Precisava, coronel?

Precisava, coronel?

Ana Luisa Escorel, O Estado de S. Paulo

27 Dezembro 2014 | 16h00

:::MUNDO REAL::: Esta ficção foi baseada nos seguintes fatos de 2014:  Em agosto, o vazamento de fotos de celebridades nuas na internet, depois que hackers atacaram o serviço iCloud, da Apple, ajudou a esquentar os debates sobre feminismo e privacidade. O caso passou a ser investigado pelo FBI. A atriz Jennifer Lawrence disse que se tratava de ‘crime sexual’. E sua colega Emma Watson fez um duro discurso na ONU conclamando os homens a aderirem à luta pelos direitos das mulheres, o que foi rejeitado por parte das feministas.

Mano...

- Humm...

- Você bem podia ficar com a menor... também é jeitosa... mas tem muita opinião...

- Não foi esse o trato...

- É... acontece que daqui pra frente somos só nós indo para outra vida, longe de casa. E a pena em lombo de burro nesse estirão poeirento quem está pagando não é nem o pai e nem é a nossa mãe, pregados na lembrança daquele veio seco deles. Então é como lhe digo: a mais moça eu não quero, devo obediência a você, reconheço: nasci depois. Agora: essa troca não ia aborrecer ninguém que ninguém se conheceu direito ainda e nem teve tempo ou situação para réstia, que fosse, de apego.

- Ei! O que é isso?! Onde estamos?! Me deve bons anos de respeito, sim senhor! E se o nosso pai combinou com o pai das duas do jeito que agora está contrariando o mano, porque não pôs a boca no mundo antes da viagem? Não reclamou lá em casa em vez de ser assim de chofre, aqui no meio do caminho! 

- Você é mais velho! Tem pulso para dobrar a moça! É um favor que lhe peço, não custa nada!

- Custa! Custa muito! Custa a palavra do nosso pai!

- Se não estiver achando bom é melhor dizer logo: sumo no mundo e dou outro arranjo para minha vida mas, com aquela, não firmo compromisso na semana que vem e nem nunca!

- Aqui não é caso de bom nem mau! Nessa história eu entro, como você, para obedecer à vontade do pai! Não há de ser do olho de um descampado bravo que ninguém irá desfazer o que ele armou com tanto esmero ainda que eu mande o Ventura e o Gabino te amarrar no lombo dessa mula até Paracatu! Não me venha de novo com o assunto, ora já se viu! Estamos conversados! 

E com toda a certeza esporeou num trote mais ligeiro passando à frente sem trocar palavra por um intervalo de respeito nem com os dois escravos nem com o irmão, que também deve ter seguido mudo grande parte do trajeto se ela bem conhecia o marido e o cunhado. 

Josefa passava o tempo - longo - na enxovia úmida, encostada na parede dura e nas curvas da própria memória fazendo força para distrair a cabeça, da raiva; o corpo, da queimação sem trégua: bandos de muquiranas passeando por ela de alto a baixo, dia e noite, noite e dia, num concerto afinado de ferroadas que era puro inferno! Estava ali devia ter perto de mês e meio, noção de tempo esbatida e tratamento igual ao dos presos comuns, companheiros respeitosos, tinha de reconhecer, penalizados com a situação dela, recolhida quase aos 60 e levada a ferros sem atenuante ou regalia:

- Precisava mesmo ser desse jeito, coronel?

- Quem se porta como homem que seja tratada como tal! - ultimato do ministério conservador que mandou buscá-la em casa mais a um dos genros, consumada a derrota dos liberais em Minas, nos últimos dias de agosto, ano de 1842. Envolvidos também no movimento, marido e filho - dos vários que tinham posto no mundo - conseguiram escapar para o Desemboque. Então ela se agarrava nas lembranças buscando energia para varar os limites da cela, as muquiranas, o isolamento e - tirante o genro e meia dúzia de insurgentes - a falta de interesse pelos destinos dos outros presos, pobres diabos encardidos rescendendo a lavagem de porco, sinas atravancadas pelo acúmulo de grandes ou pequenos delitos, única saída entrevista por todos para tocar as existências sem horizonte.

Certo dia - e aquilo chegava fresco como se tivesse acontecido na véspera -, bom tempo depois de casados, os dois na flor da idade já amigos com afeto firme um pelo outro, o marido trouxe à tona o destempero por causa do arranjo entre os pais e a briga com o irmão, durante a viagem. Na hora Josefa não reagiu. Ficou quieta, olho baixo grudado na barra da saia. Mas depois, longe de todos, livre de qualquer censura, varou uma semana chorando escondido. Gostara do marido, moço bonito de expressão distante, desde a primeira vez em que o vira. E mesmo percebendo a simpatia dele aparecer só aos poucos, nunca lhe passara pela cabeça tivesse cogitado trocá-la pela irmã. Que lembrasse, jamais conhecera sofrimento igual! Nem mesmo na noite do casamento quando, acabada a festa, o noivo não quis ir para o quarto com ela. Pediu outro e ficou lá trancado, três dias e três noites sem sair, comendo e bebendo o que passavam pela réstia da porta. Até desistir e, vendo que não tinha remédio, aceitar o que havia sido preparado para o casal de modo que foi indo, foi indo, tudo entrou nos eixos e dos 11 que tiveram, conseguiram criar 10 filhos a salvo de vício e moléstia.

***

Cerca de 40 anos passados, presa, isolada numa solitária, Josefa voltava a lembrança para os irmãos entrando em Paracatu. Sujos, amarfanhados, contrafeitos um com o outro, cada qual escravo atrás - pés descalços pendurados nos lombos das mulas que espumavam por quantos pelos tinham -, cortando a praça bem embaixo da rótula onde a irmã e ela espiavam, assanhadíssimas, os noivos indo no rumo da estalagem. Tinham calculado o tempo e, a partir de certo ponto, passaram a ir e vir entre as janelas na frente da casa - enorme, pé direito alto para desviar o calor - e os espaços em que os cômodos se repartiam lá dentro. Neles, encadeavam as horas de função em função porque o pai não gostava de ver ninguém olhando para o forro e nem a mãe, eficiência e vontade firmes do mesmo jeito: sem ela, o pai não teria juntado o dinheiro que juntou e os dias, certamente correriam menos operosos. Então, de manhã à noite, Josefa e a irmã cumpriam as etapas da rotina, uma atrás da outra. Cardavam e fiavam o algodão que vestia a todos - até aos escravos da família - e quando a mãe não estava perto, só uma ou outra cativa concentrada na faina, iam tirando das rocas, no andamento regular do pedal, conversas detalhadas só delas, imaginando domínios para quando pusessem casa com os maridos que o pai haveria de arranjar para as duas. E ficavam nisso horas e horas: entretidas e fiando, entretidas e fiando... Era bom... Josefa tinha saudade daquele tempo... muita mesmo... Depois, panos feitos, varavam semanas pondo o que haviam fiado em saias para as escravas, calças folgadas para os escravos, batas para ambos; camisas, calças e paletós para o uso diário do pai e dos quatro irmãos; camisolões e saiotes para as três menores - Basília, Inocência e Francisca. Quando tinham cerca de 16, 18 anos faziam também os vestidos transpassados na cintura que elas mais a mãe usavam todos os dias até puírem no uso, de alto a baixo: chita azul com florinhas amarelas. Porque naquele tempo tudo era difícil. As roupas, como os objetos, não tinham luxo e precisavam durar. Já à igreja iam de cassa branca em modelos que ambas também coziam na perfeição uma experimentando na outra para testar o caimento: estavam sempre bem vestidas. Afinal, tinham obrigação de fazer figura porque o pai era um senhor muito bem posto, dono da casa comercial mais importante da região e de três lavras a céu aberto ainda vertendo ouro. Bem menos, era verdade, do que no tempo em que tinham chegado, vindos de Goiás. 

Para usar no frio, dentro de casa, a mãe, as escravas, Josefa e a irmã coziam uma espécie de abrigo de baeta - lã grossa, rústica, fiação doméstica também -, quase sempre azul-escuro, pegando pouco abaixo da cintura ou então mais comprido, abotoado até os pés. Para quando saíssem, fiavam, cortavam e coziam uma capa igual à das imagens de Nossa Senhora: ainda a baeta azul só que arrematada por uma barra de cetim na mesma cor, um pouco mais clara.

***

- Hora da comida, dona Josefa. 

Ela emergia no solavanco, do susto cortando a divagação e trazendo a presença de outro preso, companheiro diário cumprindo pena por delito bem mais complicado que o dela. 

- Pedi ao guarda no plantão pouca vistoria para a senhora comer, pelo menos, morno. Só que o estafermo torcia pelos legalistas sem fazer segredo, mesmo quando a coisa não estava lá nem cá. Agora: vencedor por cima, vencido na rua da amargura, ficar escarnecendo assim... isso não está certo!... Nem sei quantas vezes já falei lá na entrada - para ele e para os outros - que a senhora não tem costume com prato frio e nessas vasilhas só vem o arroz com feijão e mistura feito pelas escravas da sua casa: não vem faca, canivete, nem facão. Mas é falar com a parede! Cabeça dura: todos! Fingem de surdos e ficam tirando a limpo no maior detalhe, de propósit0! Parece até que a guerra não acabou!

- O pai desse devia ser português...

- Era sim senhora. Daqueles sem consolo por ter perdido o Brasil para os brasileiros. 

- São os piores! O meu avô também era mas, para ele, o Brasil sempre foi dos brasileiros desde a colônia: era uma exceção... Chegou sem nada para tentar a vida e fazer fortuna. E fez. Muita... Comércio em Santa Luzia... Acabou descendo até Paracatu bem antes de 1816, eu pequena ainda, no tempo em que a comarca era de Goiás. Meu pai e minha mãe vieram junto por causa do ouro e do movimento em torno. Mas de lá não me ficou nada, a lembrança mais remota a que chego traz só Minas.

Em certos trechos da conversa - quase sempre a mesma, todos os dias -, Josefa acabava perdendo o olhar na pedra cinzenta da parede áspera e era como se talhasse uma fenda por onde saiam pedaços do tempo vivido. O outro, habituado, ficava quieto, em pé ao lado da porta, respeitando. E também, com certeza, sentindo pena daquela senhora, a bem dizer já uma velha, afeita ao trem de vida em tudo invejável dos do naipe dela, posta ali como qualquer uma como se nem fosse quem era: dona de posses, mulher de respeito conhecida em toda a região e além. Ela e a família inteira: marido, filhos, filhas, genros e noras, todos abastados e importantes. Isso, devido à contrariedade com a política imposta no último ano pelo ministério do imperador menino e com os abusos do Partido Conservador, aquartelado na Corte. Pelo menos era do que se queixavam os liberais. E ali no Sudeste a revolta tinha explodido primeiro em São Paulo, depois, em Minas. Então, boa parte dos senhores de gravata lavada das duas províncias entraram em confronto aberto contra os senhores de gravata lavada que ditavam as normas do Rio de Janeiro, tentando dominar com medidas nada democráticas, diga-se de passagem, o excesso de liberdade fincado nos quatro cantos do Brasil desde as capitanias. Liberdade cara às camadas dominantes das províncias que haviam organizado a vida e os feudos com base nela e, vendo tolhido o espaço, investiram contra as forças do governo imperial com unhas, dentes, armas brancas e de fogo do mais vasto e variado calibre.

Por isso Josefa tinha sido trancafiada ao rés do chão, na Câmara de São Domingos de Araxá, sem recuar um milímetro das ideias mesmo com risco de perder terras e outros bens, consideráveis em número e valor para os padrões rudes daquela boca de sertão onde nascera, crescera, casara e criara os filhos. 

ESCRITORA, NASCEU EM SÃO PAULO. É AUTORA DE ANEL DE VIDRO (OURO SOBRE AZUL), VENCEDOR DO PRÊMIO SP DE LITERATURA 2014. ESTE TEXTO É O INÍCIO DE JOSEFA, SEU PRÓXIMO ROMANCE

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