Por uma marcha de descarrego

Fluminenses saem à rua por royalties. Com artilheiros enrolados no tráfico, flamenguistas também merecem uma pajelança pública

Sérgio Augusto, de O Estado de S. Paulo

20 de março de 2010 | 12h43

Mesmo debaixo de chuva, a indignação conseguiu levar 150 mil pessoas ao centro do Rio de Janeiro, na tarde de quarta-feira, para uma marcha de protesto. Tanta gente assim antes, na Avenida Rio Branco, só no "Fora Collor!", já lá se vão quase 18 anos. O vilão da vez foi o deputado gaúcho Ibsen Pinheiro, autor de uma emenda, já aprovada pela Câmara Federal, que tira R$ 7 bilhões em royalties da economia do Estado do Rio, condenando à falência cidades e municípios, inviabilizando os Jogos Olímpicos de 2016 - e ameaçando a sobrevivência dos aposentados fluminenses, conforme bem lembrou Miriam Leitão, em sua coluna de O Globo, no dia seguinte à passeata.

 

Apartidária, nenhum político aproveitou-se de sua pureza de propósitos para promover a si próprio ou seu ideário. A marcha (para uns, "contra a covardia", para outros, "contra o roubo") era de todos os fluminenses e, por extensão, de todos os capixabas, já que o Espírito Santo também será esbulhado caso a emenda, de cuja inconstitucionalidade nem o presidente Lula talvez duvide, não for brecada no Senado ou pelos juízes do Supremo.

 

Para minimizar a expressividade da marcha, o autor da emenda comparou-a a duas históricas manifestações públicas promovidas no Rio, a Revolta da Vacina (contra o combate à febre amarela, comandado por Oswaldo Cruz, em 1904) e a Marcha da Família com Deus pela Liberdade (vale dizer, pela derrubada do governo João Goulart, em 1964), duas mostras eloquentes de como as massas podem ser induzidas a cometer desatinos. As futuras vítimas da Emenda Ibsen preferiram, porém, compará-la a três outras agitações políticas ocorridas no Rio: a Passeata dos 100 Mil (contra a ditadura militar, em 1968), o Comício das Diretas Já (em 1984) e o "Fora Collor!".

 

Considerando-se que o quebra-quebra contra a vacina da febre amarela sacudiu mais a Praça da República do que a recém-inaugurada Avenida Central, os cariocas podem encher a boca e proclamar que a Rio Branco não perdeu uma parada até hoje. "Às vezes, demorou um pouco", salientou o comentarista de O Globo, Luiz Garcia, "mas sua voz sempre acabou sendo ouvida e respeitada". Desta vez, espero, não será diferente.

 

Um inflamado participante da marcha de quarta-feira sugeriu a um programa de debates radiofônicos que "deveríamos nos mobilizar com mais frequência, para defender as coisas do Rio". Útil recomendação, embora deva-se tomar cuidado com o inevitável esvaziamento do protesto quando banalizado por sucessivas passeatas, ainda mais danosas se motivadas por causas indignas de uma manifestação pública. Já imaginaram se um grupo de fanáticos torcedores resolvesse organizar uma marcha contra a imprensa esportiva por suas críticas sistemáticas ao comportamento fora de campo de Adriano, Vágner Love e outros problemáticos jogadores do Flamengo?

 

Ora, direis, que as demais torcidas não permitiriam o ocupação da Rio Branco por um único clube da cidade e por uma causa tão desprovida de sentido. Pode ser, mas todos os grandes clubes cariocas já fizeram carreatas da vitória pela Rio Branco em campeonatos do passado, e bem que o Flamengo anda necessitado de uma marcha de descarrego. Seus dois artilheiros envolvidos com traficantes de drogas, um dirigente acusado de pedofilia-bem, só a recalcitrante nostalgie de la boue do Adriano já seria motivo para uma pajelança pública.

 

Fora de peso, deprimido, bebendo além da conta, aprontando em público com a noiva, Adriano, um gigante com cérebro de criança, periga de encarar um futuro ainda mais incerto que o de David Beckham.

 

Domingo passado, jogando contra o Chieso de Verona, o meio-campo do Milan sofreu uma grave lesão no ten+dão de Aquiles que o tirou dos gramados por muitos meses e afastou-o da próxima Copa do Mundo. Comovida com a desdita de Beckham, a laureada poeta britânica Carol Ann Duffy dedicou ao craque da seleção inglesa um misto de ode e elegia, a que deu o título de Achilles. Beckham não é nominalmente citado nos versos; aparece oculto por elipse na estrofe em que o campo de batalha (da Guerra de Troia) transforma-se num campo de futebol e o herói grego transfigura-se num jogador que, ao tocar com seu charmed foot (pé charmoso) na bola, estupora o tendão calcâneo. Antes de ler seus versos ao microfone da BBC, Duffy identificou cada uma de suas alusões: Beckham é Aquiles, os gregos são os ingleses, e Troia são os Estados Unidos, a Argélia e a Eslovênia, os adversários já conhecidos da seleção inglesa, na copa da África do Sul.

 

Chique, não?

 

Em meio a uma pesquisa sobre quais jogadores de futebol brasileiros já foram reverenciados pelos poetas da terra (Vinicius de Moraes celebrou Garrincha, João Cabral de Melo Neto enalteceu os dois mais famosos Ademir dos gramados, o Menezes, do Vasco, e o da Guia, do Palmeiras), não é que topei com um poema dedicado ao Adriano? Da lavra de Flávio Machado, seus versos exaltam o "menino da Vila Cruzeiro" e as "manhas da boa malandragem" aprendidas por Adriano nos campinhos das favelas, e cometem dois equívocos: não foi na Alemanha, mas na Itália, que o jogador "driblou o destino e soltou o grito de gol", e não pode ser qualificada de boa a malandragem em cujas manhas ele se educou.

 

Um terceiro e maior equívoco teria sido compará-lo ao verdadeiro imperador Adriano, aquele que reinou na antiga Roma de 117 a 138 d.C. e teve suas memórias celebrizadas por Marguerite Yourcenar. Ambos enredaram-se em complicadas relações amorosas, o imperador da Chatuba com uma "modelo" da pá virada e o de Roma com um mancebo 34 anos mais jovem, chamado Antínoo; mas nem abusando da licença poética, e sobretudo da imaginação, um bardo flamenguista seria capaz de estabelecer alguma correspondência pertinente entre o mais helênico imperador romano e o mais polêmico jogador brasileiro.

 

Se Beckham está ou não à altura de Aquiles, ao menos os une um calcanhar vulnerável. Quanto aos dois Adrianos, nem os vícios os aproximam. O imperador romano não era de muito beber. Nem de bater em mulher.

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