Bruna Meneguetti
Bruna Meneguetti

'Por Cima do Mar', de Deborah Dornellas, aborda o racismo cotidiano

Ganhadora do prêmio Casa de las Américas, autora conta que hesitou ao tratar do tema: 'Porque eu não sou negra'

Bruna Meneguetti*, Especial para o Estado

06 de julho de 2019 | 16h00

Durante a leitura de Por Cima do Mar, de Deborah Dornellas, ganhador do Prêmio Casa de las Américas 2019, é fácil se esquecer de que o livro é uma ficção. Além de a escrita ser em primeira pessoa, somos apresentados à obra por uma carta da protagonista – Lígia Vitalina, uma mulher negra que nasceu na Vila Iapi e cresceu na Ceilândia, na periferia de Brasília – que diz ter reunido ali suas memórias. Em seguida, uma nota de rodapé quebra a quarta parede ao explicar que as palavras angolanas estão em um glossário nas últimas páginas, uma dica que teria sido da amiga de Lígia e demonstra uma suposta edição da obra pela personagem.

A narrativa é construída por meio de cenas de vários momentos da vida dela (infância, adolescência e maturidade), em que Lígia tem de lidar com o racismo diário, os padrões coloniais de seus familiares e um estupro sofrido na saída da faculdade. Intercalados durante a história, fatos reais ou extremamente plausíveis dão um peso realista ainda maior, como a presença dela na invasão ao Quarentão – uma ação policial violenta, que ocorreu em 1986 para acabar com um baile black na Ceilândia, quando policiais gritaram uma frase que deu título ao filme premiado do diretor Adirley Queirós: “Branco sai, preto fica.” 

Mas o tom de veracidade do livro não se explica apenas por esses detalhes: Dornellas foi professora na Ceilândia em 1985 e circula pelo universo da cultura de matriz africana há décadas. Mesmo assim, admite que teve inseguranças enquanto escrevia, devido à questão do lugar de fala. “Porque eu não sou negra e não nasci na periferia de Brasília”, explica em entrevista ao Aliás. Foi quando ouviu a autora de Um Defeito de Cor, Ana Maria Gonçalves, e, a partir de então, entendeu: “Eu não quero falar no lugar de ninguém, nem por ninguém, mas eu quero falar junto. Não era minha voz que eu queria, é o lugar de fala dessa personagem e é um exercício que o escritor faz toda hora. Então, esse meu livro vem para engrossar a fileira.” 

Outra ocasião que fez mudar sua percepção em relação a própria história foi quando Conceição Evaristo comentou sobre as personagens negras na literatura brasileira serem, com frequência, estéreis: “Se a gente for pensar em Rita Baiana, em Bertoleza (as duas de O Cortiço, de Aluísio Azevedo), essas personagens criadas nessa literatura canonizada, ou elas não têm filhos, ou não dão conta de seus filhos”, explicou a autora em uma das mesas da Flip, em 2017. Fazem coro a esses nomes a mulata Jini, do conto A Estória de Lélio e Lina, presente em Corpo de Baile, de Guimarães Rosa; e os personagens de Monteiro Lobato, Tia Nastácia e o Tio Barnabé, que não têm pais, irmãos ou filhos. “Aquilo me calou de um jeito, porque a minha personagem era estéril e eu não tinha me dado conta disso. Deve estar no inconsciente da gente. Acho que elas são estéreis para não produzir descendência”, reflete Dornellas, que também participa de uma mesa na programação paralela da Flip 2019, na Cadeia Literária, no sábado, 13, às 16h. 

Conceição Evaristo teorizou em seu ensaio Da Representação à Auto-representação da Mulher Negra na Literatura Brasileira: “Na ficção, quase sempre, as mulheres negras surgem como infecundas e portanto perigosas.” A partir disso, Dornellas mudou a sua história acerca da fertilidade da protagonista. Outra forma que a autora achou de escancarar o racismo é justamente abordar a relação entre Lígia e Virgínia, uma menina branca, criada dentro do plano piloto pela babá. Em um dos seus muitos reencontros, Lígia acaba dormindo na casa dela após uma festa e se pega dobrando as roupas da menina, “reproduzindo um padrão do negro que serve o branco”, explica a autora. Ela ainda tem de se reencontrar com a mãe de Virgínia no café da manhã: “Não sei se ela me achou mais feia ou mais bonita, mais velha ou mais nova, mais gorda ou mais magra do que imaginava. Deve ter me achado mais preta.”

Para a autora, situações como essa acontecem sempre: “Eu já testemunhei de uma pessoa que é patroa, que gosta desse lugar e gosta desse nome, a diferença que ela trata uma criança, que tem uma conveniência, e uma adulta. A criancinha preta vai ‘brincar com a minha filhinha’, vai ‘distrair enquanto eu passeio’. Uma jovem negra tem outro peso”, afirma Dornellas. Aos poucos, sua personagem vai começando a tomar consciência do racismo e da violência que a cercam: “Ora, uma pessoa negra jamais seria invisível no Brasil: a todo tempo ela é lembrada que tem uma cor. E mesmo que sejamos muitos, e somos, eles insistem há séculos em fingir que não existimos. Ou que existimos apenas para lhes servir”, narra Lígia.

Apesar dos deslocamentos dentro da cidade, Lígia tem sempre uma relação de estrangeira com Brasília, o olhar de “uma pessoa que mora na periferia e vê o plano piloto de fora para dentro”, explica a escritora. Dessa forma, a personagem desmistifica a capital: acha tudo muito branco e afastado; como filha de candango, revela a revolta dos trabalhadores por causa das péssimas condições ao construírem a cidade e como essas mesmas pessoas foram sendo deslocadas após as obras, ficando sem ter onde morar e chegando a serem chamadas de invasores. “Em Brasília não existe a palavra ‘favela’. Eles chamam de ‘invasão’. A ‘grande invasão’ ficava muito próxima do aeroporto. A Ceilândia foi enfiada dentro de uma fazenda que o governo comprou para tirar os favelados da vista de quem visitava a cidade”, informa Dornellas. 

Não à toa, a relação com a capital marca um dos seis poemas presentes no livro: “Enquanto você agoniza e chora, / Brasília entardece”, dizem os últimos versos. Para a autora, a metáfora é clara: “A cidade não está se preocupando com você, ainda mais no caso dela, que é uma invisível. Brasília nos traz essa aridez humana, isso constitui a cidade, mas não a resume.”

Ainda num tom poético, um dos poucos elementos que nos lembram da ficcionalização de Por Cima do Mar são os voos da personagem, que vê as cidades do alto e chega a cruzar o Oceano Atlântico em suas idas e vindas. Em dado momento da obra, Lígia conhece e casa-se com um angolano, mudando-se para Benguela e revelando ao leitor mais sobre esse país e suas semelhanças com o Brasil. Para Dornellas, as geografias são muito importantes em sua obra, porque conversam: “ela é trineta de uma mulher escravizada que veio, provavelmente, de Angola, então é uma espécie de viagem de retorno”, explica.

Foi, inclusive, de uma viagem da autora a Angola que veio a inspiração para a capa de seu livro. Isso porque Dornellas é também artista plástica. Trabalhando com os chamados “desenhos digitais”, criou uma sobreposição de fotos tiradas por ela: “Uma foto era de uma menina em pé, na ilha de Luanda, e a outra é na Praia Morena, em Benguela. Mudo tanto que é só mesmo uma referência”, informa. As outras ilustrações do livro são igualmente feitas por ela: “São figurativas porque dialogam com as cenas, mas quis fazer o mais perto do abstrato que eu pudesse.” Ela sorri ao confirmar que foi tudo desenhado num iPad. Dessa forma, o leitor tem contato com todas as facetas de Deborah Dornellas: a poeta, a artista e contadora de histórias. Todas se reúnem em Por Cima do Mar.

*BRUNA MENEGUETTI É JORNALISTA E AUTORA DE ‘O ÚLTIMO TIRO DA GUANABARA’ (EDITORA REFORMATÓRIO) 

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