Pressa em casar

Em menos de uma geração o casamento gay avançou para tema prioritário, o tipo de conquista que outros movimentos sociais levaram décadas ou mais para conseguir

Peter Baker, The New York Times, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2012 | 03h08

Quando Bill Clinton era presidente, em 1996, ele esperou quase até a 1 da manhã para assinar uma lei que definia casamento como a união entre um homem e uma mulher. Não gostou de fazê-lo, mas não queria vetar a lei faltando 45 dias para a eleição.

Dezesseis anos mais tarde, o presidente Barack Obama manifestou seu apoio ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, uma jornada que reflete não apenas a "evolução" pessoal dele como o atordoante ritmo das mudanças sociais numa era de tecnologia.

Da arena política aos tribunais, a emergência do casamento entre pessoas do mesmo sexo como tema de relevo, num intervalo de menos de uma geração, confundiu antigas concepções e desafiou a história. Uma mudança do tipo que outros movimentos sociais levaram décadas para concretizar viu-se acelerada nesta era de informação universal. Aquilo que era impensável nos anos 90 está se tornando cada vez mais comum. Homossexuais servem abertamente no Exército, casam-se e adotam filhos, enquanto a geração mais jovem não entende o porquê de tanta polêmica.

"Tivemos movimentos bem-sucedidos de mudanças sociais - o dos negros, o feminismo e agora os direitos gays -, e cada mudança parece ocorrer mais rapidamente que a anterior", disse Jonathan Rauch, escritor e scholar que foi um dos primeiros a propor o casamento entre homossexuais. "Pergunto se, numa sociedade mais conectada, as pessoas aceitam melhor as mudanças."

Hoje, 47% dos americanos apoiam o casamento entre pessoas do mesmo sexo e 43% da população se opõe à ideia, de acordo com o Pew Research Center. A alteração na opinião pública, equivalente a 26 pontos porcentuais no intervalo de uma década, representa uma mudança mais acelerada nas atitudes públicas que no caso de temas sociais anteriores, como o casamento inter-racial.

Isso não significa que os EUA tenham passado a aceitar o casamento entre pessoas do mesmo sexo, como indicado na aprovação de outra emenda constitucional na Carolina do Norte proibindo esse tipo de relacionamento, a 31ª nesse sentido. Quase sempre quando essa questão foi levada às urnas o eleitorado a rejeitou, e é provável que muitos outros Estados aprovem proibições constitucionais neste ano, incluindo Maryland e Minnesota. Somando as proibições estatutárias aprovadas pelas legislaturas, mais de 40 Estados proíbem esse tipo de união.

"Os propositores do casamento entre pessoas do mesmo sexo criaram um mito de inevitabilidade e os envolvidos na elaboração de pesquisas de opinião têm usado termos que reforçam essa imagem", disse Brian S. Brown, presidente da Organização Nacional pelo Casamento, que se opõe ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. "A única pesquisa de opinião que conta é a votação do eleitorado e, se analisarmos o resultado das urnas, veremos que nossa opinião triunfou em cada uma das votações."

Rauch concorda com os opositores quanto ao fato de as pesquisas de opinião apresentarem um resultado demasiadamente favorável ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Mas, diferentemente de outros movimentos sociais, disse ele, os defensores dos direitos dos gays mudaram atitudes ao fundir uma meta liberal com um valor conservador. Ao pedir o direito de constituir família eles estariam rejeitando uma imagem libertina que afastava muitos americanos.

Conforme a questão é tratada na arena política, ela se encaminha também para um momento decisivo na Suprema Corte, que logo pode ser chamada a se pronunciar. Casos separados estão chegando ao Supremo, contestando a proibição aprovada na Califórnia e a lei assinada por Clinton, chamada de Lei de Defesa do Casamento. Antes mesmo de fazer seu pronunciamento nessa semana, Obama tinha ordenado ao Departamento de Justiça que não defendesse a lei.

O Supremo é imprevisível nesse debate. Advogados acreditam que haveria quatro juízes defendendo cada lado, o que daria ao juiz Anthony M. Kennedy o voto de minerva. Como ocorreu com outros segmentos da sociedade, o Supremo mudou sua maneira de pensar à medida que os juízes foram conhecendo pessoalmente gays. O juiz já morto Lewis F. Powell Jr., que, ao redigir uma decisão defendendo a proibição à sodomia disse a um escrevente secretamente gay que nunca tinha "conhecido um homossexual", afirmou depois que sua decisão foi equivocada.

Mas Kennedy pode relutar em inserir a corte numa questão social tão carregada, na falta de consenso nacional. E alguns defensores dos direitos dos gays temem que, mesmo que a corte decida a seu favor, a reação poderá ser agressiva. Eric J. Segall, professor da Universidade Estadual da Geórgia, disse que, ao garantir o direito ao aborto no caso Roe vs. Wade antes que o país estivesse pronto, a corte fortaleceu um movimento conservador que beneficiou Ronald Reagan.

Outros acreditam que o ritmo da mudança, impulsionado pela tecnologia, mudou essa equação. A questão não pode ser mais claramente enquadrada em termos ideológicos. Muito antes de Obama, Dick Cheney e o ex-presidente do Comitê Nacional Republicano Ken Mehlman apoiaram o casamento entre pessoas do mesmo sexo, enquanto muitos membros negros do clero que normalmente formam a base da coalizão democrata faziam campanha contra o casamento gay.

Um dos principais advogados contra a proibição na Califórnia é Theodore B. Olson, que defendeu o fim da recontagem de votos na Flórida, abrindo caminho para Bush à presidência. Por sinal, os opositores da Lei de Defesa do Casamento incluem agora o republicano Bob Barr, que defendeu a lei em 1996, quando era representante da Geórgia. Barr, que deixou o partido e se tornou libertário, concluiu em 2009 que a lei atava as mãos dos Estados que quisessem legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo, e solicitou sua anulação.

Ele não é o único autor da lei a manifestar arrependimento. Entre os políticos que gravaram mensagens endereçadas aos eleitores da Carolina do Norte, pedindo-lhes que rejeitassem a proibição, nessa semana, estava o próprio Clinton. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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