Pra que discutir com madame?

Pra que discutir com madame?

Marta pode ter pensado no samba famoso quando aproveitou a viagem de Dilma para pedir demissão

José Nêumanne, O Estado de S. Paulo

15 Novembro 2014 | 16h00


Os meteorologistas do Planalto Central, onde um pedaço do Cerrado goiano é interrompido pelo Distrito Federal, têm facilitadas as previsões de tempestades de verão em qualquer estação quando trovoadas fazem eco à voz da Zeus em forma de mulher, mãe e avó escandindo a palavra “querido”. Pode ser que nunca antes na história deste governo alguém tenha sido tão aquinhoado com essa inversão semântica pela presidente Dilma Vana Rousseff, a Júpiter de tailleur, quanto Marta Teresa Smith de Vasconcellos, vulgo Suplicy. Pelas consequências de tais monções verbais se poderá medir o grau de petulância da “querida”, algoz e vítima.

Não é improvável que “dona Marta do PT” tenha pensado no samba Pra que Discutir com Madame, de Janet de Almeida e Haroldo Barbosa, quando decidiu aproveitar a oportunosa ensancha de estar a “presidenta” incomunicável no avião rumo ao Catar para protocolar seu pedido de demissão. Mas é provável que tenha imaginado uma apoteose de glória: a saída do jogo aos 40 do segundo tempo com a arquibancada chamando a técnica de “burra” e aplaudindo a “atacanta” marrenta. É que não combina com as meias de seda da atrevida ex-ministra serem tiradas no vestiário, findo o primeiro tempo, junto com gentinha insignificante. Se o clã Smith de Vasconcellos permitisse o emprego de calão impróprio, a psicanalista que virou política olharia para o espelho defronte à poltrona do outro lado do divã e reconheceria que gosta mesmo é de “causar”.

A psicóloga bacharelada na PUC de São Paulo e pós-graduada em Stanford, fina flor da intelligentsia californiana, sócia da Sociedade Brasileira de Psicanálise e da International Psychoanalytical Association, tem um percurso comum rumo ao socialismo: gordos saldos nos bancos e nobres carteiras na academia. Mas ninguém pode dizer que ela seja uma socialista comum. Como seus companheiros sindicalistas no PT e ao contrário do ex-marido Eduardo Matarazzo Suplicy, ela chegou à política nos braços do populacho. Antes de ser populista, a bisneta do barão de Vasconcellos foi popular. Dirigida por Nilton Travesso, mago da televisão comercial, e entre linhas e agulhas do costureiro Clodovil, tornou-se conhecida por um quadro de aconselhamento sobre sexo, versão moderninha do velho consultório sentimental, no programa pré-feminista TV Mulher, da Globo. Marta Teresa falava em público de um assunto que talvez nunca tivesse abordado de forma tão franca no castelo da família ou mesmo com clientes de terapia. Do divã foi falar de cama diante das câmeras e dali ao palanque, ao poder, à tribuna.

Ao contrário de sua ex-chefona, que subiu a rampa da Presidência conduzida pelas mãos de um patrono, o padim Lula da Silva de Caetés, Marta Teresa assumiu a prefeitura da maior cidade do Brasil sem empurrão nem indicação de homem algum. Do ex-marido só usou o sobrenome. Mesmo jejuna na gestão pública, deixou marcas por onde passou, sempre fiel ao estilo pessoal de pisar no barro das favelas com sapatos de marca. Sua arrogância produziu contrastes e pérolas na retórica política. Com altos índices de aprovação, perdeu a reeleição para o tucano José Serra, que nunca foi o mais simpático dos candidatos. No Ministério do Turismo de Lula, cunhou a sentença “relaxa e goza” como conselho jocoso aos antigos parceiros da elite branca incomodados com a muvuca dos aeroportos congestionados pelos emergentes do Plano Real, que Lula havia adotado.

No Senado da República, aonde chegou por mérito próprio, foi indicada por Lula para o Ministério da Cultura de Dilma. Mais leiga no assunto do que na atividade, produziu em dois anos de gestão mais poeira nos arquivos do que ajuda às artes. Sob a égide de Dilma, assumiu o “Volta, Lula” com paixão inversamente proporcional ao menosprezo com que o líder máximo a tratou ao passar por cima das óbvias referências dela para fazer de Fernando Haddad seu poste da vez, elegendo-o para o gabinete no palacete dos Matarazzos, que pertencera ao clã avoengo de seus três filhos. A par do desastre administrativo do companheiro pelo qual o levantador de postes a preteriu, Marta Teresa nunca confundiu petulância com orgulho e usa o rancor com frieza calculada. A sair de cena na vala comum do fosso de orquestra preferiu entoar a ária da despedida despejando no governo que larga uma tempestade de granizo com doses de veneno importado da Florença de Maquiavel e antes usado em Vassouras (RJ) por seu antecessor nesse gênero de esgrima Carlos Frederico Werneck de Lacerda.

Marta Teresa almejou que Dilma Vana se “iluminasse” para escolher uma equipe econômica capaz de recuperar a confiança e a credibilidade do governo, sabendo que, mesmo improvável, seu voto não é impossível. E que, quer o realize ou não, a ex-chefona não teria como impedir que ela venha a concretizar o sonho de voltar ao Viaduto do Chá das 5. Como Santo Agostinho, padroeiro das freiras com quem estudou no colégio Des Oiseaux, ela sabe que virtude tem hora. E lugar.

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José Nêumanne, jornalista, escritor e poeta, é autor de O Que Sei de Lula (Topbooks)

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