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Por que D.H. Lawrence é o pai da literatura moderna de viagem

Descobrir novos lugares significava, para Lawrence, ser instigado a descobrir o que realmente importa. Quanto mais particular o lugar, mais universal a verdade

Walter Nicklin, Especial para o The Washington Post

09 de setembro de 2021 | 20h00

“Eu não sou Baedeker”, D.H. Lawrence adverte os leitores de seus escritos de viagem sobre a Itália. Ao invés de horários de trens, de museus e recomendações de hotéis, o que Lawrence buscou capturar era, ao mesmo tempo, menos concreto e mais profundo que o que fez o editor alemão do século 19, Baedeker, ainda referência em guias de viagem e turismo.  

O resultado – tanto em Sketches of Etruscan Places and Other Italian Essays (Lugares Etruscos), como em duas coleções anteriores centradas na Itália – criou um modelo para os melhores escritos de viagem. Poderia ser um gênero literário híbrido, Lawrence demonstrou, misturando perfeitamente observação atenta e detalhes naturalistas com um tipo de reflexão introspectiva encontrada em ensaios e memórias. Adicionando tempero à mistura, ele nunca temeu ofender com suas ferinas análises históricas salpicadas de crítica social e cultural.  

Filho de um minerador de carvão inglês, Lawrence passou grande parte de sua vida em um exílio auto imposto viajando pelo mundo – não apenas pela Europa, mas também pela Austrália, Sri Lanka, México e Estados Unidos. Descobrir novos lugares significava, para Lawrence, ser instigado a descobrir o que realmente importa. Quanto mais particular o lugar, mais universal a verdade.

Após apenas algumas horas em um lugar, o enérgico Lawrence iria rapidamente rabiscar relatórios cheios de informações como se tivesse vivido toda sua vida ali. Para a escritora contemporânea Rebecca West, isso parecia “obviamente algo bobo a se fazer”. Apenas após sua morte em 1930, ela começou a entender que seus escritos de viagem refletiam “o estado de sua alma naquele momento” – expressando uma resposta imediata a um lugar específico. Com esse foco na experiência pessoal para capturar o espírito de um lugar, Lawrence talvez possa ser visto como o fundador da literatura moderna de viagem.

Mais conhecido por seus romances eróticos, como O Amante, de Lady Chatterley (inicialmente proibido por obscenidade nos Estados Unidos e no Reino Unido), Lawrence, no entanto, raramente é visto como um escritor de viagens. Em sua curta vida (44 anos), foi incrivelmente prolífico: 12 romances, quase 800 poemas, 12 coleções de contos, diversas peças. Ele também foi um talentoso pintor e tradutor de livros do italiano. Além dos três livros de viagem dedicados à Itália, escreveu apenas outro livro de viagens: Mornings in Mexico and Other Essays.

Mas para seus escritos de viagem, ele trouxe o mesmo vigor intenso das cenas de amor mais excitantes de seus romances. Estar vivo, apaixonadamente alerta! Experienciar, tanto quanto humanamente possível, o que o maravilhoso mundo tem a oferecer! Este é o tema constante encontrado em tudo que escreveu, mesmo quando embarcou na crítica literária normalmente séria.

“O que se quer é o real toque vital”, ele afirma em seus esboços de viagem italianos, não “uma palestra ilustrada”.

Quando os viajantes vão à Itália, são normalmente atraídos pelos romanos e pelas ruínas de seu império. Mas os etruscos, que vieram séculos antes dos romanos, também eram pessoas, Lawrence nos lembra – e, portanto, também merecedores de nossa atenção. Assim como seus romances foram libertários no tema sexual, seus escritos de viagem transcenderam o pensamento convencional.

Nos etruscos há muito tempo derrotados, Lawrence encontrou uma vitalidade que não havia na “era mecânica” do começo do século 20, na qual foi destinado a viver. O que restou de sua civilização agora desaparecida – especialmente as tumbas esculpidas em rochas vivas – reflete um “estranho espírito de lugar”. Essa percepção única de tempo e espaço, Lawrence espera, “vai esmagar nossa unidade mecânica em pedacinhos”.

Localizado no lado oeste da península italiana, de frente para o mar Tirreno, os assentamentos etruscos estavam concentrados no norte de Roma, através da Toscana, no Vale do Pó. A evidência mais antiga da civilização etrusca data de aproximadamente 900 a.C. (há debates sobre a data exata). As guerras dos romanos com os etruscos, que culminaram no século 3 a.C. levaram à total assimilação da sociedade etrusca pelos romanos.

Lawrence lamenta o esquecimento da consciência etrusca, assim como foi expressa nas esculturas e estatuária de suas tumbas. Lawrence sendo Lawrence encontra uma ressonância especial nos símbolos em pedra do falo e do útero. Em certos momentos, esse lamento torna-se polêmico igualando as poderosas ambições “mecanicistas, militaristas” de Roma com o império britânico e o fascismo italiano. Os romanos, segundo Lawrence, “odiavam o falo e a arca (útero), porque queriam império e dominação e, acima de tudo, riquezas”.

Formatado em capítulos dedicados a lugares específicos, a coleção Sketches of Etruscan Places concentra-se nas cidades de Cerveteri, Tarquinia, Vulci e Volterra. Tarquinia e suas tumbas pintadas ocupam três capítulos. Um capítulo final trata das antiguidades etruscas em um museu de Florença.

Quando se trata de passeios a museus, Lawrence parece confessar uma espécie de desatenção cansada, da qual frequentemente compartilho. E ele não tem nenhuma paciência para o Museu Arqueológico Nacional de Florença, que exibe antiguidades etruscas além de outras deslocadas de seus locais de origem. Embora reconheça que o museu “é amplamente instrutivo para quem quer lições práticas sobre os etruscos”, ele pergunta retoricamente: “mas quem quer lições práticas sobre raças desaparecidas?” O que se quer é contato. Os etruscos não são uma teoria ou uma tese. Se eles são alguma coisa, são uma experiência”.

Experiência! Era o que eu procurava enquanto um estudante do ensino médio imaturo e cheio de hormônios, quando descobri Lawrence. Seus poemas apaixonados e sua ficção picante falaram comigo – transmitindo uma sabedoria mundana que eu poderia ingenuamente fingir possuir.

Muitos anos depois, é seu livro sobre os lugares etruscos que ressoa. Sou agora muito mais velho (mas certamente não mais sábio) que o escritor quando o escreveu. Ele ainda era jovem, mas já estava morrendo de tuberculose. Ainda que isso nunca seja explicitamente mencionado nestes ensaios, ele certamente sabia que estava morrendo, de acordo com a biógrafa Frances Wilson, porque seu peso havia caído para “apenas sete stones”, cerca de 44 quilos.

O que ele realmente menciona – e de fato aborda – é a própria noção de morte. “Como se esperasse que Lázaro ressuscitasse”. Essas são as palavras que Lawrence escolhe para descrever a “investigação brilhante” de um morador de Volterra. O escritor descreve sarcófagos de alabastro translúcidos como “curiosamente vivos e atraentes”.

Tanto a morte da civilização etrusca como a morte de indivíduos etruscos são o foco da atenção de Lawrence. A forma com que se preparavam para a morte mostra que eles a encaravam como uma continuação da vida, e não seu fim. A vida após a morte não seria muito diferente de sua existência terrena neste belo lugar no coração da Itália.

Observando que os etruscos “construíram tudo de madeira – casas, templos”, Lawrence nota que suas “cidades desapareceram tão completamente quanto as flores”. Apenas as tumbas, como os bulbos, eram subterrâneos”

Espaçosas câmaras funerárias, geralmente esculpidas nas rochas para parecerem residências permanecem como as únicas construções arquitetônicas etruscas remanescentes. Dispostas como se estivessem em ruas da cidade, essas tumbas e seu mobiliário fascinaram Lawrence. Preparando-se para sua morte iminente? Os leitores naturalmente vão imaginar.

Nestes ensaios de viagem etrusca, páginas e páginas de descrições e interpretações são dedicados ao que ele encontra dentro das tumbas, incluindo varandas, colunas, itens domésticos feitos de pedra e camas de tufa. Decorações elaboradas nas paredes de calcário descrevem detalhes da vida etrusca; para Lawrence, isso mostra claramente que esse antigo povo não via a morte como algo a temer, mas simplesmente como uma continuação natural da vida.  

Essa vida está em harmonia natural com a paisagem local, cujas colinas onduladas Lawrence amavelmente descreve aos leitores como similares a ondas na água; “como se olhássemos para o mar agitado da proa de um alto navio”. Quanto a alguns trabalhos de arte encontrados dentro das tumbas, parecem “bem cozidos como espaguete”.  

Quase um século depois, suas palavras ainda não morreram e, sem dúvida, não morrerão. No dia 2 de março de 1930, com 44 anos, Lawrence, o homem, morreu exatamente do outro lado da fronteira italiana, no sul da França. Seu livro Sketches of Etruscan Places foi publicado postumamente em 1932.

Os leitores de hoje podem encontrar Sketches of Etruscan Places em uma coleção intitulada D.H. Lawrence and Italy, publicado pela Penguin tanto em edição impressa como digital. Inclui o anterior Twilight in Italy and Other Essays (1916) e Sea and Sardinia (1921), assim como um apêndice crítico escrito pelo romancista e crítico literário Anthony Burgess em 1972./ TRADUÇÃO DE LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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