Liam Daniel/Netflix
Liam Daniel/Netflix

Por que romances históricos centrados em mulheres são questionados quanto à verossimilhança?

Há muito tempo, a história tem sido contada por meio das lentes dos homens brancos e considerada importante (ou não) por essas mesmas pessoas

Vanessa Riley  , Especial para The Washington Post

18 de junho de 2021 | 10h00

Os romances históricos centrados em mulheres estão na moda, sobretudo por revelarem histórias pouco conhecidas. A resistência a essas narrativas que mostram heroínas independentes, talentos ocultos e conquistas extraordinárias tem diminuído, mas somente depois de uma árdua batalha. Talvez as mulheres tenham vencido a guerra e possamos contar as histórias de nossas ancestrais sem o temido ataque da velha guarda - um patriarcado acostumado a controlar a narrativa e usar a expressão “rigor histórico” como uma arma.

Não faz muito tempo, lancei meu primeiro romance histórico que focou em personagens marginalizados como heróis da Regência Britânica. Apesar da exatidão de minha história, fui espetada por questões em relação ao rigor histórico. Os críticos pareciam verdadeiramente desconhecedores de que as mulheres em qualquer época não se comportavam como uma pedra. Outros não sabiam da diversidade da história da Inglaterra ou seus profundos laços coloniais com a África e as Índias Ocidentais. Alguns sugeriram que a mera existência dessa obra era uma forma de atribuir culpa à sociedade por ignorar a riqueza procedente da escravidão.

A ferocidade das reações foi inesperada. A raiva era incontrolável. Alguns reclamavam da minha audácia - como ouso dar às mulheres negras vontade própria, vestidos de baile e o privilégio de se casarem com nobres?

Também ouvi muitas variações de "nunca" (nunca gostaria de visitar negros quando sua liberdade estivesse em risco) e “não posso”, como em “não posso acreditar nesta versão da história", embora a mensagem implícita fosse clara: "Não posso ceder a você a licença para escrever isso."

Uma conversa encorajadora com minha mentora lançou luz sobre minha perspectiva em relação a tudo isso. Beverly Jenkins, autora de Wild Rain (Chuva selvagem, em tradução livre) entre quase outros 50 romances, metaforicamente enxugou minhas lágrimas e sugeriu adicionar uma "nota da autora" mais detalhada aos meus livros, como ela fez com o seu primeiro, Night Song (Canção da noite, em tradução livre), e todos os demais desde então. Esta observação vai além das motivações da história e anacronismos exigidos pelo enredo e inclui definições, recomendações de livros, arquivos online e, às vezes, uma bibliografia.

Há muito tempo, a história tem sido contada por meio das lentes dos homens brancos e considerada importante (ou não) por essas mesmas pessoas. Beverly entende que um relato mais detalhado mudará isso e permitirá "um mergulho mais profundo em nosso tema, com documentação para aqueles que negam as vastas contribuições realizadas por mulheres e pessoas marginalizadas".

Dez romances históricos depois, incluindo o recém-publicado An Earl, The Girl, and A Toddler (Um conde, uma garota e uma criança, em tradução livre), com direito a uma nota da autora ao estilo Bridgerton, recheado com fatos sobre poderosos homens negros que foram defendidos pelo Príncipe Regente (filho da rainha Charlotte), acho a recepção dos meus romances muito diferente, e as entrevistas por Zoom mais tranquilas. As perguntas são menos em relação à fantasia e mais a respeito de quais técnicas usei para reunir minha pesquisa. Quero acreditar que o bastão do rigor histórico foi completamente destruído, para que seu golpe nunca mais seja sentido. Conversei com algumas das minhas amigas, colegas que escrevem romances históricos, para ouvir seus pensamentos acerca do tema.

Eloisa James, autora de mais de 35 romances históricos e da nova história de amor Lizzy and Dante (Lizzy e Dante, em tradução livre), sempre escreve uma nota da autora sobre eventos históricos e “descobriu que alguns leitores tratam a nota do autor como o início de uma conversa”. Kate Quinn, autora de uma dúzia de romances históricos, entre eles The Rose Code (O código rosa, em tradução livre), tem um ponto de vista diferente. Ela se sente “moralmente obrigada a contar ao leitor qualquer mudança feita nos registros históricos a serviço da narrativa”. Em suas pesquisas, Kate encontra mulheres maravilhosas fazendo coisas incríveis e atípicas. A precisão de sua pesquisa nunca é questionada.

Chanel Cleeton, autora de quatro ficções históricas e 10 romances, é mais comedida. Em The Most Beautiful Girl in Cuba (A garota mais bonita de Cuba, em tradução livre), diz Chanel, "alguns dos eventos bizarros podem parecer fictícios, mas eu queria que os leitores soubessem que vinham de registros históricos e como a história moldou meu processo de escrita".

A autora estreante de Wild Women and the Blues (Mulheres selvagens e o blues), Denny S. Bryce, tem uma visão semelhante. Ela queria compartilhar "materiais que foram fontes para algumas de minhas pesquisas, pois isso afastará perguntas sobre fatos versus ficção". Outra escritora estreante na ficção histórica, Sadeqa Johnson, autora de Yellow Wife (Esposa amarela, em tradução livre), vê na nota do autor uma oportunidade "para dizer por que fui atraída para escrever aquela história".

Se houve uma escritora cujas experiências refletem a minha, foi Piper Huguley, um autora de 10 romances históricos e da ficção histórica prestes a ser lançada, By Design: The Story of Ann Lowe, Society's Best Kept Secret (De propósito: A história de Ann Lowe, o segredo mais bem guardado da sociedade. Ao não colocar uma nota detalhada em seu primeiro romance, ela teve que "responder a perguntas supérfluas" em relação aos fatos históricos que mencionou. "Eu passei a colocar sempre [uma nota da autora] desde então", diz ela, e "as perguntas fáceis sumiram”. Suas observações respondem aos possíveis "nuncas" e "não posso". E Piper pode então focar em assuntos mais importantes, como escolhas de enredo.

Sabrina Jeffries, autora de mais de 50 romances históricos e do recém-lançado Undercover Duke (Duque disfarçado, em tradução livre), assume uma postura progressista. Ela descreve seu trabalho como "fantasias históricas, semelhantes aos contos de fada" porque está escrevendo a respeito de exceções como se elas fossem corriqueiras. "Muitas pessoas eram capacitistas, sexistas e racistas no período [da Regência Britânica], mas ainda havia outras que não eram. Embora se esperasse que as mulheres se casassem, muitas não fizeram isso. Meus heróis e heroínas não são pessoas comuns, é isso que os torna heroicos."

A análise de Sabrina me deixou sem palavras. Eu a felicito por apoderar-se da dissimulação patriarcal da fantasia, dando um tapa nela com um toque de empoderamento e escrevendo a história que ela quer contar.

Embora agora eu compreenda o campo de atuação e perceba os avanços, meu hábito de incluir uma nota da autora extremamente detalhada, com definições e fontes, nunca deixou de existir. Minha próxima ficção histórica, Island Queen (Rainha da ilha, em tradução livre), inclui um ensaio e uma bibliografia. Isso deve reforçar as discussões a respeito da jornada de uma mulher escravizada para se tornar uma das mulheres mais ricas do Caribe e de sua luta vitoriosa contra a autoridade colonial.

Minha extensa nota é munição, arrogância ou exagero? Talvez um pouco dos três. É sem dúvida um vestígio de velhos confrontos, e não tenho mais vergonha de trazer toda a minha armadura para o campo de batalha.

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Vanessa Riley é autora de 10 romances históricos. Sua ficção histórica, "Island Queen" (Rainha da ilha, em tradução livre), será lançada em 6 de julho nos Estados Unidos.

TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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