Ponte da controvérsia

Centro islâmico em NY visa a fortalecer relações entre Ocidente e mundo muçulmano contrapondo-se à ideologia radical, diz imã

Feisal Abdul Rauf,

11 de setembro de 2010 | 14h20

No último fim de semana, enquanto meu voo se aproximava dos Estados Unidos, meus pensamentos se voltaram para o furor desencadeado pelos planos para a construção da Casa de Córdoba, um centro comunitário em Lower Manhattan. Passei dois meses longe de casa, falando no exterior a respeito da cooperação entre povos de diferentes religiões. Em cada dia desse período, e também nas últimas duas semanas, quando estive representando meu país em viagem pelo Oriente Médio promovida pelo Departamento de Estado, me impressionou a intensidade com a qual a controvérsia atraiu a atenção dos americanos, bem como a de quase todas as demais pessoas com as quais me reuni ao longo das viagens.

 

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Todos nos assombramos com quanto a questão da proposta de construção de um centro comunitário inflamou o público e mobilizou emoções. Esse nível de atenção reflete a importância que as pessoas atribuem aos valores americanos que estão no núcleo do debate: o reconhecimento do direito dos outros, a tolerância e a liberdade de culto.

 

Trabalhei para construir pontes entre grupos religiosos durante toda a vida, e acredito que isso nunca foi mais importante do que no momento atual.

 

Vamos prosseguir com a construção do centro comunitário Casa de Córdoba. Mais: contamos com o apoio da comunidade de residentes, o apoio de todos os níveis do governo e também de líderes de todo o espectro religioso, pessoas que serão nossas parceiras. São muitos os motivos pelos quais estou convencido de que essa é a coisa certa a fazer.

 

Acima de tudo, o projeto vai ampliar a abordagem plurirreligiosa. O nome, Córdoba, foi inspirado na cidade espanhola onde muçulmanos, cristãos e judeus coexistiram na Idade Média durante um período de grande enriquecimento cultural. A intenção de nossa iniciativa é cultivar a compreensão mútua entre todas as culturas e religiões.

Nossa missão - fortalecer as relações entre o mundo ocidental e o mundo muçulmano, estabelecendo um contraponto à ideologia radical - não reside na exploração dos limites de temas que provocaram polarização das relações dentro do mundo muçulmano e também entre os muçulmanos e os não muçulmanos. Ela só pode ser cumprida se confrontarmos tais temas enquanto iniciativa conjunta plurirreligiosa e multinacional.

 

Os muçulmanos e os membros das demais religiões precisam trabalhar juntos se pretendemos obter sucesso na promoção da paz e da compreensão mútua, seja nos conflitos políticos entre israelenses e palestinos, seja na construção de um centro comunitário em Lower Manhattan. Na Casa de Córdoba vislumbramos um espaço comum para atividades comunitárias. Mas haverá espaços separados para os cultos de muçulmanos, cristãos e judeus, bem como de homens e mulheres de outras fés. O centro incluirá também um monumento plurirreligioso dedicado às vítimas do 11 de Setembro.

 

A Casa de Córdoba será erguida com base nos dois mandamentos comuns ao judaísmo, ao cristianismo e ao Islã: amar a Deus nosso criador com todo o nosso coração, nossa consciência, nossa alma e nossa força; e amar aos nossos vizinhos como amamos a nós mesmos. Queremos promover uma ideia de culto condizente com cada tradição religiosa, e também uma cultura que promova o estabelecimento de elos pessoais que transcendam as tradições religiosas.

 

Tanto o presidente Obama quanto o prefeito Michael Bloomberg defenderam nosso projeto. Enquanto viajava pelo exterior, pude testemunhar em primeira mão quanto as palavras e os atos desses dois líderes produziram impacto significativo entre os muçulmanos comuns e entre os líderes do Islã. Foi notável: um presidente cristão e um prefeito judeu de Nova York defenderam os direitos dos muçulmanos. Suas declarações transmitiram uma poderosa mensagem a respeito daquilo que os EUA defendem, e serão lembradas como um marco.

 

Fantásticas manifestações de apoio a nosso direito de construir esse centro comunitário representam um forte obstáculo à capacidade dos radicais antiamericanos de recrutar muçulmanos jovens e impressionáveis recorrendo à afirmação falsa de que os EUA perseguem os muçulmanos por causa de sua fé. Tais tentativas de distorção põem em perigo nossa segurança nacional e a segurança pessoal dos americanos em todo o mundo. É por isso que os americanos não devem recuar, apoiando a conclusão desse projeto. Se recuarmos, estaremos cedendo nosso discurso e nosso futuro aos radicais de ambos os lados. O paradigma de um choque entre a civilização ocidental e a civilização muçulmana será mantido - a um custo altíssimo, como já vimos. Trata-se de um paradigma que precisamos mudar. E de uma oportunidade que não podemos desperdiçar.

 

Assim, convoco todos os americanos a enfrentar esse desafio. A própria palavra "Islã" vem de um termo cognato de "shalom", que significa paz em hebraico. O verso central do 36.º capítulo do Alcorão, considerado pelo profeta Maomé como o coração do livro sagrado, traz os seguintes dizeres: "A paz é uma palavra dita por um Deus misericordioso".

 

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

FEISAL ABDUL RAUF, PRESIDENTE DA INICIATIVA CÓRDOBA E IMÃ DA MESQUITA FARAH, EM LOWER MANHATTAN. ESCREVEU ESTE ARTIGO PARA THE NEW YORK TIMES

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