Tasso Marcelo/Estadão
Tasso Marcelo/Estadão

Por que o riso é o melhor remédio? Este filósofo responde

Pensador inglês Terry Eagleton analisa o humor em seu novo livro, publicado no Brasil em momento oportuno

Paulo Nogueira, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2020 | 16h00

Nestes tempos patibulares em que, quando muito, é viável um humor negro, e os brasileiros - se tanto - esboçam um sorriso amarelo – bom, é útil entender a natureza de uma das marcas da condição humana: a comédia. A outra – a tragédia – a gente já sabe de cor e salteado. 

O Humor, de Terry Eagleton, é um clássico contemporâneo no assunto. O autor é freudiano e marxista – mas não daqueles que reduzem tudinho a um automático e simplório determinismo econômico. Tem vários livros editados no Brasil (meus preferidos são Para Ler Literatura e A Tarefa do Crítico).

Se para ser técnico de futebol não precisa ter sido jogador, para escrever sobre o cômico convém gostar de piada. Como Eagleton cutuca, “Nas prateleiras das livraras há muitos estudos sobre o humor, desprovidos de humor.” Não é o caso dele, talvez por ter nascido na Inglaterra, pátria do “wit”, uma espécie de astúcia espirituosa. “A liberdade dos ingleses não jaz em uma vida de vigorosa iniciativa ou ambiciosos esquemas de autodesenvolvimento, mas na liberdade de serem eles mesmos. É a liberdade de ser deixado em paz — não para perseguir algum objetivo prodigioso, mas para cuidar do próprio jardim. Os ingleses fazem esforços extraordinários para evitar uns aos outros ou fingir que seus compatriotas não estão mesmo ali. Sua celebrada reserva é menos hostilidade pelos outros que a obstinada determinação de deixá-los em paz.” A tal história: inglês é tão ordeiro que faz fila de um.

Na literatura ocidental a primeira risada ressoa logo no berço: o Livro 1 da Ilíada, quando os deuses zoam Hefesto, o deus do fogo, porque ele é manco. Na República, Platão relega a comédia aos escravos e aos estrangeiros. Aliás, ele também bane a poesia, e poemas e piadas têm muito parentesco – incluindo a proeminência do som, da fonética, do ritmo (bem maior do que na prosa). 

A palavra “humour”, em sua origem, significava relevar caprichos e fraquezas. Beleza pura? Mais ou menos: “Se homens e mulheres não fossem tão tolos, não precisariam de tal paparico. Nesse sentido, o humor deprecia a humanidade, mas também constitui um louvável exemplo dela.”. Daí que o humor seja essencialmente ambíguo, e anarquista por definição (uma arte pela arte, que não quer edificar, mas se autogratificar com o riso).

Porém, há diferença entre riso e humor. “O bom humor é mais comum que o riso. Ao passo que o humor necessita de um objeto, o riso pode surgir do simples prazer com a companhia de alguém. Quando uma plateia urra de rir, reage a uma situação no palco, mas também à animação uns dos outros.” 

É que, assim como a dança, o riso é uma linguagem do corpo. Por que rimar humor e dor? Porque faz sentido: “Como ocorre com o luto, a dor extrema, o medo intenso ou a raiva cega, o riso envolve uma perda do autocontrole físico na qual o corpo fica por um instante perdido, e regredimos ao estado descoordenado de um bebê. James Joyce falou, em Finnegans Wake, das laughtears [risadas-lágrimas], Darwin indicou que o riso pode ser confundido com pesar, e ambos os estados podem envolver copiosas lágrimas. Em O Macaco Nu, Desmond Morris argumentou que o riso evoluiu do choro.” Talvez por isso rir seja o melhor remédio.

O humor, claro, implica a melindrosa questão do politicamente correto. Pimenta nos olhos dos outros é refresco? Acontece que o humor genuíno não é contra esta ou aquela ideologia, mas, se bobear, contra a própria moral e lógica humanas (como no nonsense). Daí ser contraproducente a piada chapa branca. Como indicou o psicanalista Sandor Ferenczi, “um indivíduo totalmente virtuoso e um indivíduo totalmente vil não ririam.” E por isso o humor é tão democrático: para rirmos dos outros, devemos aceitar que riam de nós. Afinal, tudo é engraçado, desde que aconteça a terceiros. E cada macaco no seu galho: fornecer soluções é tarefa dos legisladores, não dos humoristas.

O critério pode ser facultado pela decência, ou aquilo que Aristóteles chamou de “fronese”, ou como intuir se a piada é apropriada ou não. Quando um Presidente da República diz que é “Messias mas não faz milagre”, tripudia sobre cadáveres e a dor de milhares de famílias. Não é engraçado: é abjeto (do ponto de vista humano) e muar (do ponto de vista político). Bem, é como disse o autor israelense Amos Oz: “Nunca vi um fanático bem-humorado.”

Na criação literária, que é a minha praia, rir de si mesmo é um trunfo para o protagonista. O personagem que fica chorando as pitangas é um chato de galocha. De resto, como notou André Breton, o sentimentalismo é o oposto do humor (e, acrescento eu, do verdadeiro drama). A romancista Angela Carter descreveu a comédia como “tragédia que acontece com os outros”, ao passo que Mel Brooks observou que “tragédia é quando eu corto o dedo, e comédia é quando alguém cai em uma valeta e morre”. E tem aquela expressão francesa: “Qui s’accuse, s’excuse” (quem se acusa, se desculpa). 

Outra sacada arguta de Eagleton é a distinção entre anedota e epigrama: “A piada é um modo cômico mais impessoal e pode circular, como uma moeda, de mão em mão, ao passo que as melhores tiradas espirituosas levam a marca pessoal de seu autor. Elas são mais citadas que repetidas. É o tipo de comentário que, mais tarde, desejamos ter feito nós mesmos.” O Pelé do aforismo foi Oscar Wilde, que povoa no mínimo 20 por cento dos melhores dicionários de citações. 

Um dos recursos clássicos do epigrama e do humor em geral é o impacto entre itens incongruentes, uma espécie de súbita rasteira no sentido convencional. Grande parte do humor de Woody Allen se baseia naquilo: “Não há dúvida de que existe um mundo invisível. O problema é quão longe ele fica do centro e até que horas fica aberto.”

O humor não é utilitário, mas pode ser bem útil: “Uma de suas funções mais tradicionais tem sido a reforma social. Se homens e mulheres não podem ser convencidos à virtude através da repreensão e do sermão, talvez o sejam através da sátira.” Por falar em homens e mulheres, a batalha entre os sexos começou a virar o jogo quando elas ridicularizaram a arrogância sisuda deles. Mas, sendo o humor o que é, claro que ele acabou rindo também da meritória evolução dos costumes (rir de si mesmo não vale só para personagens de ficção). Como naquela piada em que duas millennials estão papeando, e uma delas resmunga: “O mundo está mesmo perdido. Hoje a gente vai pra cama com um cara, e no dia seguinte ele já quer nos convidar pra jantar.”

Ah, sim: é fisiologicamente possível morrer de rir. Mas acho que neste momento os brasileiros não corremos esse risco. Ao menos esse. 

O Humor

Autor: Terry Eagleton 

Tradução: Alessandra Bonrruquer

Editora: Record

154 páginas

R$ 49,90

R$ 34,90 (e-book)

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