheres no século 18, quando o ideal das gens de lettres substituiu o do acadêmico. Mudou ainda mais depois de 1850, quando elas puderam frequentar as universidades. E mais ainda depois de 1950, época em que, embora difícil, era possível se tornarem professoras universitárias. Quando visitei a USP pela primeira vez, em 1986, percebi rapidamente que havia muito mais professoras do que em Cambridge. Logo soube de uma das razões para isso: o trabalho doméstico e a limpeza eram feitos por “empregadas”!

Em que medida o conceito de ciência que temos hoje atrapalha nossa compreensão do que seria a conexão de ciências de séculos passados? Como evitar que investiguemos o passado à luz do que hoje chamamos de ciência?

Você chamou a atenção para um dos grandes problemas da escrita e do pensamento históricos, problema que não se restringe apenas à história da ciência. Mesmo sendo historiadores, não podemos deixar de ver o passado com os olhos do presente. Entretanto, podemos nos tornar conscientes disso. E estudar como as pessoas no passado se viam a si mesmas. Desta forma, é possível escrever uma história “polifônica”, incorporando uma multiplicidade de pontos de vista, como ocorre em alguns dos melhores romances (por exemplo, em Tolstói).

O senhor poderia falar um pouco mais sobre essa “história polifônica” e sua relação com a literatura? 

A literatura, e os romances em particular, têm sido uma inspiração para os historiadores desde o tempo de Sir Walter Scott. À medida que os romancistas são livres para inventar, essa inspiração pode retroagir ainda mais. Entretanto, algumas dessas invenções podem ser adaptadas por historiadores que não escrevem nenhuma sentença sem se basear em evidências. Dentre estas invenções, a mais importante, a meu ver, é apresentar uma narrativa por meio de múltiplas perspectivas: vencedores e perdedores, elites e pessoas comuns, colonizadores e colonizados, etc. Em especial Tolstói foi um mestre dessa técnica, tanto em Anna Karenina quanto em Guerra e Paz. Além de enxergar a guerra pelos olhos de generais e soldados comuns, franceses e russos, ele dominou uma técnica que viria a se tornar proeminente no cinema: a alternância entre “planos gerais” e “close-ups” ou, em termos de historiador, entre a “macro-história”, apresentando as principais tendências de uma época, e a “micro-história”, com foco nas vidas individuais. Usando uma metáfora visual, isso é “perspectivismo”. Usando uma metáfora auditiva, é polifonia, uma forma que confere expressão a diferentes vozes do passado (a chamada história oral tem não apenas incentivado esta prática, mas trazido à tona a consciência de que esta é uma abordagem possível).

O senhor aborda algumas fases da polimatia. O "homem universal" do século XVI, os "monstros da erudição" do século XVII, os homens e mulheres de letras do século XVIII, os naturalistas do século XIX e a ascensão das especializações e das universidades no século XX. Em uma passagem, o senhor sugere uma abordagem por "comunidades imaginadas" (Benedict Anderson), ou seja, por "afinidades eletivas" (Goethe) entre polímatas de tempos e espaços distintos. O senhor acha possível escrever uma história da polimatia assim?

Acho que o conceito de "comunidades imaginadas" é útil para analisar a história dos estudiosos, a República Europeia das Letras, por exemplo, e não apenas os polímatas. Acho também que às vezes é esclarecedor pensar sobre afinidades eletivas entre polímatas individuais. Mas não vejo com clareza como alguém possa escrever uma história da polimatia organizando-a em torno desse conceito, em oposição à biografia de um polímata.

A história da polimatia é pontuada em seu livro por três crises do conhecimento: a primeira no século XVII (impacto da imprensa), a segunda no século XIX (impacto da ciência) e a terceira nos dias de hoje (impacto da internet). Todas paradoxalmente ligadas ao excesso de informação. A polimatia pode ser uma saída para a atual crise do conhecimento, dividido entre o excesso de informação e o excesso de especialização? 

Creio que sim! Mas só se houver uma reforma da educação, tanto nas escolas quanto nas universidades. E isso pode não ser suficiente, já que o mundo atual está todo organizado em torno da exigência de especialistas.

Os projetos inter e transdisciplinares podem ser um caminho para esta “reforma da educação”? Se sim, quais as sugestões e quais os cuidados o senhor destacaria? 

Sim, especialmente no nível universitário. As escolas já são “multidisciplinares”. O problema é que os alunos aprendem diferentes disciplinas por meio de diferentes professores, e o sentido da conexão entre elas se perde. O mesmo vale para muitas universidades americanas, que operam o “sistema de cafeteria”. Neste, os alunos podem escolher um curso de química, outro de história da arte, etc. O perigo do conhecimento superficial nesse caso é grande. A melhor solução para o problema da conexão entre as disciplinas foi apresentada pela Universidade de Sussex. Ela foi fundada em 1961 justamente em reação à especialização da educação. Mas o fez a partir de um plano para explicitar as conexões e evitar a superficialidade. Em Sussex, onde lecionei de 1962 a 1978, os alunos passavam metade do tempo letivo em sua matéria “principal”, e a outra metade em disciplinas vizinhas. Se fossem graduados em história, eles poderiam se inscrever em várias das chamadas Escolas de Estudos que se dividiam em Inglês & Americano, Europeu, Social, Africano & Asiático. Em cada uma delas, as disciplinas vizinhas eram diferentes: antropologia e economia do desenvolvimento africanos e asiáticos, literatura europeia e filosofia da Europa, etc. O ensino incluía seminários conjuntos organizados por professores de duas disciplinas diferentes (aprendi muito ao lado de colegas de literatura, sociologia, etc., e acho que os alunos também conseguiram fazer as conexões). O resultado: uma polimatia limitada e também uma boa preparação para as futuras carreiras dos alunos.

O senhor estabeleceu algumas tipologias de polimatia a partir de dualidades: ativo/passivo, circunscrito/geral, seriais/simultâneos, centrífugos/centrípetos. Essas dualidades muitas vezes estão enraizadas em questões psíquicas, coletivas e individuais. Ao longo do seu livro esses traços psíquicos são marcados, especialmente no capítulo "Um retrato de grupo". Qual a dificuldade para um historiador cultural de compreender essas motivações subjetivas? 

Quando falamos sobre motivos, ou, como Freud diria, “impulsos”, somos forçados a especular, como Freud fez – e não há mal nenhum nisso, desde que saibamos o que estamos fazendo e deixemos nossos leitores saberem também. De modo diferente, as tipologias se baseiam naquilo que tornou os indivíduos em questão conhecidos e naquilo que eles alcançaram. 

Nesse caso, quais as diferenças entre tipologia e psicologia?

Criar uma tipologia é um empreendimento modesto. É um ato simples de classificar e distinguir variedades dentro de um grupo de pessoas (ou animais, plantas, rochas, etc.). A psicologia (dos humanos, não dos ratos brancos estudados por psicólogos experimentais) é mais ambiciosa. Ela pretende explicar o comportamento visível por meio do que não pode ser visto. Não é de admirar, portanto, que haja debates tão ferozes entre diferentes escolas de pensamento – a freudiana, a comportamentalista, a existencial, etc.

No mundo da informação, vivemos uma crescente e perigosa onda de desinformação, negacionismo e obscurantismo. E a ciência, por conta da especialização, acabou se isolando do cotidiano das pessoas. Entretanto, é impossível produzir conhecimento em um mundo complexo como o nosso sem especialização. O senhor concorda com esse diagnóstico? Se sim, a polimatia pode vir a ser uma solução para esse problema?

Os polímatas podem ajudar a diminuir o problema, não a resolvê-lo. O mesmo pode-se dizer dos mediadores como divulgadores de ciência (em livros, por Dawkins, por exemplo, na TV, etc.), algo que se tornou uma profissão própria – outro caso de especialização. A desinformação e a má-informação são problemas diferentes que requerem soluções diferentes. É urgente reformar a educação, inclusive a das crianças, enfatizando o senso crítico. Assim, quando alguém receber uma mensagem, vai se perguntar: “Quem a está enviando para mim? E qual é o propósito desse alguém ao fazer isso?”. 

No final do seu livro, o senhor aborda a interdisciplinaridade. Quais as convergências e divergências entre interdisciplinaridade e polimatia? Uma síntese de ambas poderia fornecer este novo “senso crítico”?

Simplificando, a interdisciplinaridade significa focar em problemas específicos (alguns deles foram ignorados porque caíram em lacunas entre as disciplinas) usando as abordagens de diferentes disciplinas. Isso pode ser feito por indivíduos (o polímata Herbert Simon disse que a melhor forma de interdisciplinaridade ocorria dentro da cabeça dos estudiosos) ou por equipes, apoiadas por instituições particulares como o ZiF (Zentrum für Interdisziplinäre Forschung) [Centro de Pesquisas Interdisciplinares, em alemão] da Universidade de Bielefeld, onde o grande historiador alemão Reinhart Koselleck foi professor.

A especialização excessiva é um claro problema debatido dentro das universidades hoje. Diferente do Brasil, no mundo anglo-saxão o divulgador científico é muito prestigiado e comum nas universidades. Qual a diferença entre o polímata e o divulgador de ciência? 

Os divulgadores precisam ver o “quadro geral” e comunicá-lo com clareza, evitando a linguagem técnica ou jargão de especialistas. Mas é possível popularizar a astronomia, por exemplo, depois de tê-la estudado, sem a necessidade de estudar também muitas outras disciplinas.

Tendo em vista sua obra e sua trajetória, eu diria que o senhor é um polímata. O senhor concorda com essa afirmação?

Em um sentido mitigado do termo, sim. Fui formado como historiador, mas aprendi sozinho sociologia e antropologia, crítica literária e um pouco de filosofia e de linguística. Suponho que isso me torne um polímata passivo e também limitado. Fora das ciências humanas e sociais, no entanto, sou terrivelmente ignorante. Tive que decidir entre me manter atualizado dos novos desenvolvimentos das disciplinas que são úteis para o meu trabalho como historiador ou entrar em novos campos. E então escolhi a primeira opção.

Como aspirante a polímata, teria milhares de outras perguntas a fazer. Quais as sugestões que o senhor daria a um polímata hoje? Como conciliar estudo, disciplina e escrita com a vida e as demandas cotidianas do século XXI? 

Tenho que advertir a qualquer um que planeje ser um polímata: para estender seus interesses gradualmente de uma disciplina a outra, como fiz, você não precisa apenas de uma overdose de curiosidade, você precisa estar preparado para dormir pouco e, sobretudo, para se tornar um “workaholic”! Não acho que a polimatia seja conciliável com uma vida “normal”. Envolve uma espécie de ascetismo, semelhante ao ascetismo de monges e atletas. Mas tem suas recompensas!

O filosofo alemão Peter Sloterdijk faz exatamente a mesma observação: não é possível fazer filosofia sem algum grau de ascetismo. O senhor o menciona no livro. Poderia falar um pouco sobre alguns polímatas contemporâneos?

Sloterdijk é certamente um polímata contemporâneo. E alguém que, como Žižek (e o falecido George Steiner aqui em Cambridge), às vezes é rejeitado como charlatão. Outros polímatas de nosso tempo não sofreram essas críticas. Jared Diamond, por exemplo, é o que chamo de polímata “serial”. Começou sua carreira como professor de fisiologia, passou para a ornitologia, que estudou na Nova Guiné, o que despertou ou incentivou seu interesse pela linguística e pela antropologia, levando-o a mudar de carreira para geógrafo e historiador comparativo. O polímata contemporâneo que mais admiro – meu herói intelectual – é o falecido Umberto Eco. Iniciou sua carreira com uma dissertação sobre a estética de Tomás de Aquino. Passou então ao estudo da arte e da música contemporâneas. Desenvolveu uma teoria da comunicação e expressou suas teorias em romances. Escreveu colunas regulares para jornais e revistas italianos sobre uma tremenda variedade de assuntos. Sempre lúcido, bem informado, sensato e espirituoso!

*Rodrigo Petronio é escritor e filósofo. Doutor em Literatura Comparada (UERJ), professor titular da FAAP e pesquisador associado ao Programa de Pós-Graduação em Tecnologias da Inteligência e Design Digital (TIDD|PUC-SP), onde desenvolveu um Pós-Doutorado

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