Pras cabeças!

Sob o turbante ferve a polêmica se ele é mais um elemento de intercâmbio entre culturas ou apropriação desrespeitosa

Alexandra Baldeh Loras, O Estado de S.Paulo

07 Fevereiro 2016 | 06h00

Quem acha que os negros estão sempre procurando detalhes para se queixar precisa entender que o eurocentrismo ainda aparece como pensamento dominante. Um exemplo: indivíduos privilegiados socialmente com a aura eurocêntrica usam referências de outras comunidades étnicas que têm sido marginalizadas por usarem os mesmos elementos, de suas próprias referências culturais. Veja o caso do turbante afro.

Qualquer pessoa pode usar um turbante afro. A questão é que, quando negros os usam, são estigmatizados, assim como quando usam seus próprios cabelos crespos ou em tranças. Já houve casos de negros demitidos do trabalho por usarem turbantes, enquanto celebridades brancas são elogiadas pelo mesmo adereço. Aí está o esqueleto da problemática: um grupo é penalizado por fazer uso de um acessório e o outro se torna moderno e elegante pelo mesmo motivo.

Existe uma sutil diferença entre intercâmbio, apreciação e apropriação cultural, e discutir isso permite que compreendamos as nuances que interferem na simbologia de povos socialmente minoritários ou marginalizados.

Pessoas que defendem o uso indiscriminado de símbolos de outras culturas precisam entender que essa atitude necessita de mais reflexão. É nobre conhecer o significado por trás do símbolo que as fascinaram. As tatuagens dos maoris da Nova Zelândia, que têm uma simbologia forte, foram utilizadas pelo designer Jean Paul Gaultier durante uma campanha publicitária para uma linha eyewear, em 2007. Não importa o quanto ele ama essas tatuagens. Gaultier apagou toda a simbologia ancestral dessa cultura para vender aqueles óculos. Se um estilista criasse uma coleção com a estrela amarela ligada ao horror do Holocausto, certamente seria rechaçado socialmente e responderia na Justiça por se apropriar de elementos que simbolizam um episódio tenebroso na história do povo judeu. Por outro lado, a H&M não hesitou em criar e vender, numa coleção, braceletes e outros acessórios representando algemas e cadeados de negros escravizados.

A estrutura eurocêntrica do sistema é muito eficiente. Tornou a sociedade mais simpática com o que ou com quem se aproxime de alguma maneira desse padrão. O holocausto negro parece menos comovente. É dessa maneira sutil, infelizmente, que se manifesta o racismo estrutural.

Dizem que a imitação é o maior dos elogios. Mas às vezes isso não parece tão lisonjeiro. A última edição do Baile da Vogue, chamada de Pop África, propôs reverenciar o continente. Escolher Pop África foi uma escolha adequada? Sim! Temos a possibilidade de elevar o debate para refletir sobre o que representa a África. Nota-se, por exemplo, quão grotesco é colocar 54 países, centenas de culturas e etnias numa mesma sacola. Um marroquino não tem muito a ver com um angolano, um beninense não tem muito em comum com um queniano, assim como um brasileiro não é igual a um boliviano por fazerem parte do mesmo continente. Mas o absurdo não nos choca, pois fomos condicionados a inferiorizar e reduzir a África e os que dela descendem , com clichês que não têm muito a ver com sua riquíssima diversidade.

Pode parecer chocante para a população negra ver como celebridades e público abraçam a cultura negra por sua moda, música e gastronomia, mas nunca usam seu poder midiático para lutar contra o racismo, contra a truculência policial ao povo negro, contra sua falta de representatividade na mídia em geral, em cargos de liderança e na narrativa escolar. O apelo é para que o povo negro, que está vivo e produzindo elementos que reverenciam sua origem, seja tão protagonista quanto esses fascinantes e tentadores símbolos.

ALEXANDRA BALDEH LORAS É UMA JORNALISTA FRANCESA

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