Por trás da máscara

Sexualidade, raça, gênero e religião ganham papel de destaque na agenda política do País

Flávia Tavares e Ivan Marsiglia, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2008 | 21h15

Uma peça do marqueteiro João Santana incendiou a campanha eleitoral que parecia fadada a um desfecho óbvio e sem sobressaltos em São Paulo. Após a arrancada surpreendente que o colocou na dianteira de Marta Suplicy no primeiro gratuito. "Você sabe mesmo quem é o Kassab?", provocava o locutor antes de levantar questões sobre seu passado político, culminando com as ardilosas perguntas: "É casado? Tem filhos?"   Veja também: O retorno da intimidade Por que Obama não dispara? O rastilho estava aceso e uma explosão de indignação ecoou entre formadores de opinião antes de ganhar as ruas, botecos e pontos de táxi, com impressionante poder de propagação. A insinuação não ousou dizer o nome até alguém da platéia de uma sabatina do jornal Folha de S. Paulo escancarar o interdito: "O senhor é homossexual?" Um enrubescido Kassab retorquiu: "Não". Depois, completou: "Está cheio de mulher querendo casar comigo".O espanto com a propaganda foi maior por ter partido do staff de uma candidata que construiu sua história política e pessoal enfrentando preconceito e discriminação. Marta disse que houve "desvirtuamento" no entendimento da mensagem, mas acusou o golpe. Para Lilia Moritz Schwarcz, professora titular do departamento de antropologia da USP, questões de gênero, raça, classe, religião e orientação sexual têm centralidade na agenda político-eleitoral tanto do Brasil como dos EUA - de onde ela acaba de retornar após lecionar um semestre na Universidade de Columbia. Autora de O Espetáculo das Raças (1993) e O Sol do Brasil (2008), Lilia coloca de lado o politicamente correto para afirmar que tanto Marta como Kassab "estão agenciando positiva e negativamente marcadores sociais" na tentativa de mobilizar o eleitor paulistano. Ao justificar a menção à vida pessoal de Kassab, Marta disse que "a vida é política". Você concorda?Essa é uma afirmação um pouco tautológica. A gente poderia inverter e dizer que "a política é a vida". O problema não é trazer a vida privada ou a intimidade para o debate político - acho legítimo quem usa e quem não usa também. O problema é transformar a vida privada em um valor, é como se agencia politicamente essa diferença. De que maneira sexualidade, raça, gênero, entram na agenda política?A política brasileira tem uma boa dose de dissimulação. Isso é parte do nosso modelo do "preconceito de ter preconceito". No Brasil, praticamos o preconceito, mas não admitimos a existência dele. E a verdade é que existem vários elementos que, vira e mexe, são acionados pela agenda política para constituir hierarquias. Raça, gênero, idade, etnicidade, classe, religião são marcadores sociais de diferença com papel fundamental e têm assumido, não só no Brasil, uma centralidade na agenda política. Uma vez que esses marcadores são construções sociais, locais e históricas, é interessante como a agenda política produz essas hierarquias sociais. Ou seja, você pode usar um marcador tanto para o prestígio como para a poluição, a detração. E o que os transforma em estigmas sociais ou sinais de prestígio?Vamos pegar o exemplo do feminismo de Marta Suplicy. Ele pode ser usado como símbolo de independência, autonomia, mas também para detração, como símbolo de fragilidade. Outro exemplo é a resposta que Kassab deu ao questionamento sobre sua vida pessoal. O silêncio inicial foi interessante, era um silêncio para partilhar situações sociais, para tentar denunciar de que maneira ele estava sendo atingido. Mas, quando ele usa da palavra política, o que faz? Aciona outro preconceito: "As mulheres estão atrás de mim". Essa é uma fala preconceituosa, não há dúvida. Ambos os candidatos estão agenciando positiva e negativamente marcadores sociais de diferença, dependendo do contexto.Esses marcadores funcionam diferentemente para faixas de eleitorado diversas? Por exemplo, Barack Obama pode se apresentar "mais negro ou menos negro" de acordo com o eleitor que quer atingir?Os marcadores sociais são construções relativas, simbólicas, e os símbolos agem dentro de estruturas relacionais, em contexto. Podem ser positivos ou negativos dependendo da forma que são usados. E o problema não é diferenciar, é hierarquizar, qualificar a diferença. Na eleição americana, enquanto puderam os pré-candidatos evitaram a discussão sobre gênero e raça. Somente quando Hillary Clinton percebe que vai perder, ela parte para o tudo ou nada e introduz essa discussão. Tratava-se de definir se os EUA votariam contra um negro ou não. Ou se seria possível transformar um marcador supostamente negativo em positivo.Então no caso da campanha de São Paulo a eleição estava ameaçando pender para um lado e se introduz a questão para mudar o resultado?Sim. É interessante como se pode sempre manipular para os dois lados. O fato de Marta ter apenas insinuado que o prefeito seria homossexual mostra como nos envolvemos nessa dissimulação e como os símbolos só fazem sentido num universo partilhado. Se não partilhássemos desse universo, a pergunta sobre se ele é casado e tem filhos não resultaria em nenhuma comoção social. O que faz dela um evento? O fato de ela acionar uma série de valores partilhados - como a idéia de que um prefeito tem que ser casado.Como Fernando Gabeira, que sempre desafiou padrões convencionais de masculinidade e defendeu bandeiras polêmicas como a legalização das drogas, se apresenta com chances de ganhar a prefeitura no Rio? Superou os estigmas?As identidades são fenômenos contrastivos. Não temos uma identidade absoluta, ela não é uma essência - é uma construção. Posso agir de tal maneira a acumular outras imagens. Parece que, atualmente, outras imagens do Gabeira são mais fortes. Além do mais, ninguém tem obrigação de defender suas diferenças, colar-se uma etiqueta. Isso é um resíduo do "politicamente correto", que é a pior coisa que existe. É importante pensar por que no atual contexto a "doideira" do Gabeira vem sendo mais vinculada a uma política saudável, da legalidade, do que à questão do seu comportamento pessoal ou do uso de drogas. Os candidatos articulam normas ao negar, afirmar ou questionar a homossexualidade, por exemplo. Quando se pergunta se o Kassab é casado ou quando ele responde que há mulheres atrás dele, estão se manipulando convenções sociais.São Paulo tem a maior passeata gay do mundo e parece lidar com cada vez mais naturalidade com a homossexualidade. Por que o tema é interditado no debate político? A resposta já está na pergunta. É porque temos espaços convencionalmente determinados onde nos portamos com "naturalidade". Então, é "natural" que num determinado domingo vamos todos a uma avenida e mostremos como partilhamos esses valores. Ora, se fosse tão natural, os candidatos usariam a homossexualidade em seus discursos. O fato de ela ser silenciada é o outro lado da pergunta da Marta, que é um grande interdito. A questão está lá, presente o tempo todo. E muitas vezes não dizer é mais operante do que dizer. Vamos focar no preconceito racial: as coisas estão mudando, mas ainda opera no Brasil um preconceito silencioso. E não há como debatê-lo se a sociedade nega que exista. Esse interdito é uma estratégia para atingir o eleitorado das igrejas neopentecostais, onde o gay é tratado como doente, por exemplo? Estaria João Santana sendo "diabólico" ao lidar com a questão?Olha, eu não diabolizo nada. Mas o uso da pergunta é muitas vezes mais categórico do que se supõe. O filósofo Gilles Deleuze falou que uma ou duas boas perguntas movem mais do que um punhado de certezas. Uma pergunta bem feita no lugar certo gera mais estrago do que a afirmação, que leva a uma aceitação ou negação. A pergunta é dissimuladora, porque aciona uma série de convenções, mas para todos os efeitos você não disse aquilo. É o que estamos chamando aqui de interdito. Algumas figuras históricas do Brasil estiveram envolvidas em escândalos pessoais, como Carlota Joaquina ou D. Pedro I. Aparentemente, havia tolerância em relação a isso. Estamos menos tolerantes? Ou mais "politicamente corretos"?Difícil responder. O risco do historiador é o anacronismo. Mas Carlota Joaquina não foi aceita e Pedro I foi. O fato de o homem no Brasil ter muitas mulheres, a virilidade, é um marcador positivo, em geral. Já no caso das mulheres, a idéia de uma fúria sexual não cai bem publicamente. Carlota Joaquina ficou para a história como uma rainha traidora em todos os sentidos. O oposto de Pedro I, sobre o qual paira uma simpatia. Outro contraste interessante é entre Pedro I e Pedro II. O pai só foi acusado de ter várias mulheres depois que caiu. Aí sim usaram o marcador como negativo, porque o contexto era outro. E Pedro II foi criado como a antiimagem do pai, embora tenha tido amantes também - mas isso não era usado politicamente.Em Pernambuco, especialmente, valoriza-se muito a virilidade do homem público. Já o "corno" não se elege para nada...Isso é no Brasil todo. Que o homem tenha amante é virilidade. Que a mulher tenha, é mais complicado. Basta ver o que aconteceu com a Marta na época de seu divórcio. Vamos lembrar a imagem de Eduardo Suplicy deitado em um sofá, cabisbaixo, enquanto eram exibidas imagens do casamento de Marta com outro, feliz, quase como uma princesa... As imagens iam contra Marta, para dizer que uma mulher separada não podia ser feliz e que a mulher apaixonada fica irracional. Também podemos lembrar o tango da Zélia (Cardoso de Mello, ex-ministra da Economia, com o ex-ministro da Justiça Bernardo Cabral). Então, estamos falando de uma eficácia simbólica. O antropólogo Claude Lévi-Strauss usa muito a imagem do xamã. O político, como o xamã, cura quando todos acreditam que ele cura. Um exemplo é esse fenômeno do crescimento do Kassab. Há bem pouco tempo uma revista publicou matéria explicando quem era o prefeito de São Paulo, tal seu desconhecimento. De repente, ele virou "o" prefeito, com aprovação recorde. É o grande xamã.E essa "magia xamânica" é o marketing político? Sempre se reclama do casamento do marketing com a política. Ele despolitiza o povo?Não é o marketing que despolitiza ou politiza. Não há como fazer política sem marketing a partir do momento em que há campanhas públicas, no rádio, na TV. Sempre pensamos no marketing a partir da idéia de manipulação. E pensamos pouco na questão da recepção. Se tudo que fosse manipulado pegasse, a propaganda seria um exercício fácil. Tem um autor de quem gosto muito, chamado Benedict Anderson, que tem essa idéia de que as comunidades são imaginárias, elas se imaginam. Então, o bom marketing político é aquele que vai de encontro à imaginação política que já existe. O bom candidato é aquele que sabe dialogar com esse imaginário da sociedade. CAMUFLAGEM"Nossa política tem boa dose de dissimulação. É o ?preconceito de ter preconceito?"INTERDITO"Uma pergunta bem feita, no lugar certo, pode gerar mais estrago do que a afirmação"     * Fotos: Marta Suplicy e Gilberto Kassab em debate na rede Bandeirantes . Robson Fernandjes/AE

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