Por baixo da carne-seca

Crise econômica se traduz em surra nos socialistas e social-democratas pela direita nas eleições para o Parlamento Europeu

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2009 | 00h12

Oito meses atrás, a Europa parecia por cima de carne-seca, razoavelmente segura de si, aviando as primeiras receitas para enfrentar a crise financeira epicentrada em Wall Street e salvar o capitalismo sem abrir mão de suas políticas social-democratas, e os Estados Unidos, à beira do abismo. A Europa era toda pressa e audácia; a América, perplexidade e desorientação. Nos dois lados do Atlântico, a certeza de que não haveria espaço suficiente para todos os conservadores e demais baluartes do livre mercado na lata de lixo da história.

Se um sucedâneo de Rip Van Winkle tivesse pegado no sono em outubro de 2008 e só acordado esta semana, levaria um bom tempo para assimilar os efeitos da cautela afinal assumida pela Europa e da estratégia agressiva adotada pelos Estados Unidos pós-Bush (pelos últimos indicadores da crise, a economia europeia continuará em recessão até o ano que vem, contraindo cerca de 4,2%, mais que a economia americana, com um declínio previsto de 2,8%) e entender a vitória do conservadorismo e do extremismo de direita nas eleições para o Parlamento Europeu, no fim da semana passada.

"Como então, enquanto eu dormia, os americanos foram para a esquerda e os europeus para a direita", comentaria Rip Van Winkle II, menos surpreso com as seguidas, emergenciais e aparentemente inevitáveis intervenções do governo Obama em setores vitais da economia do que com a tunda imposta, nas urnas, aos socialistas e social-democratas da União Europeia.

Até que ponto devemos nos preocupar com os resultados das eleições para o Parlamento Europeu? Sem exageros, aconselham alguns analistas. Elas são, de fato, menos expressivas que as eleições nacionais, e a maioria dos que se abalam até os postos de votação pouco ou nada sabem sobre a função de seus futuros representantes na legislatura continental. Mas o recado nelas contido requer um exame tão sereno e lúcido quanto o que Tony Judt fez da Europa moderna em Pós-Guerra (A História da Europa desde 1945), traduzido, meses atrás, pela Objetiva.

O Parlamento Europeu não é uma instituição irrelevante. Além de poder votar ou emendar dois terços das leis da Comunidade Europeia, mexer em seu orçamento ( 120 bilhões, ou US$ 170 bilhões, este ano), e aprovar candidatos a seus cargos administrativos e à direção do Banco Central Europeu, é uma notável plataforma para políticos e partidos em busca de espaço na mídia.

Em pelo menos quatro países europeus (França, Alemanha, Itália e Polônia), os conservadores no poder receberam apoio entusiástico. As esquerdas, no poder ou na oposição, dançaram. "Os conservadores europeus estão se dando melhor que seus equivalentes americanos porque têm a coragem de suas convicções ideológicas", observou Anne Applebaum, no Washington Post de terça-feira. Com raras exceções, as vozes mais articuladas e audíveis da centro-direita americana desperdiçam suas cordas vocais imprecando contra o terrorismo e o aborto. Seu conservadorismo fiscal (pelo visto, da boca pra fora) não impediu que o governo Bush acumulasse dívidas monumentais. Seus colegas europeus são mais coerentes, objetivos e flexíveis; não combatem o Estado de bem-estar social e consideram a desregulamentação imperante na economia americana nas últimas décadas algo desumano e uma ameaça à estabilidade econômica mundial.

"Não foi bem uma guinada para a direita", ponderou Harold Meyerson, no Washington Post de quarta-feira, tentando relativizar o revés dos trabalhistas britânicos e dos socialistas espanhóis, franceses, alemães, italianos, poloneses, austríacos e húngaros. Segundo Meyerson, o capitalismo humanizado pelos social-democratas europeus foi atropelado pela economia globalizada e suas consequências - nenhuma tão devastadora quanto a invasão do mercado de trabalho por mão de obra imigrada e mais barata.

A social-democracia precisaria recuperar o que Eduard Bernstein, social-democrata alemão do século 19, chamou de "movimento", a força geradora do Estado de bem-estar social. "O movimento é tudo; o objetivo final, nada", proclamou Bernstein, contrapondo à ideia de revolução socialista (ou, como dizia, "à ilusão fatal da transformação revolucionária") uma diuturna e persistente reforma social e democrática do capitalismo, domando-o com benefícios coletivos e direitos trabalhistas.

E agora? Como metabolizar a surpreendente votação obtida pela direita e a extrema-direita, se é que cabe uma distinção entre as duas, nas eleições parlamentares de uma semana atrás?

Manipulando a insatisfação das baixas camadas sociais com a carestia e o desemprego, e também sua proverbial xenofobia, os grupos mais reacionários da Europa foram à luta com uma incandescência como desde a década de 1930 não se via. Beneficiados pela abstinência da parte mais "esclarecida" do eleitorado (na Eslováquia, por exemplo, apenas 19,4% compareceram às urnas), conquistaram em escala continental o que nunca haviam logrado em seus respectivos países.

A Inglaterra, historicamente avessa a extremismos de qualquer espécie, elegeu seu primeiro radical de direita, Nick Griffin, do Partido Nacional Britânico. Griffin é um supremacista assumido. Vive a proclamar que "sem a raça branca, não há salvação", prometendo expulsar da Grã-Bretanha todos os que não se enquadrarem na sua classificação de "branco". Já elogiou mais de uma vez as teorias sobre organização partidária e propaganda política expressas por Hitler em Minha Luta, mantém estreitas ligações com os neofascistas italianos da Liga Norte e os partidos ultranacionalistas, anti-imigrantes, anti-islâmicos e anticiganos da Áustria, Holanda, Hungria e República Checa. É um perigo. Mas não deverá ir muito longe.

SEGUNDA, 8 DE JUNHO

Conservadores no poder

O resultado das eleições para o Parlamento Europeu mostra que a esquerda perdeu espaço, enquanto partidos de extrema direita aumentaram seu eleitorado. Grupos populistas e eurocéticos também avançaram na maioria dos países do bloco.

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