Brendan McDermid/Reuters
Brendan McDermid/Reuters

Por que a música pop declarou guerra ao piano

A tonalidade vibrante do instrumento é cada vez mais rara num segmento impulsionado por sons gerados por computador

The Economist

02 Setembro 2017 | 16h00

Alguém que busque a sonoridade do piano acústico na lista de singles Billboard Hot 100 encontrará poucos resultados. Não se ouvem notas do instrumento em I’m The One, composta pelo DJ Khaled e Justin Bieber, ou em meio às marimbas digitais de Shape of You, de Ed Sheeran. Strip That Down, de Liam Payne (ex-One Direction), também recorre a sons gerados por computador. É bem verdade que o piano não foi totalmente relegado ao passado: faz boa figura na balada Praying, de Kesha, e em Sign of the Times, de Harry Styles. 

Mas, de modo geral, suas aparições na música pop são apenas fugazes, como acontece em Something Just Like This, da banda Coldplay e da dupla de DJs Chainsmokers. Será que o instrumento saiu de moda?

Dos primeiros fortepianos italianos, no século 17, aos lieder alemães, no 19, o piano acústico esteve intensamente imbricado na composição de canções, funcionando como acompanhamento perfeito para voz. No fim do século 19, era símbolo de status social; em Nova York, seus fabricantes se contavam às centenas. O instrumento acompanhou o nascimento do jazz, do blues e do rock ‘n’ roll. O sucesso de Aretha Franklin, Stevie Wonder, Elton John, Billy Joel e Freddie Mercury não tem como ser dissociado de suas teclas de marfim e ébano.

Hoje, porém, a maioria daqueles fabricantes não existe mais e é frequente encontrar pianos velhos abandonados em lixões. Nos lares americanos do século 21, o instrumento costuma ser considerado apenas um móvel a mais: as vendas de pianos novos recuou 88% em relação às 282 mil unidades vendidas em 1978, segundo o Bluebook of Pianos. 

As gerações mais novas parecem preferir versões portáteis e mais baratas do instrumento: em 2015, de acordo com a National Association of Music Merchandisers, as vendas de teclados digitais atingiram a marca de 1,2 milhão de unidades; no mesmo ano, foram comercializados apenas 40 mil pianos acústicos. 

Para os músicos profissionais, é bem mais fácil circular com um teclado nas costas do que andar por aí arrastando um piano de mais de 200 kg. Compositores em trânsito usam laptops para criar novas canções. A rejeição é menos à sonoridade do piano do que ao fato de o instrumento ser um trambolho.

O cantor e produtor britânico Sampha acha que a música está “prestes a entrar numa nova era da evolução humana, em que os músicos encontrarão novos usos para instrumentos antigos”. As gravações do músico são marcadas por uma mescla de velho e novo, com a utilização concomitante de bateria eletrônica, teclado e piano acústico. Seu último disco, Process, ganhou destaque depois da divulgação de um clipe da canção Plastic 100ºC, em que Sampha aparece tocando um piano de armário Blüthner. No clipe, seus dedos tiram do instrumento notas sublimes, produzindo acordes sobrenaturais e um sentido de urgência que raramente vêm à tona no emaranhado sonoro do pop. Sampha diz que o piano acústico tem uma vibração e um intimismo insuperáveis. “Eu comecei a mexer com softwares de música quando tinha 12 ou 13 anos”, conta ele, “mas sempre precisei deixar o computador um pouco de lado e voltar para a riqueza do piano. Acho incrível ouvir coisas novas, mas não abro mão do passado.”

Sampha não é o único que gosta de pôr os sons tradicionais para conversar com os modernos: o cantor Howard Jones usa computadores Apple, keytars (“teclado-guitarra”) e pianos tradicionais em seus shows e gravações, mas acha que a perfeição das máquinas pode suprimir as inexatidões que garantem a originalidade de um artista. Benmont Tench, tecladista da banda Tom Petty and the Heartbreakers, acrescentou um piano Steinway aos teclados e órgãos elétricos que costuma levar nas turnês. Mesmo aceitando o fato de que a tecnologia digital é o padrão atual, ele lembra que nos anos 1950 e 1960 o piano era uma experiência social, algo que não acontece hoje. 

“Quando a pessoa escutava uma canção no rádio, podia comprar a partitura e ir tocar em casa. Tocar e cantar fazia parte da vida das pessoas.” Para ele, o piano garante esse toque pessoal. “Se você controla tudo numa gravação, até o milésimo de segundo, acaba tirando o elemento humano da música.”

Talvez o piano esteja apenas evoluindo, e não entrando em extinção. O pop atual foi precedido por décadas de parafernália eletrificada: os pianos e órgãos elétricos existem há cem anos, e os teclados eletronicamente programáveis entraram nas paradas de sucesso com os sons sintetizados do Kraftwerk e de Giorgio Moroder. De qualquer forma, artistas pop de destaque, como John Legend e Adele, são uma garantia de que o piano acústico continuará a figurar nas ondas sonoras como um instrumento ideal para composições pessoais e intimistas. Talvez estimulem os músicos do futuro a sentar no piano da vovó. / Tradução de Alexandre Hubner

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