Stefan Müller/Kewenig, Berlin
Stefan Müller/Kewenig, Berlin

Polo cultural europeu, Berlim busca seu nicho no mundo da arte

Com 20 mil artistas, cidade mantém a reputação de ser a capital mais criativa da arte europeia

Scott Reyburn, The New York Times

04 de maio de 2019 | 16h00

Os buracos de bala da 2ª Guerra foram tapados e as lendáraias áreas de reves dos anos 1990 foram reurbanizadas. Os aluguéis estão subindo e apartamentos de luxo ocupam quadras e mais quadras. Startups de tecnologia florescem. 

Berlim não é mais a cidade “pobre, mas sexy”, como definiu um prefeito em 2003. E, com sua população de 20 mil artistas profissionais, incluindo estrelas internacionais como Ai Weiwei, Olafur Eliasson e Sean Scully, a cidade mantém a reputação de ser a capital criativa da arte europeia. Como essa reputação convive com a conturbada realidade de hoje?

Na semana passada, 45 concessionárias de arte participaram da 15ª edição da Gallery Weekend Berlin, uma descontraída feira que mostra a colecionadores e curadores algumas das mais recentes manifestações artísticas da cidade. E, igualmente importante, proporciona às galerias a oportunidade de fazerem algumas vendas. 

“Berlim é uma cidade ‘über-cool’. Sua estrutura econôm ica permite que marchands desfrutem de grandes espaços”, disse Danny Goldberg, um colecionador de Sydney, Austrália. Goldberg estava apreciando novas telas do pintor baseado em Leipzig Matthias Weischer e um vídeo e esculturas da artista francesa Camille Henrot na König Galerie, uma antiga igreja de arquitetura brutalista localizada do disrito Kreuzeberg, uma parte menos gentrificada da cidade. 

Goldberg, que visitou regularmente a Gallery Weekend Berlin nos últimos cinco anos, disse, como muitos outros colecionadores, que prefere ver e discutir arte em galerias e em ateliês de artistas do que “visitar” feiras de arte pela internet. 

“Sou viciado em feiras de arte”, disse Goldberg, prometendo, no entanto, abanonar o hábito de comparecer anualmente a meia dúzia desses eventos. “É apenas mais do mesmo”, explicou. 

Enquanto o “cansaço de feiras” vem se tornando uma queixa comum entre colecionadores, as principais galerias de Berlim valorizam eventos como Art Basel, FIAC e Frieze com o meio de manter contacto com uma clientela global. Ao contrário de Nova York, Londres e Paris, Berlim não é sede de nenhuma grande feira ou leilão de arte internacional. 

“Não existe a estrutura social ou a mentalidade para se manter aqui um núcleo de colecionadores”, disse Barbara Huttrop, diretora da galeria berlinense Kewenig, que expõe nas feiras da Art Basel na Suíça, Miami e Hong Kong. “Não temos escala industrial”, acrescentou Huttrop, cuja galeria, que funciona numa casa histórica, ainda não conseguiu conquistar colecionadores do setor de tecnologia de Berlim. 

The Palace of the Perfect, da Kewenig, uma apresentação de 13 obras do espólio do artista conceitual americano James Lee Byars, foi considerado por muitos o ponto alto do fim de semana. O minimalismo mágico de Byars estava talvez mais poderosamen te representado por The Spinning Oracle of Delfi, um trabalho de 1986 que consiste numa enorme ânfora dourada, exibida na entrada da galeria pintada de vermelho. A obra está avaliada em US$ 5 milhões.   

“Para nós, foi o fim de semana mais importante”, disse Huttrop, que tinha esperanças de receber pelo menos 20 dos melhores clientes internacionais da galeria. 

Será  que eles apareceram? Grandes colecionadores como Patrizia Sandretto Re Rebaudengo, de Turim, Itália; Anita Zabludowicz, de Londres; e Uli Sigg, da Suíça; estavam com certeza em Berlim. Mas veteranos da Gallery Weekend notaram uma escassez geral de visitantes estrangeiros. Falas de americanos foram raramente ouvidas. 

“Nunca vi tão poucos compradores internacionais”, disse Maganus Resch, fundador do Magnus, um aplicativo voltado para artes ligado ao aplicativo Shazam. Resch tem sua base em Nova York, mas possui um apartamento em Berlim. 

O calendário mundial da arte está saturado de eventos, particularmente porque 2019 é um ano da Biennale de Veneza, que atrai legiões de colecionadores internacionais esperançosos de descobrir os próximos grandes nomes antes que o mercado o faça.   

Na Gallery Weekend viu-se pouco em matéria de performances, instalações ou arte digital. O predomínio de foi de pinturas e esculturas de artistas alemães.

Até a tarde de sábado, pelo menos meia dúzia das 16 enigmáticas imagens de interiores de Weischer havia sido vendida na König Galerie, por preços entre € 28 mil e € 205 mil (US$ 31 mil a US$ 229 mil). 

Trabalhos semelhantes foram populares entre colecionadores no final dos anos 2000, quando Weischer e outros pintores contemporâneos alemães se tornaram os queridinhos do mercado. Na época, telas grandes foram vendidas por até US$ 585 mil em leilões. Mais recentemente, elas estavam sendo vendidas por preços entre US$ 50 mil e US$ 100 mil, segundo o banco de dados Artnet. 

A Galeria Konrad Fischer inaugurou formalmente seu espetacular novo espaço numa antiga estação de distribuição de energia com uma mostra do artista britânico Richard Long, ganhador do Prêmio Turner. Granite Crossing, uma grande escultura de solo feita em pedras vermelho-pálido e avaliada em  € 300 mil (US$ 336 mil), ainda não havia sido vendida no sábado. 

Apesar de toda a fama de Berlim como centro em ebulição de inovação artística, muitos visitantes estavam desapontados com o grande número de antigos trabalhos em exibição e o conservadorismo de novas apresentações. “Tudo que vi foram artistas conhecidos, sem novas descobertas, sem disruptura, sem inovações. Onde foram parar os  tempos selvagens?”, perguntou Resch, o criador do aplicativo. 

Com Hong Kong e Los Angeles atraindo cada vez mais atenção como polos “imperdíveis” do mundo da arte, e o calendário mundial sempre mais carregado, a Gallery Weekend Berlin precisa mudar - como a própria cidade já mudou. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ    

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