Pontapés pelas mãos

Valcke pode estar certo ao falar em 'chute no traseiro', mas foi grosso. Não se pode desconsiderar o peso das palavras e levar em conta apenas o que seria seu sentido

Sírio Possenti, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2012 | 03h12

Há alguns dias, Jerôme Valcke, secretário-geral da Fifa, que, na questão da organização da Copa, funciona como o executivo, proferiu em público uma dessas expressões costumeiramente ditas privadamente - sem trocadilho.

O pano de fundo é a preocupação com obras físicas para a Copa, que estariam atrasadas, bem como a demora, de seu ponto de vista, mas também de alguns nativos, na votação da Lei Geral da Copa, um conjunto de decisões cuja faceta mais pública é (era) a falta de consenso sobre a meia-entrada e a liberação de bebida alcoólica nos estádios. A Copa é antes de tudo business, não nos enganemos. Há preocupações com aeroportos, claro. Mas especialmente com espaço para jatos de executivos e aviões particulares.

Alguém teria dito - mas tenho dúvidas - que o Brasil está mais preocupado em ganhar a Copa do que em organizá-la. A maioria dos brasileiros acha que nem isso; que o fundamental são mesmo os negócios. A querela sobre o estádio em São Paulo é ilustrativa. E mais ilustrativa foi a solução.

Em entrevista, Valcke pediu pressa. Segundo a primeira versão que circulou, ele teria dado sua bronca em francês: disse que era preciso "se donner un coup de pieds aux fesses". Alguém muito literal traduziria por "dar um golpe de pés nas nádegas".

É tradução fajuta, mas mostra quais são as palavras que os franceses empregam nessas horas. A que circulou foi "dar um pontapé no traseiro", mas claro que é uma versão mais ou menos educada para ser escrita ou repetida pelo ministro Rebelo, que é discreto. Uma tradução mais popular - e bem mais exata - é "dar um pontapé na bunda". Grosseira? Sim, mas a culpa não é da tradução.

Depois de troca de declarações (guerra de palavras, nem por isso menos relevante), incluindo pedido de "descredenciamento" de Valcke, este culpou os tradutores. O sentido da expressão é "acelerar o ritmo". Mas culpar o tradutor é mais ou menos como culpar o sofá, quem não vê? Valcke tentou tirar da reta...

A defesa de Valcke é fraca também por outra razão: jornalistas informaram que a entrevista foi em inglês, e que a expressão de Valcke foi "kick up in the backside". A expressão brasileira "dar um chute no traseiro" até corresponde mais à expressão inglesa, consideradas as palavras, do que à francesa.

Tratando-se de um idiomatismo, a tradução das palavras importa menos, alguém dirá, já que eles significam em bloco (bater um papo é "conversar"; as palavras bater e papo não são consideradas).

Importa menos? Parece que não. É que idiomatismos têm uma incrível cara popular. Característica marcante dessas construções é serem muito concretas: deu com os burros n'água, a vaca foi pro brejo, quebrou a cara, deu um chute na canela: nada disso é literal. Pode-se dar um pé na bunda de alguém (dispensar o/a namorado/a) por telefone ou e-mail, sem bater; pode-se dar um tapa na cara sem usar a mão e sem atingir as faces (é "contrariar", "deixar em maus lençóis", com conotação de desfeita): o Senado deu um tapa na cara de Dilma ao não aprovar o nome de Figueiredo para a ANTT). Mas uma coisa é dizer "deu um tapa na cara" e bem outra é dizer "rebelou-se, contrariou desejos ou ordens". O peso das palavras é quase tudo, como sabemos. Foi só por essa razão que a fala de Valcke deu tanto pano pra manga (sem pano e sem manga)

Em suma, nunca se desconsidera o peso das palavras, como se se levasse em conta apenas o que seria o seu sentido, isto é, uma de suas paráfrases ou traduções. Que o digam exatamente os tradutores, tanto os que lidam com literatura quanto os "diplomáticos". Estes sabem muito bem como é complicado traduzir as falas de seus chefes, em especial se forem um pouco informais (dizem que Lula dava muito trabalho).

É certo que há ingredientes do sentido que podem pairar acima dos significantes. Se isso não fosse verdade, traduções seriam impossíveis. Mas há sempre uma perda (eventualmente, um ganho) quando a tradução dá mais ênfase ao sentido, que será apenas um deles, em detrimento da matéria linguística.

Podemos dizer a um aprendiz de português que bater as botas significa morrer: temos que acrescentar que é uma expressão popular, etc., para evitar fiascos. Se as duas expressões fossem equivalentes, não haveria duas, porque cada uma faz ver o fenômeno de um ponto de vista peculiar, e com o peso do ponto de vista. Os sentidos não pairam acima das palavras, e os dicionários são a melhor prova.

As palavras estão marcadas por sua história. Todos sabemos disso com clareza, tanto que o demonstramos a toda hora nas práticas sociais corriqueiras, corrigindo ou censurando falas, ensinando o que se pode e o que não se pode dizer em cada circunstância, ou fazendo escarcéu pelo fato de que certas expressões foram empregadas em público por pessoas das quais esse comportamento não era esperado, contrariando expectativas tácitas, mas sólidas.

O que tornou mais grave a declaração do secretário-geral da Fifa foram dois fatores: o alvo de sua declaração era o governo brasileiro; não era a CBF, por exemplo, ou os empreiteiros. Ser grosseiro com o governo é quebra de etiqueta. Governos cobram e são cobrados, mas em termos que permitem uma retirada, uma interpretação menos grave. A linguagem diplomática é francamente indireta (se posso usar um oximoro). Não inclui emprego de expressões "grosseiras" ou demasiadamente francas. Quando se trata de conversa entre governos ou entre governos e instituições como a Fifa, a regra é dar a entender, mais do que dizer. Exceto, eventualmente, em conversas privadas. É a forma que ofende, não o sentido.

Valcke pode estar certo. Mas foi grosso. Merecia um pé na bunda ou um chute na canela. Ou um puxão de orelhas, já que somos cordiais.

É PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE LINGUÍSTICA/INSTITUTO DE ESTUDOS DA LINGUAGEM DA UNICAMP, AUTOR DE QUESTÕES PARA ANALISTAS DE DISCURSO (PARÁBOLA)

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