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Pós-Olimpíadas

Quanto mais pobre o país anfitrião, mais desoladora a paisagem deixada por Jogos Olímpicos mal planejados e mal administrados

SÉRGIO AUGUSTO, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2014 | 02h08

Como ficou Sochi depois da Olimpíada? O problema não é como Sochi ficou depois do último domingo e sim como estará daqui a algum tempo. Digamos, daqui a cinco anos.

Esse é o prazo estabelecido pelo fotógrafo Jon Pack e o documentarista Gary Hustwit para se ter uma ideia concreta do impacto econômico, social, cultural e ambiental causado pelos Jogos Olímpicos (de verão e inverno) nas cidades que os sediam. Desde 2008, como parte do The Olympic City Project, a dupla visita vilas olímpicas e seu entorno, conversa com os habitantes locais e registra em imagens o que sobrou das obras especialmente construídas para os Jogos. Várias foram reaproveitadas criativamente (a vila olímpica de Salt Lake City é hoje dormitório da Universidade de Utah, a de Lake Placid abriga um presídio, o auditório olímpico de Los Angeles foi transformado em templo de igreja coreana); outras, sem serventia e abandonadas, viraram ruínas. Daqui a cinco anos Pack e Hustwit visitarão o balneário russo, para checar se valeu ou não a pena torrar US$ 51 bilhões na recém-finda Olimpíada de Inverno. Em 2021 será a vez do Rio de Janeiro.

Deslanchado quando a China divulgou o estratosférico orçamento dos Jogos de Pequim (US$ 41 bilhões, tidos, na época, como insuperáveis), The Olympic City Project já checou 13 sedes olímpicas. De Berlim (Olimpíada de 1936) a Londres (2012). Outras 20 poderiam constar desse elenco, notadamente Tóquio, que no período hospedou duas Olimpíadas (1940 e 1964), mas o projeto tem cinco anos pela frente para agregar o que ainda falta a Helsinque (1952), Roma (1960), Cidade do México (1968), Montreal (1976), Moscou (1980), Lake Placid (Jogos de Inverno de 1980), Los Angeles (1984), Sarajevo (1984), Barcelona (1992), Atenas (2004) e Pequim.

O projeto já rendeu um livro de tiragem limitada, com 240 páginas, 200 fotos e posfácio do crítico de arquitetura do New York Times Michael Kimmelman, que a Amazon vende por olímpicos US$ 100. Sai de graça, embora incompleto, pela internet, onde Pack e Hustwit montaram um site, também à custa de contribuições voluntárias. A impressão geral, não do livro, mas das cidades vistoriadas, é de desolação. Algumas delas nem parecem ter sido palco de um megaevento esportivo, mas visitadas por Godzilla.

Pistas e estádios vazios, pichados e cobertos de capim, ao deus-dará e isolados por correntes de ferro enferrujadas, vilas olímpicas que viraram conjuntos habitacionais sem conservação. Quanto mais pobre o país anfitrião, mais desoladora a paisagem deixada por Jogos Olímpicos mal planejados e pior administrados. Estados ricos como China e Rússia podem injetar fortunas em cidades olímpicas, não lhes falta verba para fazer farol e propaganda; como não faltou à Alemanha de Hitler. Outros, como a Grécia, carecem, acima de tudo, de bom senso. Atenas tem uma porção de belos espaços criados para os Jogos de 2004 entregues às baratas. Para que construir um estádio de softball, com capacidade para 4 mil espectadores, se os gregos não se interessam por aquele "beisebol para moças"? O estádio de badminton ao menos se metamorfoseou em teatro.

Não é diferente o panorama em Sarajevo. A capital da Bósnia-Herzegovina ainda tem a desculpa da guerra que, uma década depois dos Jogos de Inverno de 1984, rachou e devastou a Iugoslávia; durante a qual, aliás, diversas estruturas esportivas foram usadas pelos sérvios como depósitos de armas e munições e campos de treinamento. Seus habitantes se orgulham tanto daqueles Jogos que insistiram no bis em 2010. Venceu Vancouver, mas Sarajevo já prometeu candidatar-se a uma segunda chance em futuro próximo.

Certos governos e prefeituras pouco ou nada aprenderam com os erros alheios, não souberam olhar adiante nem usar os Jogos como catalisadores de benefícios permanentes para a população. As Olimpíadas duram duas semanas, as cidades ficam - tanto melhor se aquinhoadas com um sistema de transporte urbano aprimorado, melhores serviços, mais espaço e conforto para todos, mais verde, mais dinheiro em caixa. Foi o que o governo Putin prometeu à região de Sochi, antes de desalojar 2 mil famílias (a estimativa é do Human Rights Watch) para construir a vila olímpica mais cara de todos os tempos - e também a mais agressiva ao meio ambiente. Os Jogos de Sochi custaram só US$ 3 bilhões menos que o faturamento anual da França com turismo em 2012. Como recuperar esse investimento? Sochi não é Paris. Nem sequer Nice.

Olimpíadas deram certo onde havia um mínimo de infraestrutura e vocação para esportes de inverno, como em Helsinque, Vancouver, Innsbruck, Lake Placid, St. Moritz. The Olympic City Project destaca a performance exemplar de Barcelona, que se preparou para hospedar uma Olimpíada desde o início do século passado. Candidata aos Jogos de 1924 (ganhou Paris), 1936 (perdeu para Berlim) e 1972 (venceu Munique), quando finalmente emplacou, em 1992, já conhecia tudo o que devia e não devia fazer. Se o Rio não conseguir imitar seu exemplo, que ao menos siga o de Lake Placid, destinando sua vila olímpica ao sistema penitenciário. Se há coisa que muito necessitamos é de um bom presídio.

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