Prêmio de exibição

Ciro Gomes sabe que não ganha a Presidência, mas candidatando-se terá garantida a exposição de seu narcisismo em rede nacional

Francisco Foot Hardman, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2010 | 01h00

O presidente Lula teve outro bom motivo, além dos aventados, para ver sua pressão arterial disparar, lá no Recife. No cardápio do jantar com o governador Eduardo Campos havia prato dos mais indigestos: o destino eleitoral do deputado Ciro Gomes. Repasto cujos ingredientes mais incômodos foram curtidos em salmoura nada melíflua pelo próprio Lula e confrades próximos.

Tantas foram as siglas partidárias por que já circulou que é mister reconhecer, na trajetória do governador, ministro e deputado cearense, um traço político que lhe sobressai pela permanência: o personalismo. Este o torna capaz de transitar, aventureiramente, impávido e impudico, entre as modernas oligarquias empresariais do Nordeste e as elites sindicais do moderno corporativismo do Sudeste. Fácil, para quem não possui projeto nem programa que não seja o da proeminência exibicionista de um ego sempre deslumbrado com o destempero das próprias palavras, com a autoimagem algo canastrona de animador provocativo e espetaculoso de auditórios medíocres.

As raízes mais remotas dessa encenação não se encontram nas ideologias políticas que se constituíram em modelos de referência na história contemporânea do Ocidente. A chave compreensiva desse protagonismo fincado em rompantes tempestuosos e na violência tirânica - mais ou menos contida - estaria, antes, na figura do caudilho gauchesco latino-americano tão bem desenhada por Sarmiento, a partir da paisagem dos pampas, nas páginas memoráveis de Facundo - Civilização e Barbárie. A ela pertencem, igualmente, Chávez ou Collor, Brizola ou Jânio, tão diferentes pareçam todos entre si, à primeira vista.

Ciro não é nenhum deles em particular, mas possui algo de todos no geral. Não enverga bombachas, nem farda, nem medalhas, nem óculos, nem foi gerado de início pela grande mídia televisiva. Mas como se parece com Collor, ainda mais assim, lado a lado nessa imensa e gelatinosa base governista!...

Se Collor sempre reafirmou um falacioso moralismo da mais reacionária estirpe, Ciro navega sempre em ventos da retórica mais esquerdizante. Mas reencontram-se ambos ao final de curta vereda de exaltações calculadas, no sonho comum de playboys de província. Não por acaso, comentava-se ainda nessa semana que, submetido o PSB a seu projeto presidencialista, Ciro buscava, agora, perdidas as chances de apoio do PC do B e do PDT, já bandeados para o barco de Dilma, a adesão do PTB de Collor-Jefferson e do PP de Maluf. Alguma incoerência? Sim, se permanecermos iludidos com os rótulos supérfluos da representação partidária no Brasil. Não, se percebermos que, assim como Juan Facundo Quiroga fazia de seu bando e de seu punhal as vezes da lei e do Estado, esses neocaudilhos fazem do estardalhaço midiático e dos conchavos neocoronelísticos a forma de repetir o antigo e manter o mesmo.

Ciro, justiça se faça, jamais fez uso do bando ou do punhal. No caso de sua candidatura completamente artificiosa ao governo de São Paulo, por exemplo, nada fez, a não ser ceder, transferindo seu título eleitoral, às artimanhas de outro cacique, esse sim, de muitos cacifes, a ponto de enquadrar o PT e sua máquina paulista. No cenário estadual, porém, muitas peças se movem. Quem quer de fato queimar candidaturas prováveis a postos mais amenos e menos disputados a ter que enfrentar, em posição de jogo de azar, o elevado favoritismo de Geraldo Alckmin para a volta ao Palácio dos Bandeirantes? Quem deseja ficar com o mico? O PT desfila nomes de figuras queimadésimas no mensalão, no episódio do caseiro Francenildo, no rumoroso caso dos aloprados. Parece não querer, de fato, anunciar uma candidatura competitiva. O senador Suplicy, que talvez pudesse cumprir esse papel, ao que consta recebeu o niet da censura papal, leia-se, lulal.

Ciro, porém, deixa claro que quer mais que o mandato paulista, até porque talvez perceba, de há muito, na armadilha que lhe armou o presidente, que se tentar, de fato, perderá. Fidelidade ao lulismo, tudo bem, mas sem exageros. Seus olhos se voltam, pois, para o horizonte vasto de Brasília e as alturas do Planalto. Será que, aqui, a ambição egótica não percebe que também muito certamente irá perder a corrida? Mas, sim, só que nessa esfera o que vale mais é a exposição escancarada de seu narcisismo em cadeia nacional. Teima em lançar-se, por razões que, embora pareçam paradoxais, somam-se na equidistância a um ideal bonapartista, à sombra, como ele mesmo sugeriu, do modelo perde-e-não-desiste do "filho do Brasil".

Assim, que ameaça, de um lado, levar Serra à lona, conduzindo-o para um indesejável segundo turno; de outro, na casa dos dois dígitos, subtrair votos preciosos da ministra Dilma, levando-a, no mínimo, a ceder a algum de seus caprichos - se, antes das convenções, quem sabe a uma vice-presidência, diante de sua arrogante insistência e ante eventual imbróglio dos chefetes e chefões do PMDB; e, se depois, quem sabe a um ministério maneiro, pós-eleição.

Com Ciro-cá, Ciro-lá, é fato que o fantasma da velha política ainda teima em assombrar os descaminhos de nossa triste República.

Professor titular do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp

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