Marjorie Sonnenschein
Marjorie Sonnenschein

Por que Massao Ohno foi o avô das editoras independentes de hoje

Referência para o amplo segmento de editores independentes, livro, documentário e dissertação relembram sua atuação 10 anos após seu falecimento

Gutemberg Medeiros, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2020 | 16h00

Quando o leitor entra numa livraria, dificilmente percebe o movimento corporativo que afeta o mercado editorial há anos. Por volta do final da década de 1980, solidificou-se a transição do olhar econômico se estabelecendo no mundo dos livros e com fusões ou incorporações em grandes operações de concentração. Este processo de oligopólios no mercado editorial teve início nos EUA, em 1960, e tomou a Europa nos anos seguintes. Entre outras consequências, é o fim da figura do editor renascentista, aquele que direta ou indiretamente selecionava cada título, construindo o seu catálogo com coerência interna de valores estéticos. 

Com a nova ordem editorial, a seleção de títulos é feita por profissionais de marketing priorizando a relação positiva em curto prazo entre custo e benefício. Restam os editores independentes para manter este ofício que, no Brasil, tem entre as suas principais referências Massao Ohno, falecido há 10 anos. Um de seus maiores entusiastas era o bibliófilo José Mindlin ao garantir ter mais de mil títulos em seu acervo. Para compreender o seu legado, são produzidos livro, documentário e dissertação de mestrado para traçar o retrato de corpo inteiro deste que ainda marca a cultura brasileira. 

O primeiro passo para entrar no mundo de Massao é percorrer as 322 páginas de Massao Ohno, Editor, de José Armando Pereira da Silva, que reproduz as capas e descrições de 174 obras para visualizar a ampla e diversa dessa produção. Complementando esta visada horizontal, vários aspectos são abordados na dissertação Massao Ohno: Só Poeticamente se Pode Viver, defendida na FFLCH/USP, e o documentário Editor por Editor, ambos da diretora e pintora Juliana Kase. Ela revela aspectos de como se forma o olhar de Massao materializado em sua extensa produção, com levantamentos inéditos sobre a sua vida e decodificando a inter-relação com a tradição japonesa.

Para quem tem mínima informação sobre Massao, dois nomes logo surgem: Hilda Hilst e Roberto Piva. Ele não revelou a poeta, mas foi o que mais a editou até suas obras serem publicadas pela Globo. Em agosto de 1986, Hilda Hilst recebeu pacote em papel pardo com a edição de seus poemas Sobre a tua grande face. Medindo 23 x 21 cm, a capa branca destacava negro grafismo de Kazuo Wakabayashi. Jamais o editor mostrava provas para avaliação da autora. Ela fitou a capa. Aos poucos, suave sorriso se desenhou. Ao fechar o livro, disse: “Massao é um poeta”. Este era o maior elogio que ela poderia dirigir a alguém. Entre outros títulos de Hilda, Massao também lançou aquela que é considerada sua maior contribuição à literatura brasileira na prosa poética, A Obscena Senhora D (1982), que está ganhando uma reedição em março, pela Companhia das Letras.

Massao priorizou um dos gêneros mais escanteados no Brasil, a poesia. Na síntese impressa Massao Ohno, Editor, isto é mais do que evidente. José Armando abarca esse amplo universo em capítulos temáticos a partir da primeira fase de 1959 a 1964 até seus últimos anos. Leitura refinada dessa rica trajetória buscando olhar atrás da tela, é empreendida na dissertação e documentário de Juliana Kase.

Após a sua participação como codiretora no documentário Massao Ohno: Poesia Presente (2015), dirigido por Paola Prestes, várias questões surgiram em torno da carpintaria e formação. Ambos os trabalhos partem das 30 caixas de papelão doadas pela família à Biblioteca Mário de Andrade organizado, categorizado e selecionado como parte da pesquisa. O conteúdo das caixas era composto de originais anotados, bonecos, projetos de livros, correspondências, acervo de imagens, fotolitos, entrevistas e artigos de jornais– com eventuais marginalias – e publicações.

A partir deste acervo, Kase promoveu entrevistas com editores e artistas que atuaram com Massao, incluindo amigos e familiares. O cenário do documentário foi a Biblioteca, onde promoveu encontros com os que atuaram diretamente com o editor para montar o puzzle de sua visão de mundo, do ofício e como trabalharam com o mestre que ensinava a partir do silêncio. 

Artesão do livro, assim lembra o editor Jiro Takahashi, Massao sabia tirar o melhor de gráficas. Trabalhava no chão de gráfica com os técnicos – montador e impressor –, coisa fora do comum entre editores. Ele pegava as páginas recém-impressas e, com muito respeito, sugeria pequenas alterações até chegar aos resultados imaginados, quase sempre surpreendentes. Outro momento precioso é o depoimento do editor Ricardo Redisch quando perguntou a Massao como conseguia chegar a surpreendentes combinações de cores e veio a simples resposta: “Ajudando a minha mãe com as flores”. 

Porém, o material inédito que Juliana Kase conseguiu foi entrevistando familiares do editor e percebendo o quanto trazia em si tradições japonesas, do pictórico ao editorial. Elementos fundantes decodificados para o leitor da dissertação ou quem assiste ao documentário. Além de outras tradições artísticas, especialmente europeias e centradas mais nas artes plásticas, cinema e poesia. Kase descortina como se formou esse intelectual múltiplo, editor renascentista que sabia identificar valores, especialmente jovens iniciantes. Além disso, o editor total como poucos a realizar revisão e preparação de texto. Formava editores, designers e escritores. 

O que Massao privilegia desde o início é a revelação do novo, do não conhecido ou o que não tem lugar em médias e grandes casas publicadoras. Obras com a presença constante de artistas plásticos como Kazuo Wakabaaiashi, Tomie Ohtake, Wesley Duke Lee e Tide Hellmeisnter. Busca pelo inédito como na Coleção Novíssimos ao revelar em 13 títulos poetas em publicações solo e na coletiva Antologia dos Novíssimos (1961) com Roberto Piva, João Ricardo Pentado e 22 autores. Massao também lançou o primeiro livro solo de Piva com Paranoia trazendo fotografias e desenhos de Wesley Duke Lee (1963).

O poeta Claudio Willer, também revelado nos Novíssimos com Anotações para um Apocalipse (1964), afirma que só este editor ousou publicar Piva e sua extrema radicalidade e inovação no cenário poético nacional, com tal elaboração que conjugou visões derivadas com drogas pesadas em refinado diálogo com Jorge de Lima, Murilo Mendes, Lautréamont, García Lorca, Mário de Andrade e outros.

Massao travou ainda relação com os poetas concretos e suas dissidências a partir do quinto exemplar Antologia Noigandres (1962): de um lado, com Haroldo e Augusto de Campos, Décio Pignatari, José Lino Grünewald e Ronaldo Azevedo e a revista Invenções (1962); de outro, com Mario Chanie em Lavra Lavra (1962).

A Vida Impressa a Dólar, com José Celso Martinez Correa, Sécio de Almeida Prado, Augusto Boal e outros é o documento de fundação do Teatro Oficina como companhia profissional. Também rodou títulos dedicados ao tablado: Procura-se uma Rosa – com peças de um ato de Vinicius de Moraes, Pedro Bloch e Glaucio Gil –, A Semente, de Gianfrancesco Guarnieri, Sem Entrada e Sem Mais Nada, de Roberto Freire, O Santo Milagroso, de Lauro Cesar Muniz, e Revolução na América do Sul, de Augusto Boal.

Após intervalo de sete anos, quando dedicou-se à produção em cinema com O Bandido da Luz Vermelha (1968), dirigido por Rogério Scanzerla – apesar de não constar da ficha técnica – o editor volta às suas atividades. 

Outra inovação foi o a série de pôster poema em parceria com Roswitha Kenpf com Affonso Romano de Sant’Anna, Carlos Drummond de Andrade, Ferreira Gullar, Hilda Hilst, João Cabral de Melo Neto, Vinicius de Moraes acompanhados de obras de Flávio de Carvalho, Fernando Lemos, Manabu Mabe, Ruy Pereira, e Picasso. Nos últimos anos, Massao costumava dizer que não era editor, mas designer gráfico. Publicava amigos poetas para apresentarem seus trabalhos para outros editores. Se não é verdade, é bem rimado, é bem Massao. 

*GUTEMBERG MEDEIROS É JORNALISTA, PESQUISADOR E PÓS-DOUTORANDO EM HISTÓRIA DA EDIÇÃO E DO LIVRO NA ECA/USP

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