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Por uma cabeça

Decapitações são uma abominação universal muito antes do Estado Islâmico

Paulo Nogueira, O Estado de S. Paulo

21 Março 2015 | 16h00

Quem diria que, bem mais lugubremente que as calças boca de sino, as decapitações voltariam à moda? As execuções online do Estado Islâmico, cuidadosamente encenadas, são vistas por milhões de terráqueos, com repulsa, mas também com fascínio. E ajudam a recrutar cada vez mais jovens ocidentais para as fileiras do terror. 

Se a combinação de medievalismo e internet é um upgrade macabro do EI, historicamente a decapitação é uma abominação universal de todos os tempos e lugares, como atesta a antropóloga inglesa Frances Larson em seu livro Severed: A History of Heads Lost and Heads Found (Granta) e nesta entrevista ao Aliás. 

Em 1642, um homem foi degolado em praça pública na Inglaterra perante uma multidão festiva e depois entreteve ainda mais os ociosos quando sua cabeça acabou usada como bola de futebol. Como observa ironicamente a autora, “algumas cabeças têm uma vida social mais intensa que a que seus portadores tiveram quando vivos”.

Das machadadas em pescoços de sangue azul na Torre de Londres à guilhotina da Revolução Francesa, dos caçadores de cabeça da Indonésia às cabeças “neurosuspensas” pela criogenia contemporânea, eis a conclusão: o homem é sua cabeça, seja enquanto vida mental, seja enquanto “alma”. Para o bem e para o mal. 

Fetiche. “Será que existe uma forma de idolatria fetichista da cabeça, como no caso do cérebro de Einstein (roubado pelo patologista Thomas Harvey) ou da cabeça mumificada de Lenin, exposta na Praça Vermelha, em Moscou? Pelo menos desde o início do século 19, crânios e cérebros de pessoas famosas têm sido preservados e estudados por cientistas. Mozart e Beethoven tiveram seus crânios subtraídos por admiradores. O filósofo inglês Jeremy Bentham determinou que sua cabeça e o restante do corpo fossem preservados separadamente - agora conservados na Universidade de Londres. A lista é quilométrica. Existem também cabeças de santos mantidas ainda hoje como relíquias. A mais famosa é a de Santa Catarina de Siena, na Itália, transportada em procissões.

Crânio como arte. “O crânio humano sempre foi tema poderoso na arte e na literatura, do pobre Yorik, em Hamlet, aos filmes de Tim Burton, passando pelas telas de Frida Khalo, Salvador Dali ou Damien Hirst. No século 19, Charles Dickens, autor conhecido por obras cheias de compaixão, foi atraído por uma decapitação em Roma e fez questão de ver a cabeça de perto, notando que ela parecia “estúpida e feita de cera”. Ao longo dos séculos, o crânio se erigiu no clássico memento mori, por uma razão simples: ele parece nos interpelar do além. As características faciais estão lá, porém transformados em algo novo e estranho, como se alertassem: ‘Assim como sou agora, você será um dia…’. Ademais, os crânios também conseguem ser bastante belos, com um inequívoco apelo estético. Durante centenas de anos, crânios foram cuidadosa e esplendidamente arrumados e expostos em ossários e capelas. Creio que nos revemos nas caveiras, conseguimos contemplá-las cara a cara e perceber que existe um crânio como aquele dentro de nós. 

Lâmina misericordiosa. “A decapitação é universal e não uma perversão do Oriente. Uma cabeça decepada pode ser muitas coisas: ente querido, troféu, dado científico, prova criminal, exemplo pedagógico, relíquia religiosa… Seria difícil encontrar uma cultura que não tenha, em algum momento, exposto uma cabeça humana. É bem verdade que nem toda cultura aprovou a decapitação como forma de execução. Na França, durante a Revolução, a guilhotina foi introduzida como meio mais humano e compassivo (mais rápido e indolor) que o machado ou a espada do carrasco. Nesse sentido, a guilhotina podia ser decepcionante enquanto espetáculo. E, para falar a verdade, uma decapitação rápida, através de uma máquina, é ainda hoje uma das maneiras mais misericordiosas e confiáveis de se executar alguém. A injeção, a cadeira elétrica, a câmara de gás ou a forca podem ser muito mais demorados e excruciantes - e têm muito maior potencial de erros macabros. 

Decapitações online. “Um dilema horrível e tipicamente moderno é: se existe apetite para assistir a decapitações pela internet, os meios de comunicação devem banir sua divulgação? Quanto a mim, não vislumbro nenhuma solução mágica para esse dilema sinistro. Pessoalmente, nunca assisti a uma decapitação criminosa online. Por uma razão simples: me recuso a fazer parte do show. No entanto, a mídia provavelmente enfrentaria acusações de censura caso se recusasse a divulgar tais eventos. Por outro lado, caso se abstenham de facultar os vídeos, também correm o risco de se tornar redundantes - afinal as imagens de uma forma ou de outra estarão disponíveis online, e as pessoas falarão sobre o assunto. 

Plateia, eu? “Em fevereiro, o EI postou numa rede social a foto de uma criança segurando uma cabeça decepada. Em março, um terrorista do EI divulgou em vídeo a decapitação de quatro homossexuais. Como historiadora das decapitações, pergunto-me se isso é novidade. Concluo que sempre houve pessoas dispostas a decapitar suas vítimas (que consideram inimigos) e expor suas cabeças como troféus. É verdade, a internet tem o poder de maximizar o ato criminoso. Podemos assistir às decapitações online sem que ninguém saiba que fizemos isso. Os espectadores podem ver tudo em casa e ao mesmo tempo sentir que aquilo não lhes diz respeito, embora estejam fazendo precisamente o que os carrascos querem que façam. Eis a novidade abominável: a internet criou um novo tipo de multidão para uma velha forma de violência, atualizando-a e tornando-a talvez mais atroz que nunca.”

PAULO NOGUEIRA, JORNALISTA, É AUTOR DE O AMOR É UM LUGAR COMUM (INTERMEIOS)

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