Por um populismo mais autêntico

A origem de Lula lhe confere uma aura popular. Só falta ele se comprometer com a democracia

Fábio Wanderley Reis*, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2008 | 20h53

Pesquisas de opinião voltam a mostrar forte e crescente apoio a Lula e a intrigar muita gente: a que se deverá? O notável no espanto suscitado é o destaque freqüente de que o apoio ocorre "apesar dos cartões corporativos". Se denúncias como as do mensalão não conseguiram impedir a grande vitória de Lula em 2006, caberá mesmo esperar que o artificialismo do escândalo da tapioca venha a abatê-lo aos olhos do eleitorado? Afinal, não obstante a crise da economia estadunidense e as ameaças resultantes, o País se vê inundado de boas notícias no plano econômico, com aspectos como os da renda crescente, do crédito mais acessível e do crescimento do emprego, que não podem senão reforçar, em termos de apoio popular ao governo, os efeitos do êxito da política social em geral. É elementar reclamar que o uso dos cartões corporativos ou de contas "B" seja apropriadamente fiscalizado, com os abusos neutralizados e punidos; mas é inegável o que há de excesso por parte da imprensa e de jogo político por parte da oposição no alvoroço do momento sobre o assunto.A avaliação de dados como os da pesquisa CNT/Sensus de agora se vê fatalmente envolvida por algo que surgiu com força inédita na eleição presidencial de 2006: a intensa correlação entre o apoio a cada um dos dois principais candidatos e a posição socioeconômica dos eleitores, em que crescem os votos de Lula e minguam os de Alckmin à medida que se desce nas escalas de renda e educação. Com as projeções regionais dessa correlação, tivemos, na verdade, análises em que se insinuava a desqualificação do eleitorado lulista - e, especialmente no azedume anti-Lula de certa "opinião pública" que há muito povoa a internet de vídeos sarcásticos, a contestação ao menos latente da própria legitimidade da presença de Lula na Presidência.Isso ecoa um tema insistente nos debates acadêmicos sobre o processo político-eleitoral brasileiro, o da suposta "volatilidade" do eleitor. Mesmo se se destacam os erros da idealização do eleitorado popular e a relevância política das deficiências intelectuais que nossa desigualdade lhe impõe, os resultados de estudos sistemáticos não justificam falar de volatilidade, que, naturalmente, fatos como a fidelidade aparentemente duradoura a Lula também negam. Por certo, o eleitor pode mostrar-se consistente, em vez de "volátil", por melhores ou piores razões: desde a avaliação informada e sofisticada das opções oferecidas pelo jogo político-eleitoral, em sua correspondência com interesses ou mesmo valores de maior importância, até a percepção míope de ganhos mais ou menos imediatos ou de vagas afinidades em termos de identidades definidas toscamente, como as que contrapõem "pobres" e "ricos". Será com certeza possível fazer melhor democracia quando se tenha a sofisticação intelectual como característica do eleitorado em geral; mas é patente que precisaremos então de condições sociais de maior igualdade, e a questão aí envolvida, a da redistribuição, é a questão crucial em jogo na própria democracia eleitoral onde quer que se dê. A correlação mencionada entre o voto e a posição socioeconômica dos eleitores não é senão a expressão disso - e o que merece destaque a respeito é antes o fato de que os desdobramentos intelectuais e sociopsicológicos de nossa desigualdade tenham impedido por tanto tempo que ela ocorresse com nitidez.Essa perspectiva pode ser ligada a eventos político-eleitorais do momento no plano continental. Experiências como as de Chávez, Morales e Correa têm sido tratadas como correspondendo a uma nova onda de populismo na América Latina ("populismo carismático", dizem alguns), e Lula, apesar da política econômica realista, entra talvez na mesma categoria. A imagem negativa do populismo se liga ao componente de manipulação e fraude que supostamente o caracteriza, envolvendo especialmente acenos redistributivos "irresponsáveis". Mas, além do perigo de que se acabe por assimilar a política "responsável" à mera insensibilidade à desigualdade, é possível assinalar que velhas discussões do populismo, como as do sociólogo argentino Torcuato di Tella, vinculam esse elemento de fraude ao fato de que os líderes que classicamente acenam ao povão no populismo latino-americano têm sua origem na "elite". Daí decorre a possibilidade de tomar como tipo especial um populismo de líderes populares, talvez menos propenso à fraude ao menos no que se refere ao compromisso com a redistribuição. À parte excessos como os de um Chávez na Venezuela, esse populismo mais "autêntico" poderia representar uma via talvez propícia a avanços da própria democracia, como sugere o fato (constatado pelo Latinobarômetro e tratado como "paradoxal") de que justamente Bolívia, Venezuela e Equador se tenham situado em 2007 entre os países de mais alto apoio popular à democracia, logo atrás de Costa Rica e Uruguai, tradicionais campeões. No Brasil, é de se lamentar, naturalmente, que as revelações de 2004 e 2005 tenham resultado em desacoplar o difuso simbolismo popular que cerca o lulismo (sem embargo das limitações que se queira apontar em Lula como líder) da construção institucional peculiar que parecia ocorrer em torno do PT e acabou seriamente comprometida.Mas cabe olhar mais longe, para os Estados Unidos e a reveladora campanha eleitoral em curso. Pois encontramos lá também o rótulo de "populismo" aplicado sem hesitação, mesmo por analistas qualificados, às propostas dos pré-candidatos democratas com respeito à universalização do seguro saúde (algo, afinal, que pode ser visto como um direito a compor de modo banal a idéia de cidadania tal como evoluiu na dinâmica democrática de vários países exemplares). Sem falar do carisma pessoal de Barack Obama a mobilizar o eleitorado como há tempos não se via - e a justificar, para muitos, a expectativa não só de avanços numa óptica redistributiva, mas também de arejamento e revitalização das próprias instituições democráticas. *Fábio Wanderley Reis é cientista político, professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais e autor, entre outros, de Mercado e Utopia (Edusp)SEGUNDA, 18 DE FEVEREIROPrestígio em altaNos melhores resultados desde 2003, o governo Lula teve em fevereiro 52,7% de avaliação positiva e Lula, pessoalmente, 66,8%, segundo pesquisa CNT/Sensus. Na mesma sondagem, 74,9% disseram que o escândalo dos cartões corporativos afeta a imagem do presidente.

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