'Por que voltei a Harvard'

O ex-'ministro do futuro' de Lula retoma sua cátedra nos EUA, mas mantém um olho na eleição de 2010

Ivan Marsiglia, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2009 | 10h54

Reinstalado em seu escritório em Cambridge, nos EUA, o ex-ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos, Roberto Mangabeira Unger, fez questão de enviar por e-mail ao repórter do Aliás o calhamaço de documentos que entregou ao presidente Lula na terça-feira, com sua carta de demissão. O arquivo era tão pesado que o provedor o devolveu. "Veja a gravidade de minha situação", disse Mangabeira, acrescentando um tom bem-humorado a seu conhecido sotaque americano: "Não consigo distribuir minhas propostas para o País porque elas superam o espaço da caixa postal. É um mau sinal".

 

De volta à sua cátedra na Universidade Harvard depois de dois anos em Brasília, o carioca que aos 26 anos tornou-se o mais jovem professor titular da história de uma das mais prestigiadas instituições de ensino dos EUA está mudado. Ele, que já se disse um homem desprovido do "charme" típico dos brasileiros, trouxe da convivência com Lula mais que seu conhecido senso de humor. A experiência nas entranhas do poder e "no interior do interior" do Brasil, que percorreu em suas andanças como ministro, aprofundou "a intuição que tinha sobre o País". Para o intelectual que Caetano Veloso quer ver na Presidência, o Brasil é um vulcão de vitalidade que ainda não encontrou nas instituições a sua mais completa tradução.

 

Aos 62 anos, o ex-ministro se diz otimista com o futuro nacional e só se irrita quando perguntado sobre a briga que teve com ambientalistas na discussão do Plano Amazônia - que resultou, dizem, na derrubada da ministra Marina Silva. Sobre 2010, Mangabeira jura que ainda busca o nome mais adequado a seu projeto, seja Dilma Rousseff, Ciro Gomes ou até José Serra - sem descartar a hipótese de ser, ele próprio, candidato. E confessa: "Estou contando cada minuto até meu regresso ao Brasil".

 

BYE-BYE, BRASIL

"Tive que conciliar meus compromissos cívicos com obrigações pessoais, com minha mulher, Tamara Lothian, e nossos quatros filhos, dos quais estava afastado havia dois anos. E com minha cátedra na Universidade Harvard. Renunciar a ela é uma decisão que não tomo de forma leviana. Fico agastado quando falam nisso como se se tratasse de abdicar ou não de uma benesse. É uma instituição que sempre me apoiou e só exige que reafirme meu vínculo com ela. Se tivesse um horizonte temporal considerável na pasta, não hesitaria em renunciar à cadeira - como não hesitarei no futuro.

 

FUTURO DO PRETÉRITO

"Ensino em Harvard três meses por ano, então posso desdobrar meu trabalho no Brasil. O presidente Lula generosamente propôs que eu colaborasse na construção da ‘Proposta do Futuro’, com que ele pretende coroar seu governo, no início do ano que vem. Farei isso como voluntário e na medida em que ele achar útil. E viajarei o Brasil para discutir as ideias. Entendo esse meu afastamento como relativo e temporário.

 

PESQUISA DE CAMPO

"Saio da experiência no governo intensamente energizado. Sou uma pessoa naturalmente esperançosa, mas encontrei mais razões para isso. Percorri o País falando com gente de todas as classes sociais, dos mais endinheirados aos mais pobres. Eu não tinha nada a oferecer a não ser ideias, e ainda assim fui recebido com entusiasmo. Essa experiência aprofundou uma intuição que eu tinha sobre o Brasil: a de que o atributo mais importante do País é sua vitalidade. O Brasil é vida, um turbilhão de dinamismo. Fervilha de anarquia criadora e dinamismo empreendedor, mas tem uma vida pública tosca, que lhe impõe uma camisa de força.

 

A TEORIA, NA PRÁTICA

"Há um descompasso entre o que o Brasil é hoje e suas instituições. É preciso reconstruí-las pedaço por pedaço, passo a passo, para dar expressão a essa nova classe média, mestiça, de milhões que lutam para abrir pequenos negócios e inauguram uma cultura de autoajuda e de iniciativa no País. Como? Nas relações entre capital e trabalho, por exemplo, não temos uma grande iniciativa desde Getúlio Vargas. Hoje, mais de um terço da população economicamente ativa está na informalidade, um escândalo. A solução passa por uma desoneração radical da folha de salários. Mesmo na economia formal, parte crescente dos contratados são trabalhadores temporários, terceirizados ou autônomos. Propus regras que complementem a CLT para proteger e representar essas pessoas. Terceiro problema: a queda da participação dos trabalhadores na renda nacional. Para revertê-la, não basta a política de aumentos do salário mínimo. É preciso regular em lei o preceito de nossa Constituição sobre a participação dos trabalhadores nos lucros das empresas.

 

DIÁLOGO COM LULA

"Construímos uma relação calorosa. É voz corrente no Planalto: não entendem o surto de simpatia que ele teve por mim (risos). Claro, em qualquer governo nenhum ministro concorda com tudo. Mas não seria correto eu fazer um boletim ao sair. E essa não é a maneira certa de se avaliar o êxito de uma experiência histórica. Cito um comentário que se fez a respeito do New Deal: ‘Todas as iniciativas do presidente Franklin Roosevelt malograram, mas o New Deal como um todo foi um êxito’. A política transformadora não é um amontoado de ações desconexas, é uma correnteza. O que importa é a direção geral.

 

A RUSGA COM MARINA

"Não houve enfrentamento (com a ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva). Tenho grande admiração por ela e acho que, no conjunto, sua ação foi benéfica para o País. O que não quero e não me conformarei é em deixar que 61% do território brasileiro seja usado como massa de manobra para fantasias ideológicas. Alguns grupos, do sul, sudeste e de fora do País, queriam para a Amazônia um regime jurídico diferente de tudo o que é moderno. Era um atavismo, a ideia da família camponesa feliz, derrotada na Baviera e no Piemonte no início do século 19. Um projeto para a Amazônia tem que ser includente e sustentável, valer tanto para as árvores como para as pessoas.

 

NO PLANALTO, EM 2010

"Não podemos ter uma eleição em que de um lado o tema seja ‘choque de gestão’ e, de outro, ‘obras’. O País tem que enfrentar suas encruzilhadas institucionais. Conheço a Dilma há 25 anos, desde que me convidou para uma série de visitas ao Rio Grande do Sul. Tenho também respeito por José Serra, mas não o conheço proximamente. E mantenho uma relação próxima com Ciro Gomes, que já apoiei. Uma opção para mim é trabalhar com um projeto em construção. Outra, ter uma ação cívica independente, como candidato. Seria hipócrita negar que imagino todas as possibilidades, masnão as encaro como caprichos pessoais: elas vão depender da realidade política.

 

ENTRE BRASÍLIA E WASHINGTON

"Não tenho interesse em agir como intermediário, nem o governo brasileiro precisa disso. Mas quero intervir no plano das ideias. Tenho muitos amigos no governo americano. É preciso compreender que os EUA estão em um momento de inflexão, e a mudança de governo é apenas sua manifestação mais superficial. Os americanos estão buscando uma sequência ao projeto de Roosevelt, paralela àquela que empreendemos hoje no Brasil - a de um modelo de desenvolvimento baseado na ampliação de oportunidades econômicas e educativas. Somos o país mais parecido com os EUA no mundo: duas sociedades muito desiguais, nas quais a maior parte das pessoas comuns continua a julgar que tudo é possível. São sociedades cheias de peregrinos, de aventureiros, de pessoas inconformadas e à busca. Em momentos de ebulição mundial como este, todos estão à mercê de suas ideias. E as ideias andam muito pobres. Não sou apenas brasileiro, sou um cidadão do mundo, que não crê em soluções apenas nacionais. Acredito que o mundo todo está ligado por uma cadeia de analogias. E, na medida em que estiverem dispostos a me ouvir, vou falar. De Harvard ou de onde estiver. Mas estou contando cada minuto até meu regresso ao Brasil."

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