Preconceito Futebolístico

Ensaio de Pier Paolo Pasolini repete clichês a respeito do futebol (e das culturas) que vêm se perpetuando e põem ‘cada país e cada raça em seu devido lugar’

RÉGIS BONVICINO,

03 de julho de 2010 | 12h28

Concretismo. Entrada de Felipe Melo no holandês Robben foi prosa ou poesia?

Quero discutir brevemente o ensaio do cineasta e escritor Pier Paolo Pasolini (1922-1975) intitulado Futebol de Prosa e Futebol de Poesia, de 1970. O ensaio, no qual o autor de obras-primas como Mamma Roma (1962) e Teorema (1968) reflete sobre o futebol, tornou-se marco incontestado por intelectuais. Sua tese central é a de que “há um futebol cuja linguagem é fundamentalmente prosaica e outro cuja linguagem é poética”. O texto repete os mesmos clichês a respeito do futebol (e das culturas), verdadeiros preconceitos que se perpetuam e põem “cada país e cada raça em seu devido lugar”.

Pasolini teoriza acerca da seleção brasileira de 1970, de Pelé, Gerson e Tostão, afirmando: “Quem são os melhores dribladores do mundo e os melhores fazedores de gols? Os brasileiros”, para concluir que seu futebol é “poesia” e o europeu, “prosa”. E acrescenta: “O futebol de poesia é o latino-americano. Esquema que, para ser realizado, demanda uma capacidade monstruosa de driblar (coisa que na Europa é esnobada em nome da ‘prosa coletiva’)”. A comparação entre futebol e poesia (João Cabral de Melo Neto e Carlos Drummond de Andrade) e prosa de arte (Guimarães Rosa e Clarice Lispector) me parece arbitrária e populista. O ensaio de Pasolini é confuso e ele se atrapalha ao manejar conceitos de Vladimir Propp, Roland Barthes e Julius Greimas. Poesia e prosa de arte pertencem ao âmbito erudito, da reflexão, do público de estima, e o futebol pertence - mesmo em seus momentos de brilho máximo, como a seleção brasileira campeã de 1958, 1962 e 1970 - ao universo popular, que, a partir dos anos 50, no pós-guerra, transformou-se paulatinamente em universo das massas, do consumo, do prazer imediatista.

Não há semelhanças entre poesia, prosa e o ludopédio. Arte é o inútil. Futebol é dinheiro. O futebol foi popular com um Garrincha, que inspira, até hoje, movimentos de dança erudita. Em 1970, Pelé já era um concorrido garoto-propaganda. Os estádios europeus já estavam repletos de placas publicitárias. O texto de Pasolini pode ser interpretado como um sintoma da substituição da arte erudita por outras “artes”, entre elas o futebol, sob a égide oculta do projeto capitalista de dissipação do juízo crítico, de transmutação da cultura em entretenimento com a roupagem de “arte”. É o momento em que a alta cultura (o próprio Pasolini cineasta, que as massas desconhecem), em nome da comunicação, dissipa-se no pop. Muitos citam esse texto, mas nunca assistiram a um filme do genial italiano.

A resenha do jornal El País sobre a partida entre Brasil e Costa do Marfim, na Copa de 2010, revelava a ideologia opressora que subjaz nos clichês e, igualmente, no ensaio do autor de Il Decameron (1971) - ideologia do “colonizador”. Em Pasolini, a coisa é inconsciente. O jornalista que assinou a resenha dizia que, embora vitorioso, o Brasil (e não a sua seleção) havia perdido muito de sua “graça”: “ganha como antes, entretanto, não propicia alegria, não há samba, mas muito heavy metal”. Há muito tempo o futebol é uma indústria milionária, que exige competitividade heavy metal acima de tudo - a tal da eficiência que tanto se reclama dos países latino-americanos. Eficiência nas empresas, no Estado, em todas as atividades. Sem eficiência, destaque-se, a seleção brasileira “poética” não venceria a Copa de 1970, na qual, por exemplo, marcou os adversários sob pressão, para roubar a bola, “driblar” e marcar gols. Daí o equívoco de Pasolini, ouso dizer. Equívoco que se exemplifica com a seleção holandesa de 1974, de Cruyff, Neeskens e Rensenbrink - tão “poética” e brilhante quanto a brasileira de 1970 e muito eficiente, com todos os jogadores atuando em todas as posições. A “laranja mecânica” holandesa trazia o recado que um “operário”, na linha de montagem, deve valer por três e ainda brilhar. É puro neoliberalismo. Quem não se lembra do golaço de Cruyff contra a Argentina? Um passe hábil e um toque à la brasileira do camisa 14 para as redes. Frases pasolinianas como “se o drible e o gol são o momento individualista-poético do futebol, o futebol brasileiro é, portanto, um futebol de poesia” evidenciam um preconceito mais do que uma verdade: os latino-americanos não podem participar, competitivamente, do mundo global, sob pena de perderem sua “poesia”. Se o futebol é metáfora da vida, como dizia Jean-Paul Sartre, Pasolini foi generoso demais com essa indústria.

RÉGIS BONVICINO, POETA, É AUTOR DE PÁGINA ÓRFÃ (MARTINS) E DIRETOR DA REVISTA ELETRÔNICA SIBILA

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