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Por enquanto, só esperanças

Analista diz que cacife de Obama é alto, mas não alcança economia, Afeganistão, Paquistão...

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2009 | 22h27

Desde a primeira metade do século 20, intelectuais - sejam europeus, sejam americanos - se debruçam em análises sobre a crise da cultura da Europa. Paul Valéry, um dos pioneiros, foi seguido por Albert Camus e autores herdeiros do marxismo. Todos, à direita ou à esquerda, trataram da crise dos valores europeus, potencializada por duas guerras mundiais, pelo Holocausto e por duas expressões do totalitarismo: o comunista e o nazista. Oswald Spengler, nos anos 20, foi mais longe, considerando a crise como o declínio do Ocidente, já que a América, tal como é, é a extensão da civilização europeia.Em 2008 o filósofo Jean-François Mattéi, nascido em 1941 em Oran, na Argélia, então colônia francesa, retornou ao tema na obra Le Regard Vide - Essai sur l?Épuisement de la Culture Européenne (O Olhar Vazio - Ensaio sobre o Esgotamento da Cultura Europeia). O texto lhe valeu, em novembro, o Prêmio Montyon, da Academia Francesa, um dos mais respeitados da França. Como Spengler, Mattéi ressalta que a crise vai além das fronteiras do Velho Continente, contaminando também a América. "Como Heidegger e outros intelectuais, defino a cultura americana como a ponta avançada da cultura europeia", explica. "A crise da Europa é a das Américas. A diferença é que, como as culturas americanas são jovens, a turbulência não se faz sentir de forma tão intensa. A Europa está em decadência, enquanto nos Estados Unidos, a maior potência do mundo, e no Brasil a crise chega com menor força."Para Mattéi, o "olhar europeu", ou "triplo olhar", tem três características. Em primeiro lugar, sempre visa a uma utopia, uma transcendência, uma "idealidade", como o Bem, a Beleza, a Verdade ou a Justiça. Em segundo, é crítico em relação à realidade. Em terceiro, é especulativo, voltando-se contra si próprio. Logo, o "olhar vazio" é o esgotamento da capacidade crítica, que gerava reflexão e construía alternativas. Nessa crise está mergulhada a civilização ocidental, diz Mattéi. Prova do labirinto em que o Ocidente se encontra é, diz ele, a sequência de depressões do capitalismo, ou a reincidência de conflitos como o de Gaza, indícios de que o homem não mais consegue teorizar e encontrar soluções definitivas.Nesse cenário de turbulências, no mês de janeiro Barack Obama tornou-se o novo presidente dos Estados Unidos e a Europa chegou aos 500 milhões de habitantes. A pedido do Aliás, Mattéi aceitou o convite para filosofar sobre a obamania, o declínio do império norte-americano, a China e, claro, a Europa. Sua sentença: "Não podemos depositar mais do que esperanças em uma personalidade". A seguir, a síntese da entrevista, concedida em Paris na véspera da posse do primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos.Na contramão da obamania, da euforia pré-posse, o senhor vê com cautela o novo presidente dos Estados Unidos. Obama é uma incerteza?Independentemente da personalidade eleita para o cargo de presidente, ela é sempre uma incerteza. Não é possível avaliar Barack Obama de antemão porque as circunstâncias fazem o presidente. Uma nova catástrofe pode acontecer, um novo atentado, um novo 11 de Setembro. Quem poderia prever a ruína das torres? Ninguém. No entanto, vivemos um turning point recente. Obama parece ser um líder para os Estados Unidos. Mas pode não sê-lo. Ele é um mistério. Talvez seja uma catástrofe total. Talvez seja assassinado. Talvez seja apenas mais um. E talvez seja o grande presidente mestiço - ele não é negro - da história dos Estados Unidos. De toda forma, é uma novidade. Parece ser uma pessoa de personalidade forte o suficiente para cristalizar a América em torno de si. Sua gestão responderá se é forte o suficiente para fazer a América se levantar. Uma gestão que começa plena de apoio público, mas repleta de crises.Obama parece ter as cartas na mão. Tem a confiança da América, da Europa, do mundo - inclusive da África. Porém, não tem cartas econômicas e financeiras, porque seu país está em plena crise. Também não tem as melhores cartas políticas: o Afeganistão piora, o Paquistão se torna um lixo. Nenhum desses é um problema solucionado. Não podemos depositar mais do que esperanças em uma personalidade, ainda que ela pareça forte, como a de Obama. Se tudo correr bem, a esperança se tornará uma bola de neve e a América retomará sua liderança, reconquistando a confiança e impondo sua visão à China e outros países. Se correr mal, veremos. A Europa teria alternativa a propor nesse caso? Não sei.Se Obama representa a chance de retomada dos Estados Unidos, o declínio norte-americano da era George W. Bush foi efêmero. Por que a Europa, por exemplo, não se aproveitou da fraqueza do império?Sarkozy (Nicolas..., presidente da França) tenta fazê-lo, mas tem dificuldades para pilotar a França, quanto mais pilotar a Europa de 25 ou 30 países - nem sabemos mais quantos são. Faltam à Europa (líderes como) Churchill e De Gaulle, que foram personalidades incontestáveis, mas nacionais. Ainda não encontramos personalidades acima das divisões nacionais porque a Europa não se completa, em razão do peso da história. Sua história impede a Europa de voltar a liderar?Não creio que a Europa possa, no início do século 21, retomar a liderança que tinha quando os Estados Unidos não haviam sido fundados e a China e outros povos não haviam sido redescobertos. A liderança pode retornar à Europa? Talvez em dois ou três séculos. O problema é que os Estados Unidos, como líderes, não se mostram uma voz razoável. Talvez possamos depositar nossas esperanças em um país como o Brasil. Por que não? Henry Kissinger dizia que era preciso saber a quem telefonar na Europa. A UE procura um líder, mas não tem meios para escolhê-lo.Esta é uma das grandes questões em aberto na Europa. Devemos construir uma confederação, uma federação de Estados? Devemos construir os Estados Unidos da Europa? Os Estados Unidos da América puderam ser feitos a partir de 13 colônias inglesas porque o país era novo, povoado por europeus, sim, mas com letras maiúsculas para a expressão Novo Mundo. Também aconteceu na América do Sul, no Brasil e na Argentina. Estruturas nacionais novas, tiveram mais facilidade de se integrar, mesmo com raízes euroocidentais. Na Europa, por outro lado, há 20 séculos de história, sem contabilizarmos Grécia e Roma, trajetória marcada por grandes conflitos. Não é fácil criar estruturas unitárias. Veja o euro: é a primeira moeda de nossa história que não tem nada de europeu, salvo seu nome. É um virtual, não evoca nada de histórico no passado, nem de real no presente. Observe as portas desenhadas na cédula de 20: não existem em nenhum lugar da Europa. No passado, tínhamos rostos em nossas moedas. Hoje, não há Leonardo da Vinci, Michelangelo, Descartes, Shakespeare. No entanto, todos eles aportaram seus conhecimentos à Europa, não só a seus países. A virtualidade do desenho atual está inscrita nos tratados. É racional e meramente processual. Não há conteúdo. Falta à Europa densidade político-econômica? Realmente, a Europa continua a pecar por falta de densidade político-econômica. A densidade financeira vem em segundo plano, já que o euro, como moeda, se porta bem. A Europa carece de densidade identitária. Refiro-me à autoimagem que ela faz de suas línguas, de culturas, de visões do mundo. Dentre os líderes, éramos marcados pela densidade filosófica que se aplicava ao político. Veja (o ex-presidente checo) Vaclav Havel. E observe hoje o discurso de Sarkozy, o de Gordon Brown ou os dos demais líderes do Ocidente. São vazios. Não importa se são de direita ou esquerda. Como diria Nietzsche, são atores dos próprios ideais. São caricaturas.Como fez em seu livro, o senhor toca em um tema delicado, a ?identidade?.O problema da identidade é malvisto entre muitos intelectuais europeus. Os árabes não têm nenhum problema de identidade, como os japoneses não têm - mesmo que tenham se ocidentalizado. Já os europeus têm dificuldade de assumir sua identidade. A "identidade europeia" é o reconhecimento do triplo olhar, mas também a dificuldade de assumir sua herança. A identidade é uma mistura de várias identidades, a aceitação de tudo que somos, inclusive de nossas contradições. Mas se tiver de defini-la, diria que a identidade da Europa e do Ocidente é a identidade crítica. Ela sempre se interroga sobre si mesma. Podemos resumi-la pela questão de Sócrates, "Quem sou eu?", ou de Montaigne, "Que sei eu?". É sempre uma identidade problemática. O problema é que se tornou tão problemática, tão crítica, que ela se volta contra si desde a segunda metade do século 20 e gera a dificuldade de se reconhecer. Isso talvez não envolva o cidadão comum, que não tem dificuldade de assumir sua identidade. Que impacto isso tem sobre a cultura europeia, que o senhor considera ?superior??Há uma herança cultural na Europa, filosófica, científica, moral, religiosa, mas que não se assume, seja na escola, na universidade, nos museus, no Google. René Char, o grande poeta francês, amigo de Albert Camus, diz que nossa herança não é precedida de testamento. Os que nos legaram não nos explicaram como usá-la. E não sabemos o que fazer. Você acredita que as pessoas da periferia, que se servem apenas de algumas centenas de palavras, podem ler Baudelaire? O resultado é: temos uma pequeníssima elite que se vale das grandes escolas, e todo o resto, que assiste à televisão. Você acredita que a televisão transmita a herança ocidental? Essa cultura ?superior? se vê universalista. Mas não estava aí sua capacidade de destruir?Sim, a racionalidade europeia é potencialmente destrutiva. Ela o é por uma razão muito simples: para ser construtivo é preciso destruir. Descartes, no Discurso sobre o Método, no início da filosofia moderna, diz que graças à racionalização universal o homem se tornará o mestre e possuidor da natureza. Isso quer dizer também "o mestre e possuidor de outras culturas". Quer dizer: os americanos vão matar os indígenas, ou quase todos. A ideia por traz do pensamento moderno é de que é preciso eliminar tudo que é empírico. É preciso demolir as velhas casas, bairros e vilarejos e construir tudo de novo, de acordo com projetos, com teorias. Daí a aplicação política, não apenas por Hitler, mas por Lenin e Marx. Se quisermos mudar algo é preciso destruir, não apenas materialmente, mas humanamente. Era preciso fazer o que Mao chamou de homem novo. Você viu o resultado: milhões de mortos no comunismo, no nazismo e outros. É verdade que há um potencial destrutivo na racionalidade.É seu paradoxo: o Ocidente tem sede de progresso e justiça. Como os Estados Unidos no Iraque, talvez...Sim. É como a bomba de Hiroshima. Ela é a melhor das coisas, porque foi construída por Einstein, por Oppenheimer, físicos judeus europeus, pacifistas, pessoas de esquerda, defensores do humanismo, que, no entanto, destruíram Hiroshima e Nagasaki. Para que serve uma invenção extraordinária, pequena e poderosa, que se torna uma obra de morte? Eles se valeram do bem para fazer o mal. Eles utilizaram a racionalidade para criar a energia atômica, que deveria ser sempre boa, mas ela acaba sendo uma tecnologia nociva. Daí a perda da fé nas utopias, como atestou Jean-François Lyotard? Estamos menos apegados a ideias e mais a personalidades?Esse é um ponto interessante da crise da Europa. A modernidade é feita das grandes narrativas, como a de Galileu, de Copérnico, de Descartes, de Espinosa, mas sobretudo das narrativas político-morais, que insuflaram a Europa e o Ocidente em direção ao domínio do mundo e do ser. A pós-modernidade chega quando não se crê mais nessas grandes narrativas, quando perdemos as ilusões. O que resta? Se não há mais grandes narrativas, ilusões em torno de ideias diretivas, só há racionalidade processual que gira em círculo. É como um rato que cai em um labirinto. Não é construtivo.É isso o ?olhar vazio??Sim, é isso o olhar vazio. Tomei essa expressão de Baudelaire, traduzindo um texto de Edgar Allan Poe, no qual ele - que não gostava dos norte-americanos de sua época, sentindo-se exilado na própria terra - diz que o homem moderno é comparável a alguém que olha tudo com um olhar fixo, vacant, um olhar vago, sem nenhuma intenção crítica. Eu usei "olhar vazio" porque, no meu entender, mesmo em circunstâncias extremas há um olhar crítico. Mas ele é vazio de conteúdo, não é substancial. Cada vez mais o substituímos pelo processual. As relações humanas, sejam políticas, econômicas, etc., estão cada vez mais restritas ao processo - como o pedido de um passaporte, a inscrição em uma faculdade, um procedimento jurídico. Mas onde está o conteúdo?

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