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Preconceito e reparação

Um debate fora de lugar, enquanto a distância entre ricos e pobres aumenta nos EUA

Lee Siegel, O Estado de S. Paulo

14 Junho 2014 | 16h00

A distância entre ricos e pobres nos Estados Unidos aumenta a cada dia. Moradia a um preço acessível está se tornando impossível para um número cada vez maior de pessoas. A nova legislação do sistema de saúde teve o efeito inesperado de fazer o valor dos prêmios disparar. Disparos a esmo na multidão são ocorrências quase semanais. Escolas públicas sofrem um acelerado declínio. Uma formação superior decente ficou fora do alcance de boa parte da classe média. E a lista de patologias que se multiplicam na vida americana não para por aí. Uma consequência disso é que, nas últimas semanas, jornalistas e entendidos vêm discutindo intensamente sobre... reparações pela escravidão.

No passado, uma sociedade em crise - ou no limiar de tantas crises - seria entretida com, nas palavras do poeta latino, pão e circo. Mas para as classes opinativas, a diversão precisa ser mais séria. Tem de ter uma grave e solene ressonância. E deve levar os participantes do debate a sentir que estão ganhando influência moral pelo simples fato de discutir. O debate sobre a justeza de dar dinheiro à comunidade negra em compensação pelo horror da escravidão, e pelas décadas subsequentes de discriminação e violento preconceito, constitui um belo e solene tema. E tem o benefício adicional - como o livro de Thomas Piketty, que também foi recebido como o messias por liberais e pseudoprogressistas americanos - de não ter nenhuma possibilidade prática de se tornar realidade.

Este ano marca o 50º aniversário da aprovação da Lei de Direitos Civis de 1964. Havia um problema, porém. Os liberais raramente gostam de comemorar qualquer aspecto da realidade política ou social pura e simples. Eles sempre precisam encontrar o lado podre de uma coisa, a mentira por baixo da verdade proclamada, a vergonhosa hipocrisia oculta. O problema é que a Lei de Direitos Civis foi um absoluto sucesso. Ela transformou as vidas dos negros. Apesar de os preconceitos persistirem - em especial no sul, onde os linchamentos e a violência contra negros prosseguiram por muitos anos - a legislação histórica de 1964 decretou seu fim. Pode-se traçar uma linha reta da Lei de Direitos Civis à memorável vitória de Barack Obama em 2008.

Não só isso: a classe média negra prosperou e cresceu. Diferentemente de 50 anos atrás, os negros podem se distinguir em cada esfera da vida nacional. A histeria de racistas odiosos que a presidência de Obama desencadeou é amiúde citada como prova de que o progresso racial nos EUA é uma ilusão. Isso é uma bobagem. A tempestade de denúncias que se seguiu a toda histeria racista é prova de como se tornaram intoleráveis os mais leves sentimentos antinegros na vasta maioria dos americanos.

Pode-se quase ouvir o suspiro de desapontamento entre liberais que não tiveram nada para vituperar neste aniversário da Lei de Direitos Civis. É por isso que um ensaio interminável na revista Atlantic defendendo reparações pela escravidão, de um escritor negro chamado Ta-Nehisi Coates, foi recebido com apaixonada gratidão mesmo por pessoas que discordaram dele.

Havia, é claro, o nome: Ta-Nehisi. Seu altivo sabor africano encheu de orgulho liberais brancos, cuja única conexão com o povo negro havia sido com suas babás caribenhas, quando eles aprenderam a pronunciá-lo corretamente. E havia a natureza mesma do ensaio. Coates recitou cada horror e injustiça infligidos aos negros, da escravidão aos primeiros anos após a aprovação da Lei de Direitos Civis. Uma história lúgubre, mas familiar. Não havia nada de novo ou ousado na maneira como foi apresentada, mas alguns liberais brancos puderam se sentir numa maré de virtude por se sentirem superiores à procissão de donos de escravos, torturadores, assassinos e fanáticos.

As conclusões de Coates também inflaram a vaidade de todos que concordaram com ele. Quem não desejaria dar dinheiro ao povo que havia sofrido tão intensamente? O problema de aumentar impostos para pagar as reparações poderia ser resolvido no futuro. Muito no futuro. O fato de que as pessoas que haviam sofrido tão horrivelmente, e também seus descendentes diretos, terem morridos há gerações também poderia ser abordado mais tarde. O importante era reconhecer que, apesar de o país ter agora um presidente negro e a situação dos negros ter mudado de maneira irreconhecível, não havia motivo para comemorar. A história não pode ser alterada, e a história dos negros nos Estados Unidos foi, até muito recentemente, trágica.

É um sinal de impotência do sentimento liberal e progressista nos EUA que tanto barulho tenha sido feito sobre uma discussão tão absurda e apresentada com tanta mediocridade. Coates não faz nenhuma distinção entre os EUA antes da Lei de Direitos Civis e os EUA depois dela, e atribuiu à escravidão e aos preconceitos raciais cada infortúnio dos negros. Em certo ponto, ele escreve: “Tudo que as filhas de Obama conseguirem realizar será evidência da perseverança singular de sua família, e não de uma igualdade mais ampla”. Muito pelo contrário. Será evidência de uma igualdade alcançada por mecanismos como ação afirmativa e medidas antidiscriminatórias em habitação e educação superior que deixaram seus pais em igualdade de condições com os brancos - e às vezes mais que iguais, como o próprio Obama, que falou francamente sobre as políticas de ação afirmativa que o beneficiaram.

Pior de tudo, Coates não consegue reconhecer que as condições que afligiam negros pobres e da classe média são agora as mesmíssimas que estão atingindo a classe média branca. O preconceito contra negros ainda existe, com certeza. Mas ele é íntimo, psicológico, sutil - ou, no sul, culturalmente enraizado de incontáveis maneiras imperceptíveis. A realidade mais importante é que os preconceitos contra negros já não existem institucionalmente, e um corpo inatacável de leis torna impossível algum deles, quando trazido à luz, ter efeito social. Na escola elementar ultraprogressista e ultradiversificada de meu filho, garotos negros e brancos se ligam reflexivamente, em geral, com os da própria raça. Mas ninguém os está forçando a isso.

Houve um sentido, porém, em que o argumento pobremente pesquisado e escrito de Coates de que os negros fizeram pouco progresso real na sociedade americana se confirmou. Os leitores brancos que o aplaudiram jamais lhe dariam a menor atenção se tivesse sido produzido por um escritor branco com um nome facilmente pronunciável. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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Lee Siegel, escritor e crítico cultural americano, é colaborador do Jornal The New York Times e revistas como New Yorker e The Nation. É também autor de 'Você está falando sério?' (Panda Books)

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