CRIS FAGA|FOX PRESS PHOTO
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Por uma escola franca

É discutível a pedagogia que preconiza a reunião de alunos de diferentes níveis numa única escola, analisa sociólogo

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

17 Outubro 2015 | 16h00

A educação, mais uma vez, fica no meio do tiroteio entre concepções e até interesses das partes potencialmente alcançadas por uma decisão da Secretaria da Educação de São Paulo: a de fragmentar as escolas plurietárias, eventualmente redistribuir alunos e professores e organizar escolas homogêneas por nível de ensino e de idade. Para atender apreensões e reclamos, até o Ministério Público interferiu no caso. 

Não passaria pela cabeça de ninguém, pai de aluno ou professor de escola particular, recorrer ao MP em caso no qual a direção do estabelecimento decidisse mudar de endereço. Aqui estamos em face de estranha incongruência: a meta primeira da escola privada é o lucro, sem que isso signifique minimizar a questão essencial da qualidade da educação e dos métodos e meios para assegurá-la. 

Já no caso da escola pública não passa pela cabeça de ninguém que também ela deve minimizar seus custos e reduzir seus desperdícios, até porque se trata de dinheiro público, ainda mais agora no miserê decorrente de uma política econômica desastrosa, cujos efeitos nocivos acabam sendo transferidos para os setores mais vulneráveis das políticas públicas, justamente os da educação e da cultura. 

Em pronunciamento recente, o secretário da Educação, Herman Voorwald, chamou a atenção para as repercussões, no sistema escolar, da redução da fertilidade humana no País, em particular no Estado de São Paulo, com a diminuição do número de nascimentos e a queda do número de crianças em idade escolar em sua estrutura demográfica. Em consequência, a rede de edifícios e de instalações escolares destinadas a crianças e adolescentes tem hoje uma significativa capacidade ociosa - menos dois milhões de alunos em relação a quantos comportaria. Há uma infraestrutura subutilizada que consome recursos públicos que seriam melhor e mais eficazmente empregados se utilizados de modo racional e calculado. As informações dadas aos interessados asseguram que não haverá deslocamentos que ultrapassem aquilo que se situa num círculo muito limitado de distâncias para que a nova ordenação seja implantada. 

Um certo conteúdo corporativo nas reivindicações dos incomodados com as mudanças é compreensível, dado que esse é um traço forte das deformações de nossa organização social e de nossa organização política arcaicas. Na escola privada, os envolvidos se conformariam e, no limite, mudariam de escola. Coisa que, aliás, está acontecendo agora. Só que, depois de décadas de injusta depreciação da escola pública em favor da escola privada, mais de 200 mil famílias, alcançadas pela crise econômica, nestes últimos meses, estão transferindo seus filhos da escola particular paga para a escola pública gratuita. Certamente, não é boa motivação transferir filhos de escola para fazer economia, ainda que a carência seja motivo compreensível e legítimo. Mas, na educação, economia é metro defeituoso para medir a qualidade da escola, seja ela particular ou pública. A escola pública é diferente da escola particular e essa diferença deveria ser valorizada por aqueles que a defendem e representam, a começar pelos docentes, para dar aos pais e aos alunos a segurança positiva da diferença.

Se considerarmos que apenas cerca de 25% das escolas e dos alunos serão de fato atingidos pela reorganização que a Secretaria está propondo, que são aquelas que abrigam os vários níveis de ensino, menos motivos há para a intranquilidade. Aí incide a questão propriamente pedagógica. A tese da Secretaria é a de que a desagregação dessas escolas permitirá ampliar o número de estabelecimentos especializados em cursos destinados a alunos de uma mesma faixa etária, o Fundamental 1, o Fundamental 2 e o Ensino Médio. É muito discutível a pedagogia que preconiza a reunião de alunos desses diferentes níveis num único estabelecimento, especialmente numa fase da formação das novas gerações em que o grupo de idade é um componente decisivo de sua identidade e de sua socialização. 

O grupo etário tem funções rituais de que os socializandos não podem ser privados sem grave dano à sua identidade. A desfiguração do pertencimento que a dispersão etária proporciona pode atender aos requisitos especulativos de natureza filosófica, mas certamente não atendem aos requisitos da formação da personalidade das novas gerações. A sociedade pós-moderna, que tentamos ser, tem sido tomada por uma ansiedade enferma de diluir especificidades identitárias e de antecipar a maturidade de seus filhos, seja descabidamente querendo transformá-los em gênios precoces, que não são nem serão, ou adultos antecipados. Priva-os da infância necessária e decisiva na formação do caráter e da competência para a vida adulta. Em geral, o gênio artificialmente fabricado ou o adulto falsamente antecipado acabam exibindo sinais evidentes de dessocialização para a vida de seres maduros, arrastando para sempre o que é, de fato, uma deformação. Acabam sendo vítimas da educação pretensiosa para viver uma melancólica vida de frustrações.

JOSÉ DE SOUZA MARTINS É SOCIÓLOGO, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS. ESCREVEU, ENTRE OUTROS LIVROS, UMA SOCIOLOGIA DA VIDA COTIDIANA (CONTEXTO)

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