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Portugal e sua batalha hertziana

Série da Netflix, ‘Glória’ aborda o terrível período salazarista

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

22 de janeiro de 2022 | 16h00

Desde novembro em cartaz, Glória, primeira telessérie portuguesa produzida pela Netflix, é um drama de espionagem muito bem feito, cujo pano de fundo não é a guerra que enxotou Ilsa Lund e Viktor Laszlo de Casablanca para Lisboa, mas a Guerra Fria que a ela se seguiu, com a Alemanha derrotada e Portugal servindo de base para as batalhas hertzianas travadas entre a Rádio Moscou e a Rádio Free Europe dos americanos.

No poder desde 1933, como Hitler, Oliveira Salazar (“um Hitler benevolente”, na avaliação mais que benevolente da revista Life) foi hábil o bastante para manter Portugal neutro na luta armada contra o nazismo, sem precisar tirar as botas das colônias em África e na Ásia, nem coibir as torturas cometidas, em casa e além-mar, pela Pide, a polícia política da ditadura portuguesa. Ao ceder uma base militar aos americanos, nos Açores, em 1944, Portugal qualificou-se como país não beligerante em favor dos Aliados – e disso tirou máximo proveito.

Durante a guerra, Lisboa ficou conhecida como “a capital da espionagem”, tantos eram os espiões que nela circulavam e operavam (Ian Fleming, criador de James Bond e então olheiro da Marinha britânica, foi um deles), pois Portugal também se notabilizou como rota de fuga para milhares de foragidos da ocupação nazista, em busca de asilo na Palestina e nas Américas.

Ao planejar sua guerra ideológica em prol da democracia capitalista contra o comunismo soviético, Washington escolheu Munique como base de operações radiofônicas da Europa Livre e, desde o início orientada pela CIA e seu Congresso Pela Liberdade da Cultura, encontrou em Portugal o local ideal para retransmitir material de propaganda (noticiosos, contraiformação, programas musicais) produzido em Praga e traduzido para quase duas dezenas de idiomas. 

Acrônimo de Rádio Retransmissora, a Raret surgiu no meio do Ribatejo, numa herdade de Glória, a 75k de Lisboa, em 1951, onde funcionou durante quase 50 anos. Em torno dela cresceu uma pequena comunidade com vida própria: escola, maternidade, centro esportivo – e as mais potentes antenas de ondas curtas do continente. É nesse ambiente que se desenrola a trama de Glória, protagonizada por um filho da elite lisboeta, o engenheiro João Vidal (Miguel Nunes), egresso do horror em Angola e já cooptado pela KGB quando o indicam para cuidar das antenas da Raret.

Desconhecido, inclusive, da maioria dos portugueses, o complexo radiofônico perdeu sentido com o fim do império soviético e acabou desativado em 1996 e abandonado dois anos depois. Mas outras intrigas palpitantes para dramatizar na certa aconteceram entre 1968, ponto de partida da série, e os quase 30 anos subsequentes, do contrário não estariam planejando uma segunda temporada com mais 10 episódios. 

Glória tem legendas em português; e não apenas para as falas em inglês, alemão e russo, para alívio dos brasileiros que ainda sentem certa dificuldade para acompanhar o português castiço de nossos ancestrais.

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