Predadores de águas turvas

Esgotos, agrotóxicos, devastação, mercúrio, lixo... Isso é apenas parte do arsenal dos assassinos de rios

Victor Leonardi*, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2009 | 02h04

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LIXÃO FLUVIAL - Canoeiro cata recicláveis nos detritos levados pela chuva

ao Igarapé do 40, em Manaus: bacia amazônica já não é invulnerável

As ações agressivas do homem sobre a natureza são muito evidentes no trecho do Rio Tietê em que ele passa pela capital, porém impactos ambientais semelhantes também podem ser observados em outros rios do Estado de São Paulo - o Piracicaba, o Mogi-Guaçu, o Paraíba do Sul -, nos quais foram constatadas, nas últimas décadas, várias alterações da qualidade da água e do sedimento. Essas alterações foram detectadas já nas nascentes e acabam se intensificando ao longo do curso dos rios. Visitei recentemente alguns municípios mineiros localizados na Serra da Mantiqueira, onde nasce o Rio Mogi-Guaçu, rio de minha infância, e fiquei chocado. No interior do município de Tocos do Moji, várias nascentes já desapareceram. A contaminação das águas pelos praguicidas é comum em vários municípios da serra, produtores de batata ou de morango, e a poluição aumenta à medida que o rio vai incorporando, a jusante, águas de afluentes nos quais são despejados esgotos domésticos sem tratamento. Isso acontece já no trecho inicial do Mogi, que nasce no município mineiro de Bom Repouso, e torna-se agressão muito maior nos municípios paulistas em que, além da poluição de origem orgânica, ocorre contaminação das águas por metais. Muitos fazendeiros utilizam sulfato de cobre como fungicida nas lavouras, e as concentrações de zinco são às vezes suficientes para causar toxicidade crônica nos peixes.

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A destruição de matas ciliares, em épocas pretéritas, criou um contexto que aumenta ainda mais a vulnerabilidade da natureza frente a essas múltiplas ações antrópicas. Já não posso parodiar Fernando Pessoa (o poeta dizia que o rio que passa por sua aldeia era melhor e mais bonito que o Tejo) depois que os coliformes fecais agravaram as condições sanitárias do Mogi e, principalmente, depois que vi, estarrecido, o desastre ecológico que ocorreu no município de Pirassununga, na Cachoeira de Emas, em outubro de 2002, quando toneladas de peixes mortos deram à paisagem da região um caráter tanatológico dantesco.

Volto sempre que posso aos barrancos do rio de minha infância, porém sinto que muita coisa mudou ali. São mudanças preocupantes, porém incomparavelmente menores do que as ocorridas no Rio Tietê no mesmo período histórico. Os paulistanos, no início do século 20, ainda nadavam, pescavam e mariscavam no Tietê, cujas margens eram frequentadas, aos domingos, por famílias operárias que ali organizavam piqueniques, algo impensável nos dias atuais, em que esse rio histórico foi transformado em viscosa e fétida cloaca. Que tipo de crescimento econômico é esse, sempre acompanhado de destruição?

Durante alguns anos, realizei estudos na área de história ambiental. Fiz várias pesquisas nos Rios Jaú e Carabinani e escrevi o livro Os Historiadores e os Rios, sobre a eco-história dessas bacias hidrográficas amazonenses. Constatei a existência de alguns problemas ambientais já no século 19, porém mostrou-se evidente, graças a uma comparação temporal, que os fatores impactantes tornaram-se, na segunda metade do século 20, muito maiores, o que demonstra uma clara tendência histórica para o agravamento cada vez maior da agressão. Nas áreas de garimpo, como era o caso do Rio Madeira nos anos 70 e 80, a magnitude do impacto foi tremenda, devido às quantidades colossais de mercúrio jogadas no rio. Existe progresso quando Tânatos derrota Eros e a morte ameaça formas de vida vegetais, animais e humanas?

O problema do lixo é grave nos córregos que fluem para o Rio Tietê; por isso, educação ambiental, saneamento e controle da erosão são atividades necessárias e importantes nas imensas periferias pauperizadas da Grande São Paulo. Mas não podemos esquecer que não falta escolaridade entre membros das diretorias das grandes indústrias, responsáveis pela toxicidade crônica de vários rios brasileiros. Não é por falta de informação que fábricas de grande porte, inclusive multinacionais, bem como alguns empresários do agronegócio, continuam poluindo o Tietê, o Mogi-Guaçu e tantos outros cursos d"água com ácidos, álcalis, despejos sulfíticos, sais tóxicos, graxas, silicatos, corantes, etc. Para esses "progressistas" senhores não falta conscientização: falta aplicar a lei, falta acabar com a impunidade.

A natureza foi tão agredida nas últimas décadas que agora está reagindo de forma igualmente agressiva. Vários rios amazônicos quase secaram em 2005, um ano depois que um tsunami devastou inúmeras localidades asiáticas. As mudanças climáticas têm consequências cada vez mais graves: o ciclone Nargis provocou o mais sério desastre ecológico da história da Birmânia quase na mesma época em que o Katrina destruía New Orleans. É a "intrusão de Gaia", como bem disse Isabelle Stengers em seu último livro. Comentando esse ensaio, o economista François Chesnais disse, em diferentes artigos publicados no Le Monde Diplomatique: estamos diante de um novo tipo de crise, resultado de uma combinação da crise econômica com a crise provocada pelas mudanças climáticas.

A timidez das soluções aventadas em Copenhague mostra que, se depender dos governantes atuais, essa dupla crise ainda vai se aprofundar muito nos próximos anos, com Tânatos dando as cartas por um tempo inadmissivelmente longo, que só irá agravar nossos problemas.

*Escritor e historiador, autor de Os Historiadores e os Rios: Natureza e Ruína na Amazônia Brasileira (ISBN)

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