Rui Gaudêncio/Editora Bazar do Tempo
Rui Gaudêncio/Editora Bazar do Tempo

Portuguesa Alexandra Lucas Coelho encerra trilogia brasileira com livro sobre a Bahia

Obra foi escrita a partir de um pedido de Caetano Veloso; ao 'Aliás', escritora fala sobre como sua experiência como jornalista influenciou sua obra literária

João Prata, Especial para o Estado

07 de março de 2020 | 16h00

Caetano Veloso gostou do primeiro livro sobre o Brasil da portuguesa Alexandra Lucas Coelho, mas disse que faltava Bahia. Ele também elogiou a segunda publicação dela sobre o País em um vídeo disponível no YouTube e repetiu a crítica em tom de brincadeira: faltava Bahia. A escritora ficou uns dias pensando sobre o assunto e pronto.

Foi como baixar um santo. Em um mês e meio, escreveu as 232 páginas do novo livro. E olha que ela é ateia, mas, por ter vivido no Rio, passado uns tempos em Salvador e visitado dezenas de terreiros, passou a acreditar em milagres. O livro nasceu com o beijo a Caetano no título, índice e tudo o mais, e encerra a sua trilogia sobre o País.

Cinco Voltas na Bahia e um Beijo para Caetano Veloso chama a atenção de cara (algo que se mantém ao longo da narrativa) para particularidades da história do Brasil, curiosidades do passado pouco conhecidas dos brasileiros. Fica ainda mais interessante no sotaque português de Alexandra – a editora Bazar do Tempo respeitou o texto original. Os primeiros passos dos colonizadores na região de Porto Seguro, a construção da igreja do Senhor do Bonfim, o sincretismo religioso, Gantois, Mãe Menininha, Jorge Amado, o samba de roda do recôncavo, as esculturas de Tatti Moreno, tem de tudo um pouco nas idas e voltas dela.

E, claro, Caetano é figura onipresente. Seja no pôr do sol no Farol da Barra ou ao comprar peixe no Rio Vermelho, uma letra do artista aparece e é devidamente esmiuçada pela escritora. Ela explica, por exemplo, o que diabos Caetano quis dizer quando escreveu “bandeira branca enfiada em pau forte” na canção Triste Bahia, do disco Transa. Ela começa lembrando que a composição mistura um soneto de Gregorio de Mattos com cantos de capoeira. E vai pontuando passo a passo até dizer que a tal bandeira enfiada em pau forte, no período da escravidão, servia para assinalar um terreiro.

A Bahia, estação primeira do Brasil, segue sendo redescoberta por Alexandra. O pelourinho, a casa de Yemanjá, Marighela, Padre Vieira, Castro Alves, nada escapa. O encontro de João Gilberto com os Novos Baianos, o disco Acabou Chorare, toda a riqueza cultural do País vai surgindo em meio às experiências vividas pela autora não só em Salvador. Ela não resistiu e foi a Santo Amaro da Purificação, onde nasceu Caetano e Maria Bethânia, a quem Mãe Menininha e o escritor argentino Julio Cortázar, diziam ser uma pessoa só.

A partir deste domingo, a escritora fará uma série de eventos no Brasil para lançar seu novo livro: 8/3 na Livraria Baleia, em Porto Alegre; 10/3 na editora Bazar do Tempo, no Rio de Janeiro; e 14/3 na Casa Preta, em Salvador. A seguir, a conversa de Alexandra com o Aliás:

Você já tinha pensado em fechar a trilogia brasileira com a Bahia ou a ideia veio mesmo após os comentários do Caetano?

Nunca tinha pensado fazer um livro passado na Bahia, achei mesmo que não iria escrever mais sobre o Brasil. Mas, em julho de 2019, Caetano veio tocar em Portugal, ele lera o meu romance anterior, Deus-dará, e repetiu algo que já me dissera anos antes (a propósito de Vai, Brasil, um livro de crônicas): que faltava Bahia. A leitura detalhada de Caetano me emocionou e fiquei uns dias marinando nisso. Então veio a ideia desse livro, com título e índice, como é hoje. Caetano tinha razão duas vezes, faltava mesmo Bahia e eu precisava fazer esse livro. Aí ele se tornou o fecho de uma trilogia.

Antes de ser escritora, você foi repórter de rádio, chegou a ser correspondente. Como foi a transição?

Sempre quis escrever e ver o mundo. Isso levou-me ao jornalismo, que me absorveu por muitos anos. Mas sempre soube que um dia ia escrever livros, essa necessidade estava lá desde o começo. Só não publiquei antes porque vivi intensamente a vida de redação e reportagem. Então os livros levaram-me ao jornalismo e o jornalismo devolveu-me aos livros. 

De que maneira cobrir guerras no Oriente Médio impactou a sua vida?

Cobri conflitos em várias partes, começando por Rússia, Bósnia. Israel/Palestina foram anos. É parte da minha vida, da identidade em movimento. Porque não escolhemos de onde vimos, mas somos transformados pelo que nos acontece, pelo que escolhemos, ou lutamos para escolher. Nasci lisboeta, portuguesa, branca, e fui sendo transformada por tudo o que me foi acontecendo, lugares e pessoas.

Quando decidiu vir morar no Brasil?

Em 2010, já passara tempo a cobrir territórios colonizados por outros, e queria ser atravessada pela experiência de morar no maior território colonizado por Portugal. Não para expiar uma culpa, noção cristã que não me interessa, como se sacudíssemos o pecado e já está. Mas como uma consciência, saber de onde vimos, que isso tem um significado, em muitos casos implicou privilégios, e que somos nós que decidimos o que fazer com isso perante a herança da violência colonial que continua a marcar o cotidiano do Brasil.

Vê alguma relação entre a vida no Oriente Médio com o período que morou no Rio de Janeiro? 

Do ponto de vista do conflito, o Rio é muitas vezes uma zona de guerra, sobretudo para quem mora na favela. O aparato da PM, da tropa de elite, o armamento, as incursões nos morros e periferias, os combates dentro de territórios que o Estado deixou entregues a si mesmos, os homicídios e ferimentos, o risco constante de ser vítima de violência, especialmente para quem é jovem e negro. Depois, de um ponto de vista histórico, o Brasil tem uma população significativa de sírio-libaneses e comunidades judaicas. Das ruas do Saara, no centro do Rio, às esfihas no boteco, há muitos resquícios dessa herança. Gosto muito daquela frase de Jorge Mautner: que Brasil é Oriente. Em Deus-dará, há longos trechos sobre a herança árabe do Brasil. E desde o meu primeiro romance, inventei um personagem carioca, Karim, que foi morar na Síria, é referido em todos os meus romances, mas ainda não apareceu em nenhum. Em Deus-dará, dois dos protagonistas são irmãos dele.

Como e quando você se aproximou do Brasil?

Desde que, no fim da infância, começo da adolescência, escutei um disco de João Gilberto que viera do Brasil, e logo os discos de Caetano Veloso, e logo li Jorge Amado. Então o meu primeiro Brasil foi Bahia.

No livro, você compara Caetano a um orixá. 

Não é que compare Caetano a um orixá (risos). Digo a certa altura no livro, zoando um pouco de mim – da minha paixão por esse artista incrível que temos a sorte de ter por contemporâneo –, que Caetano Veloso é o meu orixá. Sendo que tanto eu como ele somos ateus, mas ateus que estão sempre a ver milagres, até porque o Brasil faz com que seja assim.

Como você vê a troca cultural entre Brasil e Portugal? Acha que os portugueses continuam a olhar mais para cá do que o inverso?

Ui. Isso é um tema de 520 anos (risos). E os meus livros luso-brasileiros são sobre isso. Então, como resumir? Nas Cinco Voltas... regresso ao começo desta história para tentar atar algumas pontas. Uma delas é explicar por que, para mim, Portugal e Brasil não são nem podem ser países-irmãos. Porque é uma relação fundada na violência, no poder de um sobre outro, na extorsão de um por outro. Mas podemos, sim, um a um, dois a dois, por aí vai, ser amigos, amantes. Podemos criar laços muito fortes e vários, transformando esta história, tendo consciência dela.

Você também menciona a admiração por outros baianos, como Jorge Amado. Quais são seus escritores brasileiros favoritos?

Tenho muitos amigos brasileiros escritores, então fica difícil. Deixei de ler Jorge Amado na adolescência, e aí entraram em força Veríssimo, depois Drummond, Clarice e por aí fora. Guimarães Rosa, Raduan Nassar mudaram a minha relação com a língua. Mas a lista é longa. Romancistas, poetas, cronistas, ensaístas. Machado, Nelson Rodrigues, Euclides, Cecília são personagens mesmo de vários dos meus livros. Dos contemporâneos, cito um que já não está aqui, cometa maravilhoso: Victor Heringer. E vejo a emergência dos morros, das periferias na escrita.

Depois da trilogia brasileira, qual será o cenário do seu próximo livro?

Vai chamar-se Levante. Vai passar-se agora em Alexandria, Líbano, Síria, Israel/Palestina. É o romance em que finalmente aparece o tal personagem Karim. Espero começá-lo mal termine uma peça de teatro em que estou trabalhando, a minha primeira.

CINCO VOLTAS NA BAHIA E UM BEIJO PARA CAETANO VELOSO

AUTORA: ALEXANDRA LUCAS COELHO

EDITORA: BAZAR DO TEMPO

232 PÁGS., R$ 62 

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