Popularidade ainda impermeável

Apesar da variação em pesquisa, Lula mantém o mais alto índice de aprovação da história recente

Jairo Nicolau*,

14 de setembro de 2009 | 09h09

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O Instituto Sensus realiza mensalmente uma pesquisa de opinião em que avalia a percepção dos eleitores sobre uma lista de assuntos, boa parte deles, temas de conjuntura. Na versão recentemente divulgada os cidadãos apresentaram suas opiniões, entre outros, sobre o conflito Lina Vieira-Dilma Rouseff, o impacto da crise financeira, a gripe suína e a avaliação do governo Lula.

 

Em que pese a longa lista de temas explorados, apenas dois tópicos têm despertado (e vão despertar ainda mais nas próximas pesquisas) a atenção dos jornalistas e políticos: a avaliação do presidente Lula e a posição dos prováveis candidatos na disputa presidencial de 2010.

 

O presidente Lula obteve 65% de aprovação positiva (soma de ótimo e bom) na pesquisa. Na pesquisa anterior sua marca era 70%. Alguns analistas leram os números de maneira apressada e chegaram a falar de queda da avaliação do presidente. Estão errados. Como a pesquisa tem margem de erro de 3 pontos porcentuais e a anterior tinha a mesma margem, estatisticamente podemos apenas dizer que a avaliação do presidente continua a mesma.

 

Desde abril de 2008 o governo do presidente Lula ultrapassou a barreira de 60% de avaliação positiva e há mais de um ano esta tem oscilado entre 60% e 70%. Para se ter uma ideia, a maior taxa de avaliação positiva nos oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso chegou a 33%. O patamar de avaliação positiva do atual governo Lula é impressionante, mesmo quando este é comparado com seu primeiro governo: excluindo o primeiro mês, Lula sempre teve menos de 50% de avaliação positiva no primeiro mandato.

 

Se mesmo na pior crise econômica vivida pelo seu governo e no desgastante episódio da crise do Senado a avaliação do presidente manteve-se inalterada, quais são as chances de que ela caia nos próximos meses? Embora resista a fazer previsões (sobretudo porque as provas de que elas falham são avassaladoras), sou tentado a arriscar. Acho que é remota a possibilidade de que o presidente acabe seu governo em patamares muito inferiores aos que obtém hoje. Lula é um fenômeno de opinião pública. Seu apoio entre a população de baixa renda é impressionante. Esse patamar de apoio entre os pobres não foi conhecido por nenhum outro presidente brasileiro desde que pesquisas de opinião começaram a avaliar os governantes de maneira mais sistemática.

 

Digamos que as coisas se passem como anunciado acima, e o governo Lula esteja daqui a um ano no mesmo patamar de avaliação positiva que se encontra hoje. Seria essa condição suficiente para eleger seu sucessor? Ninguém sabe.

 

Alguns defendem que a transferência de votos do presidente para a candidata governista é inevitável. Para isso, basta o tempo. À medida que os eleitores que apoiam Lula ficarem sabendo que é Dilma Rousseff a candidata presidencial, esta crescerá. Neste caso, a imagem de transferência é literal. Tirar de um e dar para outro. Encher aos poucos um recipiente vazio.

 

Tivemos a oportunidade de assistir a muitos casos de transferência eleitoral nas eleições para prefeitos e governadores de Estado nos últimos anos. E outros tantos em que o processo falhou. Na disputa presidencial os exemplos não ajudam. Em 1989, nenhum dos candidatos defendeu o legado do governo Sarney, que terminou com baixíssima popularidade. Em 1994 é difícil dizer que Fernando Henrique se elegeu por conta dos votos transferidos por Itamar Franco. Ambos cresceram em avaliação simultaneamente ao sucesso do Plano Real. Em 2002, Fernando Henrique acabou seu governo com apenas 24% de avaliação positiva. Não é por outra razão que José Serra, o candidato governista, preocupava-se mais em afastar-se do legado do governo de Fernando Henrique do que em se apresentar como nome da continuidade.

 

As eleições de 2010 devem ser tão singulares que qualquer comparação com as anteriores ajuda pouco. A principal singularidade é a ausência de Lula (pelo menos da urna eletrônica). Pela primeira vez, desde a volta à democracia, os eleitores não terão Lula como candidato. Nas cinco eleições de que participou, Lula demarcou o campo da esquerda e tornou os resultado da disputa mais previsível. Foram quase duas décadas em que qualquer brasileiro sabia que na eleição vindoura um dos candidatos já era certo. Qual é o porcentual desses votos que devem ser colocados na conta da figura carismática do presidente? Como o PT vai se portar sem Lula na disputa?

 

Outra singularidade é que, com a provável candidatura de Ciro Gomes, o campo governista pela primeira vez deve sair dividido. Difícil saber como as diversas forças que apoiam o governo Lula se comportarão diante de um eventual crescimento de Ciro Gomes. Ou como o próprio presidente se comportará em um cenário de dificuldades para a candidatura Dilma.

 

Outra novidade é a candidatura Marina Silva. Marina é um caso singular de uma candidata com origem popular, mas com um discurso que conecta melhor com a classe média. As últimas campanhas presidenciais foram concentradas no eixo desenvolvimento/políticas sociais. Marina vai introduzir o tema do desenvolvimento sustentável, que provavelmente conquistará franjas das camadas médias e da juventude. Mas quanto ela conseguirá seduzir os eleitores mais pobres é uma incógnita.

 

A parte relativa à corrida eleitoral da pesquisa Sensus não trouxe muitas novidades. Comparativamente à pesquisa anterior, todos os candidatos variaram na margem de erro. As combinações de candidatos apresentadas aos entrevistados pelo instituto não foram muito felizes. Em nenhuma delas Ciro Gomes e Dilma Rousseff aparecem juntos. Provavelmente na próxima rodada o cenário de candidatos que se desenha (José Serra, Dilma Rouseff, Ciro Gomes e Marina Silva) poderá dar sinais mais seguros das primeiras tendências das escolhas para 2010.

 

Para quem acompanha os movimentos da opinião pública brasileira, o que é digno de nota é o de sempre: a avassaladora avaliação positiva do presidente Lula. Chova ou faça sol.

 

*Cientista político e diretor executivo do Iuperj

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