Jim Young/Reuters
Jim Young/Reuters

Por que parece impossível imaginar uma alternativa ao capitalismo, segundo este livro

'Realismo Capitalista', de Mark Fisher, faz crítica do conformismo contemporâneo

André Jobim Martins*, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2020 | 16h00

“Cada época sonha a seguinte”, disse Walter Benjamin – na verdade citando Michelet – na abertura de seu estudo inacabado sobre o surgimento da imaginação moderna em Paris, que, em expressão célebre da mesma obra, o pensador marxista chamou de “capital do século 19”. Adaptando à estética neoclássica os materiais construtivos disponibilizados pela industrialização – ferro fundido e vidro – as passagens cobertas parisienses, com vitrines que exibiam um luxo exuberante, absurdo, irracional para qualquer padrão anterior, materializavam, para Benjamin, não tanto a visão deliberada que a nascente era burguesa edificava de si mesma, mas imagens formadas por lampejos de um inconsciente indomesticado. Imagens onde a técnica moderna se conformava a estímulos de uma imaginação onírica, primeva, reminiscente de uma sociedade sem classes, juntando o novo e o antigo.

Uma energia crítica parecida anima Realismo Capitalista, o ensaio curto e luminoso de Mark Fisher (Autonomia Literária). Os sonhos, aqui, já não são os de uma burguesia triunfante e seus enfants terribles como Baudelaire, mas nascem da paisagem cultural dos reality shows e das instituições burocratizadas sob o neoliberalismo – universidades, serviços de saúde, call centers, e até forças policiais. Uma época incapaz de trazer à tona verdadeiras novidades. Talvez o pessimismo cultural seja o mais controverso aspecto do livro para leitores que se mostrariam, de outro modo, simpáticos ao seu estilo de argumentação.

O que é “realismo capitalista”? O conceito parece admitir algumas acepções, e a mais óbvia – a de uma postura de resignada transigência diante da realidade capitalista, sintetizada no slogan thatcheriano “não há alternativa” – parece excessivamente limitada diante da força crítica do livro. A partir de manifestações da vida contemporânea, delineia-se um complexo de representações e atitudes mentais que fundamentam nossa compreensão do mundo. O “realismo” de Fischer não é uma disposição psicológica diante do “real”, mas o próprio tecido intelectual da realidade. Analisando desde o Castelo de Kafka até a Supernanny, Fisher se interessa tanto pela investigação dos mecanismos estruturantes dessa realidade, que se reproduz na forma de estruturas mentais que interditam a sua própria crítica, produzindo um mundo que combina mudança constante com estagnação cultural, quanto pelas possibilidades de sua superação, discutidas no capítulo final.

Os exemplos trabalhados são vários, sempre confrontados com intercessores intelectuais estimulantes, como Wendy Brown, Fredric Jameson e Slavoj Žižek. Tome-se o caso do hoje esquecido filme Como Enlouquecer seu Chefe (1999). Uma garçonete interpretada por Jennifer Aniston trabalha num restaurante onde os atendentes devem usar broches coloridos para “expressar sua personalidade”. Usar o número mínimo sugerido pela gerência, entretanto, não é considerado suficiente, pois não chega a ser satisfatório – palavra que, na “cultura da auditoria” neoliberal, é motivo de alarme para aqueles cujo desempenho é assim qualificado. Fazer exatamente o que manda a regra é a mais cabal manifestação de má vontade da força de trabalho. É preciso demonstrar proatividade. Analogamente, instituições de ensino cujo financiamento depende de sistemas de avaliação de performance são amigavelmente estimuladas pelos próprios fiscais a falsificar seu desempenho, representando-o pior do que de fato é – segundo a métrica burocrática, é claro – pois isso demonstra um dos valores pressupostos no sistema, o saudável hábito da autocrítica. Isso, nos sistemas internos, onde a faculdade “terceiriza” para si mesma a sua própria avaliação, que teoricamente poupam o inconveniente da avaliação externa, mas, na prática, tornam permanente e introjetam nos professores uma atitude de permanente autovigilância, da qual passa longe qualquer preocupação vagamente pedagógica.

Para Fisher, mecanismos como esses – inscritos sob a rubrica “stalinismo de mercado” – não são expressões de uma inteligência centralizadora. Na verdade, ficções conspiratórias sobre uma vontade maligna são apenas mecanismos mentais de racionalização – ficções “realistas”, se assim quisermos – que acomodam à consciência a irracionalidade impensável do “capitalismo realmente existente”. Por outro lado, a ampla desmoralização dos discursos oficiais – por exemplo, a ideia de multinacionais com “responsabilidade social”, o poder otimizador dos mecanismos burocráticos de compliance, ou a ideologia do empreendedorismo – não significa o fortalecimento de alternativas a essa realidade. É a própria desobrigação de partilhar do discurso oficial e a dissonância entre ele e “como as coisas de fato se dão” permite ao indivíduo preservar-se numa atitude cética e distanciada que garante o bom funcionamento da ordem.

O realismo capitalista se sustenta, assim como antes o stalinismo, sobre um “grande Outro”. Essa figura não corresponde a nenhum indivíduo específico ou estrutura de poder concreta, mas numa “ficção coletiva” sobre a qual se sustenta a ordem simbólica. O “grande Outro”, num caso mais concreto, seria alguém que acreditasse genuinamente que as campanhas publicitárias de apps de entrega em apoio a seus entregadores garantem segurança e bem-estar para os motoboys, assim teria sido, no passado, uma figura que acreditasse piamente em toda propaganda disseminada pelo “socialismo realmente existente”. A relação cínica que ainda é possível manter com esse tipo de ficção – não a crença efetiva nela – é o que lhe dá eficácia. Daí, lembra Fisher, o efeito devastador da denúncia de Stalin por Kruschev em 1965, ainda que poucos efetivamente acreditassem no conteúdo da propaganda oficial.

Publicados pela primeira vez em 2009, alguns dos prognósticos e críticas de Realismo Capitalista parecerão agora um pouco datados. É discutível a confiança com que o ensaísta anuncia a morte dos deuses do capital. Alguns deles continuam bem vivos no Brasil de 2020, onde parte do mercado editorial garante sobrevida com lançamentos sobre a “mente bilionária”, “startups unicórnio” e outras criaturas da mitologia tardio-capitalista. Seja como for, não há dúvida de que esse pequeno ensaio continua por muitos aspectos bem realista, e talvez tenha se mostrado, como prega a sabedoria popular sobre os pesadelos, premonitório.

*ANDRÉ JOBIM MARTINS É HISTORIADOR

 

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